Entrevistando Fernanda Vareille – Parte I

foto_fernanda2Ela se formou em Direito pela Universidade Católica do Salvador, mas logo depois foi a Londres fazer mestrado em documentário na Goldsmiths College, University of London. Em Paris, fez um segundo mestrado na Universidade Sorbonne Nouvelle, em cinema e audiovisual. O mestrado em Londres proporcionou à cineasta baiana Fernanda Vareille ir para a Cisjordânia, onde passou dois meses na região filmando e entrevistando pessoas. Surgia ali o seu primeiro filme, “Let me Live” (Deixe-me Viver/2009), que recebeu, em 2010, o prêmio do júri de melhor documentário no Festival de Cinema da Anistia Internacional em Paris.

“Após essa experiência, me dei conta de que era isso que eu queria fazer na minha vida”, admite Fernanda, que hoje divide seu tempo entre o Brasil – onde tem uma empresa em Salvador, a Águas de Março Filmes – e a França, onde mora.  Hoje, prestes a lançar o seu primeiro longa documental, intitulado “A loucura entre nós” (patrocinado pela Petrobahia e a Carbocloro), ela se dedica a inscrever o filme em festivais e promover o debate sobre o tema ao qual se dedicou desde 2011, quando iniciou as filmagens em Salvador: o universo, as reflexões e os desejos de pacientes de um hospital psiquiátrico brasileiro.

“A loucura entre nós” parte do trabalho da ONG Criamundo, de reinserção no mercado de trabalho do paciente psiquiátrico, e do Hospital Juliano Moreira, na Bahia, para o encontro com personagens absolutamente fortes e, ao mesmo tempo, extremamente fragilizadas por suas condições. Nessa primeira entrevista (a ser publicada em três partes), dá para perceber que, desatando os “nós” desse tema carregado de tabus, a identificação com o universo abordado pela poesia de sua câmera pode ser bem mais rápida do que imaginamos…

Por que você mora em Paris?
Fernanda Vareille – A França é o país da Europa onde há a maior produção cinematográfica. Paris é uma cidade onde há muitas oportunidades para quem é apaixonado por cinema. É uma cidade rica culturalmente, com muitas exposições de arte, uma vida cultural bastante interessante. Mas o motivo principal é que eu sou apaixonada por um francês!

Como é a sua relação com o Brasil?
Eu passo alguns meses por ano no Brasil. Tenho uma empresa em Salvador, a Águas de Março Filmes. Sou completamente ligada ao Brasil, onde tenho projetos profissionais. Divido meu tempo entre Paris e Salvador.

E de onde surgiu a ideia de fazer “A loucura entre nós”?
A partir de uma conversa com Dr. Marcelo Veras, meu amigo, que me deu um exemplar do seu livro e me falou sobre o Criamundo. Ele foi diretor do Hospital Juliano Moreira e me contou um pouco da sua experiência.

Mas o filme não é uma adaptação do livro homônimo de Dr. Marcelo Veras. Quais são os pontos em comum e os divergentes entre as duas obras?
O filme foi livremente inspirado no livro de Dr. Marcelo Veras. Na primeira parte, Dr. Marcelo conta sua experiência como diretor do hospital e conta como aplicou a psicanálise para administrar o Juliano Moreira. Ele descreve um universo que me inspirou. A ideia de realizar o documentário surgiu a partir desse encontro. Mas o filme mostra o meu encontro com essas pessoas, com o hospital.  Existe uma personagem que está no livro e no filme. A segunda parte do livro é bastante técnica e requer um conhecimento acadêmico para conseguir acompanhar as teorias. O “nós” de “A loucura entre nós” se refere à primeira pessoa do plural, mas também aos nós, ou seja, às amarrações, os laços que podemos fazer na vida. Ele mostra isso usando os teoremas de Lacan; eu tento mostrar através das imagens.

Quando começou o processo de pesquisa para a produção?
Começou em 2011. Vi que eu tinha uma oportunidade única diante de mim: aprender a conhecer personagens únicas. A filmagem começou em 2011; o filme foi finalizado em março de 2015. Contamos com o patrocínio cultural de duas empresas: a Petrobahia e a Carbocloro (através do artigo 1° A da Lei 8685/93, Lei do Audiovisual) que foram fundamentais para que o filme pudesse ser realizado. São empresas que reconhecem o investimento na cultura e que acreditaram no nosso projeto e na importância de se fazer um filme sobre essa temática. O resultado é um filme de 78 min, o meu primeiro longa metragem. Anteriormente havia realizado três curtas, dois de documentário e um de ficção.

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Como você formou sua equipe?
Entramos no hospital com uma equipe reduzida formada por diretor, diretor de produção, operador de áudio e diretor de fotografia (Amanda Gracioli, João Tatu e Gabriel Teixeira). Essa foi uma das estratégias de trabalho. Eles foram escolhidos, além da capacidade técnica, pela capacidade humana de interagir e compreender a complexidade do tema, pela delicadeza e o cuidado com os entrevistados.

A trilha original do filme, bem marcante, foi criada por Laurent Perez Del Mar, importante nome do cinema francês. Como ele se interessou pela obra?
Nós fizemos algumas projeções teste; convidamos para essas projeções um público bem diverso. Laurent veio a uma dessas projeções. Eu admirava o trabalho dele e gostaria de trabalhar com ele. Como senti que ele gostou realmente do filme, me senti à vontade de propor que ele fizesse a composição musical.

IMG_2117Você já tinha algum contato com o universo do filme?
Eu nunca havia entrado em um hospital psiquiátrico anteriormente. O contato que havia tido com o universo do filme, ou seja, a loucura, vinha dos meus próprios questionamentos sobre a minha sanidade e observação de pessoas ao meu redor.

O Juliano Moreira levou você à Criamundo, ou foi o contrário?
Inicialmente a Criamundo era o meu foco de trabalho e de filmagem, mas me concentrar apenas na Criamundo não seria suficiente para o filme que queria fazer.  O filme é sobre as pessoas e, necessariamente, eu precisava mostrar o universo daquelas pessoas envolvidas, e isso incluía o hospital. Na época da primeira etapa da filmagem, a Criamundo se situava no interior do hospital; necessariamente precisávamos passar pelos corredores do Juliano Moreira até chegar à Criamundo.

Você diria que o filme revela mais sobre o Juliano Moreira ou sobre a Criamundo?
“A loucura entre nós” procura revelar a subjetividade daquelas personagens, retratar as suas realidades. Não é um filme sobre essas instituições, mas sobre sujeitos, suas questões, seus destinos, as suas trajetórias. A Criamundo foi o intermediário ideal, por justamente cuidar dessas pessoas que estão buscando uma reinserção social e que tem histórico de duras passagens nos corredores asilares.

(Para conferir a segunda parte da entrevista com Fernanda Vareille, entre aqui. Se quiser acessar a terceira e última parte, é só clicar aqui)

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