Entrevistando Fernanda Vareille – Parte II

DSC00986 Continuando a entrevista com a diretora do documentário “A loucura entre nós”, publicamos agora a segunda parte do bate-papo exclusivo sobre os bastidores da produção.

Agora, Fernanda Vareille revela aspectos sobre suas primeiras impressões, o dia a dia de trabalho no filme e algumas descobertas importantes feitas nesse processo.

Em breve, divulgaremos a última parte da conversa. Se quiser conferir a primeira parte da entrevista, é só entrar aqui. Já a terceira e última parte pode ser acessada neste link.

Quais foram suas primeiras sensações ou impressões ao entrar no Juliano Moreira?
Fernanda Vareille – A primeira impressão que eu tive não foi de medo ou de apreensão. Fiquei curiosa, fascinada e vi, no meu olhar bastante ingênuo da época, uma certa liberdade das amarras sociais, que, naquela época, achei bastante atraente. Mas devo reconhecer que essa primeira impressão carrega uma visão bastante ingênua.

Você tinha uma ideia preconcebida sobre o universo tratado no filme?
Ingenuamente eu associava a loucura com a liberdade. No inicio eu romantizava sobre a loucura, via até uma poesia no hospital. O que desapareceu quando amadureci o meu olhar.

Como você chegou às personagens abordadas do filme?
A escolha foi intuitiva, como uma amizade verdadeira, em que ela surge, é natural, não se precisa programar muito.  As duas personagens principais eram extremamente generosas comigo, com a câmera, elas tinham muito a dizer, o que falar. Passamos meses frequentando o hospital, a relação se estabeleceu naturalmente e a cada retorno nosso essa relação se fortalecia. Filmávamos todos os integrantes da Criamundo, às vezes com a consciência que não fariam parte do documentário, mas sentíamos as suas necessidades de falar, de se expressar.

Algumas delas ganham certo protagonismo no documentário. Isso foi pensado antes, foi sendo descoberto durante as filmagens ou foi revelado com a edição final?
Filmamos em várias etapas e já na primeira etapa das filmagens sabíamos quem queríamos para serem as protagonistas. Leonor, sem dúvida, era uma delas. Mas não estávamos seguros que ela concordaria, aos poucos ela foi se abrindo e adquirindo confiança na equipe. Na segunda fase, quando retomamos as filmagens, havíamos ganhado a confiança de Leonor e contávamos com toda a generosidade dela para contribuir com o filme. Algumas pessoas que eu achava que fariam parte do filme, decidimos cortar na edição final.

O filme nos faz presenciar momentos de “normalidade”, de surto e até de profunda apatia por parte de alguns delas. O que era mais instigante filmar?
Difícil usar a palavra instigante. Nós convivemos com essas pessoas e, é claro, criamos laços com elas. Vê-las em surto nos deixava, no mínimo, desconfortáveis, e sempre entrávamos em contato com a equipe médica do hospital e da Criamundo para sabermos os nossos limites, e se, de alguma forma, a câmera poderia intensificar ou despertar uma crise, sempre procuramos agir com esse cuidado. O filme é importante, mas não estávamos fazendo uma ficção, ali existiam pessoas de verdade que importavam mais do que a nossa história.

IMG_2077 2Quais foram as principais dificuldades de fazer esse filme?
Enfrentamos muitas dificuldades. Da captação de recursos à nossa adaptação ao hospital, nada foi fácil.  E as surpresas no momento da produção, principalmente no primeiro mês, eram constantes. Chegamos a colocar uma Go Pro (câmera) dentro do carro para filmarmos as nossas conversas após o dia de filmagem. Não utilizei esse material, pois seria outro filme… Dentre as surpresas posso destacar o dia em que presenciamos o surto de Leonor, uma das personagens abordadas. Esse momento foi revelador e, de certa forma, influenciou na direção do filme. Até então ela assumia uma postura discreta e reservada. Ela nos concedia entrevistas, mas sempre fugia das questões muito pessoais. Nas entrevistas, ela falava genericamente sobre a vida, sobre questões abstratas. A equipe se questionava sobre a real loucura dela. Por isso mesmo, acreditava que ela poderia ser uma personagem interessante no filme, pois se enquadrava como louca, estava frequentando a Criamundo, mas fugia dos estereótipos do que consideramos louco.

Um determinado dia, vi Leonor em surto. Acho que foi uma realidade que veio à tona. Nos dias anteriores, acho que esse surto se anunciava, mas como não tínhamos experiência e conhecimento para identificar, achamos que ela estava mais aberta, alegre, mas não esperávamos o que iria acontecer. O que nos restava da nossa visão romantizada da loucura foi embora. A realidade passou a ser mais dura do que imaginávamos. Nesse mesmo dia ela nos revelou tudo que tentava esconder durante meses e despe-se completamente para as câmeras revelando, neste momento, tudo aquilo que parecia um tabu. Perdemos a ingenuidade.

Como era o dia a dia da produção do filme?
Filmamos em regime de imersão. Chegávamos cedo ao hospital e permanecíamos durante todo o dia convivendo com as personagens. Em muitos dias não filmávamos, estávamos lá, presentes, convivendo com elas, para que se acostumassem com a nossa presença, com a presença da câmera.

IMG_1947Como era a relação de vocês com a equipe da Criamundo e do Juliano Moreira?
A receptividade dentro da instituição Criamundo foi muito boa desde o inicio, fomos apresentados por um psicólogo que também é o administrador da instituição. Portanto, a transferência com os integrantes da instituição já estava estabelecida. A nossa recepção foi facilitada porque fomos trazidos por alguém que já tinha uma relação de confiança muito forte com eles.  No início tivemos um pouco de dificuldade de filmar no hospital; éramos novos ali. Fizemos um intenso trabalho de convencimento das suas diferentes camadas de poder. Não bastava o diretor autorizar; as pessoas que trabalham lá deveriam concordar também. Foi um trabalho que exigiu tempo.

Mas aos poucos adquirimos a confiança das pessoas. Explicamos, desde o início, o propósito da filmagem. Queríamos fazer um filme sobre a loucura, dando voz ao louco que muitas vezes não se é dada a voz, explicamos que nossa intenção não era sensacionalista, mas queríamos ter acesso à subjetividade do ser, através da palavra, do contar as suas historias. Gostaríamos de acessar o universo daquelas pessoas que seriam entrevistadas.

Qual foi o seu maior prazer nesse processo?
O prazer da auto descoberta. Durante as filmagens, principalmente na primeira etapa, entrar em um hospital, conhecer aquele mundo, conhecer aquelas pessoas, tanto os pacientes como os funcionários, é um eterno questionamento. Você é obrigada a se colocar em questão a todo o tempo. Sempre me perguntava: Por que tal pessoa me interessa? O que ela tem que me faz despertar curiosidade por ela? Por que a entrevista com fulano me incomodou? Essas são apenas algumas. Era uma enxurrada de perguntas e questões que vinham à tona que me faziam rever os meus próprios fantasmas e questões, conceitos… Acho que os outros integrantes da equipe passaram por processos similares. Existia, para mim, um prazer em confrontar essas questões e, dessa forma, descobrir mais sobre mim mesma. Mesmo que este possa ser também um processo dolorido. E, é claro, depois de quatro anos, ver o fruto de seu trabalho em uma tela de cinema emocionando pessoas é um prazer incomensurável!

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