Entrevistando Marcelo Veras – Parte I

Marcelo_VerasContinuando o processo de debate sobre as subjetividades contidas no filme A loucura entre nós, da diretora Fernanda Vareille, damos voz agora ao Dr. Marcelo Veras, autor do livro homônimo que inspirou o filme.

Como a própria diretora admite: “O filme surgiu a partir de uma conversa com Dr. Marcelo Veras, meu amigo, que me deu um exemplar do seu livro e me falou sobre o Criamundo”. A partir daí, a porta para a criação de uma nova obra foi aberta, mas sempre estabelecendo estreitos laços com o universo apresentado pelo Dr. Marcelo – que concluiu recentemente um festejado período como Diretor da Escola Brasileira de Psicanálise.

Então, nada melhor que mergulhar numa conversa franca – e inspirada! – com um dos nomes mais que respeitados quando o assunto é Saúde Mental. Um papo dividido em duas partes (aqui publicamos a primeira delas), onde o Dr. Marcelo Veras fala de sua experiência como Diretor do Hospital Juliano Moreira, de casos presenciados em sua vida profissional, das impressões sobre o documentário feito a partir de seu livro e, claro, sobre os “nós” da loucura existente em cada um de nós!

Qual foi o seu objetivo ao escrever o livro “A loucura entre nós”?

Dr. Marcelo Veras – Após sete anos dirigindo o hospital, havia acumulado muitas histórias e adquirido uma experiência única. Achei importante mostrá-la a um público maior. O livro também teve a função de desfazer a ideia geral de que o psicanalista só vive em seus consultórios, distante do mundo cotidiano. Um psicanalista à frente de um hospital psiquiátrico é a prova de que estamos no mundo real.

Que universo ele aborda? Meu livro trabalha em dois planos; inicialmente busca retraçar as coordenadas históricas que levaram o Hospital Juliano Moreira a ser o que ele era no ano 2000. Ele foi construído com o espírito da anti-psiquiatria e deveria ser um hospital moderno, mas rapidamente havia se transformado em um asilo psiquiátrico que não diferia muito dos asilos históricos que seus idealizadores tanto combatiam. Nesse sentido é importante abordar os diferentes discursos, seus personagens, as ações políticas. Percebe-se rapidamente que uma lógica invisível sempre tende à segregação da loucura e alijamento do louco do contato social. A resposta como psicanalistas não passa tanto pelo macro, mas pela tentativa de estabelecer uma clínica que trate cada caso um a um, no singular.

Ele traduz uma realidade baiana ou seu universo pode ser ampliado para o âmbito nacional? Uma realidade nacional e que pode ser estendida para muitos países. Há algo de universal na segregação da loucura.

Quanto tempo o senhor ficou à frente do Hospital Juliano Moreira? O que pode falar sobre essa experiência? Fui diretor do HJM de 2000 a 2007. As dificuldades eram muito grandes. Escassez de recursos, incompreensão por parte dos órgãos públicos do que era a Saúde Mental, preconceito de todos os lados. Em época de eleições, por exemplo, era comum chegar ambulâncias de toda a parte de Estado simplesmente trazendo os loucos que estavam nas ruas das cidades do interior sem nenhuma necessidade de internação, o objetivo era simplesmente “limpar” a cidade.

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Qual é a representatividade – e particularidades – do Hospital Juliano Moreira quando se fala em tratamento psiquiátrico? É curioso que o hospital tenha se transformado no oposto do que preconizava o psiquiatra que lhe dá nome. Juliano Moreira foi um dos homens mais interessantes da medicina brasileira. Negro e vindo de família humilde, ele mesmo dizia que não seria aceito nas casas das grandes famílias baianas, que lhe restariam apenas os tuberculosos e os loucos. Pois bem, ele foi para a Alemanha, estudou psiquiatria com os melhores do mundo, chegou a ser condecorado no Japão pelo imperador Hiroíto pelos avanços na psiquiatria que concebeu. Foi do primeiros a ler Freud no Brasil. O Hospital Juliano Moreira ainda se reinventa, mas continua a ser a maior referência em termos de hospital público da Bahia.

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Qual a sua relação com a Criamundo? Quando era diretor percebia que um grande entrave para os pacientes vinha da questão econômica. Eles não tinham fonte de renda. Era comum chegar uma senhora dizendo que tinha um filho esquizofrênico, que não tinha dinheiro para cuidar dele, que todos estavam desempregados etc. De repente, exatamente esse filho que era um problema é quem passava a ganhar dinheiro, ajudar na casa. É como se partisse justo dele uma melhora da família como um todo. Inicialmente o projeto virou uma ONG, mas são tantas as burocracias que pesam sobre as ONGs que passávamos mais tempo resolvendo problemas burocráticos do que trabalhando com os pacientes. Em seguida o CRIAMUNDO passou a ser um projeto atrelado à política de cotas para portadores de necessidades especiais de uma fundação, a FAPEX. O que muda quando ela se torna um projeto é que projetos tem começo, meio e fim. Ou seja, não pretendemos perenizar o CRIAMUNDO, queremos que ele seja uma experiência que possa ser contada para que outros inventem suas próprias experiências.

Em linhas gerais, quais são hoje as questões mais pertinentes em relação à discussão sobre o tratamento do paciente psiquiátrico e sua integração à sociedade? A questão sempre apresentou tensões entre os que defendem a internação e os que condenam a internação psiquiátrica. Essa questão é universal. A série Homeland, uma das séries americanas de maior sucesso no mundo, mostra justamente a violência da ação psiquiátrica nas internações. Há também a questão da medicalização excessiva, o que faz com que vivamos em um mundo de adictos. Quase todo mundo usa algum calmante ou antidepressivo em algum momento da vida hoje em dia. Mais uma vez, essas questões possuem diferenças regionais – ou internacionais? Ou seja, existem particularidades nessas questões para diferentes regiões do país? A questão do peso da indústria farmacêutica na prática dos psiquiatras, influenciando diagnósticas, fazendo lobbies com associações psiquiátricas, me parece ser uma questão universal. Outras questões como a qualidade do atendimento dos serviços de Saúde Mental varia enormemente de país para país.

E quais seriam as particularidades baianas nessa área? A Bahia, por décadas, ficou para trás na corrida por uma melhoria dos serviços de Saúde Mental. A partir da última década algo melhorou com o surgimento dos Centros de Atenção Psicossocial, que descentralizam os atendimentos e são alternativas bem menos drásticas de atendimento do que a internação. Mas há ainda muito a ser feito.

(Confira aqui a segunda parte da entrevista com Dr. Marcelo Veras)

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