Entrevistando Fernanda Vareille – Parte III

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Nessa terceira e última parte da entrevista com a cineasta Fernanda Vareille, a diretora do documentário “A loucura entre nós” mergulha mais fundo nas etapas que construíram o processo de filmagem, revelando ainda mais camadas de toda a jornada.  Qual é a contribuição do filme para as pessoas que fazem parte dele? Como você definiria “Loucura”? Como você definiria “Normalidade”? Perguntas cujas respostas encontramos nessa conversa final!

Para ler a primeira parte da entrevista, entre aqui.

Para conferir a segunda parte da entrevista,acesse este link.

O sotaque e a exuberância do céu da Bahia entregam a regionalidade do filme, mas é um universo que poderia pertencer a qualquer lugar do mundo. Você concorda que existe essa universalidade ou acredita que existe ali algo de muito específico, muito baiano?
Fernanda Vareille – Tem elementos da regionalidade baiana, sim, mas concordo que se trata de um tema universal.

Às vezes o filme nos leva para um lugar seguro, revelando a “loucura” de longe, por trás das grades do Juliano Moreira. Noutras, nos coloca no meio de tudo, com os pacientes dominando a câmera e nossa atenção. O que você quer exprimir com essas duas abordagens?
Acredito que estas duas abordagens tenham vindo do longo processo de desenvolvimento do filme. A nossa primeira filmagem aconteceu em 2011 e a última, em 2014. Foram três anos de filmagem e nesses três anos houve um amadurecimento da nossa equipe, do nosso olhar. Aquele mundo, que nos atraia por ser distante de nós, exótico, por uma curiosidade ingênua, passou a nos atrair por outra razão.  Houve uma tomada de consciência durante o processo.

IMG_2124Numa das cenas mais impactantes, os pacientes começam a cantar o hino nacional disputando um lugar de destaque no olhar da sua câmera. Mas existem também momentos em que sua equipe parece interagir com esse universo de uma forma bem discreta, quase invisível… Foi difícil encontrar esse equilíbrio? Melhor: você acha que conseguiu (ou desejou) encontrar esse equilíbrio?
Nós passamos muito tempo no hospital, acompanhamos diversos movimentos. Aquela imagem do hino nacional, à qual você se refere, foi no nosso primeiro dia de filmagem, estávamos novos lá dentro. Ninguém nos conhecia, havia uma curiosidade de todos, eles não estavam habituados com a nossa presença. Aos poucos, nós mesmos nos tornamos invisíveis; com o tempo, não importávamos mais. Ficamos naturais daquele ambiente. Parecia mágica! Com o tempo passando, passamos a fazer parte da paisagem do hospital e até os seguranças mais severos já sorriam para a gente; adquirimos a confiança deles. O olhar deles sob a gente, tanto dos pacientes como dos funcionários, havia mudado. No início, havia um temor da nossa presença, quase como se fôssemos uma ameaça. Mas, com o tempo, não causávamos mais medo.

Existe uma solidão comum, um limiar de “Sanidade X Loucura” com o qual todos nós podemos nos identificar ao assistir o filme. Essa foi uma das suas buscas?
Sim, por essa razão escolhi a Criamundo como ponto de partida, pois trata de pessoas que estão mais evidentemente nesse limiar.

Para você, qual é a contribuição do filme para as pessoas que fazem parte dele?
Leonor, em uma entrevista, revela que o filme deu um élan na sua vida. Ela dizia que encontrou força para viver durante os três anos de filmagem. Ele era motivada pelos nossos próximos encontros. O filme possibilitou dar voz àquele que, muitas vezes, não se é dado a voz. Queríamos ter acesso à subjetividade das pessoas, através da palavra, do contar das suas histórias. As pessoas tinham uma oportunidade, uma abertura de expor os seus problemas, as suas questões, eram ouvidas, importância era dada às suas palavras, se tornavam sujeitos. Contavam as suas próprias histórias.

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E para a sociedade em geral?
Acredito que o filme possa despertar debates interessantes, questionar algumas coisas relativas a esse universo.

Existe um fato, inesperado e revelado depois de algum tempo, que dá uma nova dimensão ao filme, quase no final. É como se o próprio filme fosse mudando de tom ao longo da sua narrativa. Esse fato interferiu na edição/produção do documentário de alguma maneira?
Quando aconteceu o fato ao qual você se refere, já havíamos terminado as filmagens e estávamos em fase de edição do documentário. Esse evento mudou o rumo da edição e mudamos o roteiro em decorrência do acontecido. Naquele momento já sabíamos que queríamos contar a história de duas mulheres.  Mas se tornou a história de duas mulheres com dois destinos.

Como o filme vem sendo recebido pelas pessoas que já tiveram a chance de vê-lo?
As pessoas geralmente ficam incomodadas. Vejo que o filme mexe com as pessoas, as questiona, as faz pensar e se abrir a um novo mundo. Acho que esse é o objetivo do cinema.

Como o filme interferiu na sua vida?
Esse foi o meu primeiro longa; quatro anos se passaram do momento em que eu decidi filmar até o filme pronto. Acompanhei e estive envolvida em todos os momentos. Desde a elaboração do projeto, captação de recursos até a distribuição. Aprendi muita coisa com esse filme, com as pessoas que tive oportunidade de trabalhar. Mas o mais agregador foi esse processo de autodescoberta imposto ao fazer um filme sobre essa temática. Posso dizer que a confecção desse filme e os encontros que tive através dele foi um divisor de águas na minha vida.

Como você definiria “Loucura”?
Essa é a pergunta mais difícil da entrevista. Após essa incursão nesse mundo, continuo sem resposta. Não acho que há uma resposta, pois sempre vai depender das questões culturais, sociais. Leonor costumava dizer uma frase que eu gosto muito: “A loucura é uma coisa tão louca, tão louca que nem parece loucura”.

Como você definiria “Normalidade”, então?
Quem assistir o filme verá que não dou essa resposta; o filme mostra que esse limite não é tão claro. Então, eu não sou a pessoa certa para esclarecer essa questão!

Quando ele será lançado?
No segundo semestre de 2015. Espero que seja distribuído nos cinemas nacionais e internacionais e que seja tema para debates e discussões. Espero também que possa tocar as pessoas como todo esse processo de elaboração me tocou.

 

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