Os labirintos do olhar no filme “A loucura entre nós”

A_loucura_entre_nós_foto(2)_Divulgação

Por Marcelo Veras*

Não quis escrever sobre o filme A loucura entre nós antes de seu lançamento em Salvador. Surpreendi-me com uma pequena multidão que rapidamente lotou as três salas do Espaço Glauber Rocha ontem à noite. No debate ocorrido após a projeção falei rapidamente de um ponto que considero precioso e que as câmeras conseguem demonstrar com muito mais facilidade do que meu próprio livro. Refiro-me ao modo como podemos trabalhar com o olhar na clínica da loucura. O olhar na clínica é habitualmente identificado com seu poder disciplinador. Ao enquadrar, ele demarca uma alteridade entre o clínico/observador e o paciente/observado. Muito já foi dito sobre esse aspecto e a referência foucauldiana ao Panopticum de Bentham tornou-se um clássico na Saúde Mental. Quando fui diretor de hospital psiquiátrico tive a certeza do peso desse olhar absoluto e do modo como esse olhar organiza os espaços e os corpos, estabelecendo um dentro e um fora. O olhar clássico sobre a loucura é sempre um olhar de fora para dentro. É como se só pudéssemos vê-la por uma fresta entre as grades, protegidos e separados.

O filme tem longas sequências fixas mostrando precisamente uma porta. Do lado de dentro, onde se situa a câmera e os pacientes do projeto Criamundo, temos a impressão de estarmos em uma ilha dentro do asilo. A loucura é um teatro que se passa do outro lado das grades. Contudo, rapidamente nos damos conta da impossibilidade de estabelecermos um muro eficaz. A primeira cena mostra um grupo de participantes do projeto trabalhando tranquilamente, em um ambiente claro e limpo, e aos poucos nos damos conta de que a paz é cortada pelo urrar de uma paciente. Urro de horror e desespero, vindo de alguma enfermaria do lado de fora.

O plano da porta é um perfeito enquadramento para a loucura. Na verdade esse plano lembra um pouco a play scene de Hamlet. Toda vez que uma porta ou uma janela aparece em um cinema temos a visão de uma cena dentro da cena. O público sentado na plateia já está diante da tela que é um enquadramento. O escuro em torno da tela é uma moldura. Então focamos o filme, e aí percebemos a loucura por trás da porta. Nesse momento é a realidade retratada no filme que faz papel de moldura, a loucura está mais além.

Eis que a câmera atravessa a porta, inicialmente como observadora. Ela passa a percorrer os corredores do asilo. Aos poucos os pacientes vão descobrindo a câmera. E de repente ela se torna um canal de expressão, eles começam a dizer para a câmera tudo que a instituição calava. Doravante eles não estão mais submissos ao olhar absoluto; outro olhar, o da câmera, faz furo no panopticum de Bentham. Aos poucos o olhar subverte a segregação imposta. A loucura não está mais do outro lado, ela está entre nós. Cada história narrada desconstrói o retrato. Não é possível, contudo, viver sem uma moldura e ao final vemos como cada um vai se virar com sua própria invenção de realidade. Os personagens deixam de ser um retrato fixado pelos discursos da saúde mental. O filme, lembro, não é uma ficção. No final, as protagonistas, cada uma a seu modo, escolhem uma solução para o peso do olhar insistente do Outro. Uma personagem atravessa a moldura e a outra escapa do olhar deixando-se confundir na multidão.
*Dr. Marcelo Veras é autor do livro homônimo que inspirou o documentário A loucura entre nós. Esse texto foi retirado do post do seu Facebook publicado em 01 de novembro de 2015, um dia após a exibição do filme no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador.

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