“A loucura entre nós” a partir do olhar de Marcus André Vieira

Por Marcus André Vieira*

Marcus_Andre_VieiraA loucura entre nós, de Fernanda Vareille, é um documentário que tem mais de uma porta de entrada. É a história de Elisangela, paciente psiquiátrica internada no maior Hospital Psiquiátrico da Bahia, Juliano Moreira. Jovem, com filha menina e mãe firme, as três vivendo juntas. Ela cruza seu destino com outra mulher, Maria Leonor, mais velha e solitária, já internada diversas vezes, mas que no momento apenas frequenta o mesmo Hospital. Uma está agitada, desorganizada, enlouquecida; a outra, aparentemente mais “dentro da casinha”, apesar de contida, tensa. Enquanto Leonor tenta organizar o jardim em mandalas perfeitas a outra só vê nisso obra do demônio, e tudo desmonta. Nestes pequenos detalhes, sempre buscados pela câmera, vivemos, com ambas, as agruras do exílio da razão racional e do laço social comum e a busca por um lugar às voltas com uma singularidade que tudo desencaixa. Acompanhamos também o quotidiano do projeto Criamundo, frequentado por ambas, em seu paradoxo inicial. Concebido como geração de renda para os que têm condição de participar de um trabalho continuado, ele tenta sustentar a passagem de uma vida intramuros e outra mais adequada ao mundo externo. No entanto, se situa no interior do Hospital como uma ilha cercada de loucura por todos os lados, pois o acesso a ele é vedado aos que não trabalham no projeto e não podem entrar nas dependências ocupadas pelo Criamundo.

A câmera se deixa tomar pelos paradoxos dessas três histórias e nos propõe a todo instante uma reviravolta, já que seu olhar permite-se atravessar grades e portas por não levá-las tão a sério e demonstra como tudo depende de onde se vê. A cena inicial do filme já anuncia essa atopia do olhar. Vê-se uma cancela do ângulo de seu eixo e levamos tempo para entender do que se trata até descobrirmos que estamos entrando em algum lugar cercado, o Hospital. Do mesmo modo, boa parte do filme transcorre com a câmera fixa nos mostrando uma porta pelo lado de dentro. É a porta do Criamundo. Do lado de fora a loucura, os pacientes. Nós, os normais, estamos confinados, mas dessas grades os pacientes, internados do Hospital, vão e vêm, desfilam, falam, se apresentam, se enquadram. A porta é uma janela.

Essa inversão de perspectiva é convocada diversas vezes subvertendo nossa rigidez de espectador. Não ficaremos só no Criamundo. Seremos levados a conhecer O Modulo C, a enfermaria de internação fechada, para os mais difíceis, no dia da alta de Elisangela. É ela própria que nos leva, sorridente. Novamente, a loucura se enquadra. Não só Elisangela, seus colegas de enfermaria se servem da câmera, da chance de se ver sendo visto para se enquadrar. Vários vêm aos poucos forçar sua entrada na cena, alguns só olham, outros cantam, até que todos se reúnem numa pequena multidão, cantando o hino nacional. Perturbador, raro e essencial.

Aposto que o documentário terá função importante para aqueles que queiram transmitir o que é a loucura fora drama, do jornal ou da novela, o que é o cotidiano de um hospital psiquiátrico e de seus sujeitos em suas tentativas de inserção em nossas misérias banais. O Criamundo sai do hospital e se abre à cidade, assim como Elisangela e Leonor, viveremos as grandezas e tragédias de se perder na multidão como afunda no mar ou se navega alegre.

A maior parte das cenas do documentário foi filmada na gestão de Marcelo Veras, Diretor do Hospital por dez anos. Psiquiatra, psicanalista lacaniano que durante boa parte deste tempo empregava seus múltiplos talentos em uma detida investigação do conceito de objeto a de Lacan construindo em torno dele sua tese de doutorado. Alguns objetos, ditos “a” por Lacan, podem ter a função paradoxal de serem lixo, fora de cena, mas ao mesmo tempo sustentarem sua ordenação da cena. Sua tese tornou-se um livro, A loucura entre nós. Ele narra sua trajetória como diretor e como buscava aplicar a teoria de Lacan a seu fazer cotidiano com  a loucura. Em seu livro, Marcelo colhia as invenções cotidianas realizadas pelos pacientes, um fazer com o que cai e, no entanto, resta, o parcelar, o intersticial, o detalhe absoluto, irreciclável resto, que é reintroduzido na cadeia do discurso ou da produção para dar-lhe o tom.

O documentário é uma obra a parte, mas aposta igualmente na possibilidade de fazer laço com o que em nós é resto em um escopo mais restrito, pois elege, dentre os objetos a lacanianos, o olhar. O que no livro era, sobretudo, narrativa, aqui é posto em ato com a câmera de Fernanda e seu olhar aparentemente submisso que realiza, porém, o desafio lacaniano de um acolhimento que não é só enquadramento, mas igualmente subversão.

*Marcus André Vieira é médico, Doutor em psicanálise e Mestre em Diplôme D’études Approfondies en Psychanalyse. Psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise, professor da PUC-Rio; Coordenador do Centro de Atendimento Digaí, na favela da Maré; autor, entre outros, de “Restos – uma introdução lacaniana ao objeto da psicanálise” (Contra Capa, 2009) e “A paixão” (Zahar, 2001).

Para ler outros artigos de Marcus André Vieira, entre aqui.

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