Entrevista: Dr. Luiz Alberto Tavares

As discussões envolvendo todas as dimensões relativas às drogas lícitas e ilícitas são algumas das que mais carregam preconceitos. E certamente qualquer forma de estigmatização do usuário, feita a partir de critérios normativos e moralistas, em nada contribui para o debate maduro sobre a maneira como as pessoas vêm se apropriando das drogas para uso recreativo ou para aplacar alguma dor.

Luiz_Alberto_Tavares

“O uso de substâncias psicoativas está inscrito na pauta cultural da humanidade ao longo de toda sua história e, portanto, não há como banir o seu uso. Diria mesmo que não existem sociedades sem drogas”, lembra o Dr. Luiz Alberto Tavares, psiquiatra e psicanalista baiano com formação em Psicopatologia da Infância e Adolescência (Universidade Paris Nord – França) e coordenador do Conselho Editorial, do Fórum Interinstitucional sobre Adolescência e Drogas e do Grupo de Atenção e Investigação da Adolescência (GAIA), do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD).

Autor de livros e artigos sobre o tema, Dr. Luiz Alberto atua também como docente e orientador do curso de especialização em Atenção Integral ao Consumo e Consumidores de Álcool e outras Drogas (CETAD-UFBA). Ele é o nosso entrevistado para falar, por exemplo, sobre os mal-entendidos envolvidos na perigosa relação que comumente se faz entre o uso de drogas e o sofrimento psíquico. Nessa ótima conversa que integra o capítulo sobre Loucura e Psicofarmacologia / Drogas do blog A loucura entre nós, examinamos também os caminhos que boa parte da sociedade tem sido induzida a trilhar para não ter que encarar de frente – e sem medos – os tabus envolvendo o tema das drogas.

Qual a relação que o senhor faz entre o uso de drogas e o sofrimento psíquico?

Dr. Luiz Alberto Tavares – Penso que essa relação pode ser situada a partir do mal estar que se instala nos humanos ao terem que renunciar às satisfações irrestritas, impostas pelas exigências civilizatórias, e que se configura como condição estrutural da sua existência. Por serem habitados pela linguagem, tentam, de alguma forma, dar conta da falta e do desamparo daí advindos, o que produz sempre algum sofrimento e os levam, muitas vezes, a produzir sintomas. A droga se constitui então como um recurso, uma solução para atenuar esse mal estar, já que ela pode trazer algum alívio, algum prazer para quem usa. Então, a princípio, a droga não é “causa” de sofrimento, mas, ao contrário, ela visa diminuir um mal estar. Entretanto, para alguns, na impossibilidade de construir outras saídas, de estabelecer outros laços sociais, a droga se inscreve em um mais além do prazer. Condição essa em que certos sujeitos ficam absolutamente capturados pelo objeto de consumo. Ao invés de consumi-lo, são na realidade consumidos por ele. Pensam que elegeram um objeto para aplacar seu mal estar existencial, mas, paradoxalmente, passam a ser comandados por ele numa condição de absoluta dependência.

Quais são as relações entre o uso de substâncias psicoativas e o surto psicótico?

Dr. Luiz Alberto Tavares – Como disse, a droga não é “causa”, mas ela pode ser reveladora de algumas condições da estrutura do sujeito. Temos certamente que levar em conta os efeitos químicos do produto de consumo e o modo como estes afetam o corpo. A forma como cada um se relaciona com esse corpo, habitado pela linguagem, vai determinar sempre respostas singulares. O uso, por exemplo, de drogas estimulantes ou alucinógenas pode produzir efeitos psíquicos de bem estar transitório para alguns usuários, mas, para outros, esse uso pode levar a uma ruptura devastadora nessa relação do corpo com a linguagem, desencadeando uma psicose que até então se mantinha silenciosa, estabilizada.

Como o senhor tem visto a abordagem dos usuários de drogas no contexto atual em nosso meio?

Dr. Luiz Alberto Tavares – No inicio da última década o Ministério da Saúde estabeleceu que os usuários de drogas fossem atendidos nos diversos níveis de atenção da rede pública de saúde. Entretanto, o que se verificou, ao longo desses anos, e o que observamos na nossa prática institucional com esses usuários, foi uma grande resistência dos serviços e de alguns profissionais de saúde para acolherem esses pacientes, movidos pelo medo, pelo preconceito e, sobretudo, pela desinformação – o que provocou um aumento da demanda para os chamados CAPS ad (álcool e drogas) criados nessa mesma época. É preciso constatar que na atualidade a oferta desses serviços especializados é muito inferior à demanda existente, determinando uma precária cobertura assistencial. Não é a toa que certas vertentes religiosas encontram aí um terreno fértil para sua expansão, ao oferecerem uma explicação e um modo simples de abordar essa questão: a expulsão de demônios e a substituição da droga pela promessa de salvação. Intervenções preocupantes do ponto de vista ético, respaldadas nessa interpretação moral do fenômeno, e com métodos que atentam contra os direitos humanos e as liberdades individuais, têm sido propostas por parte de alguns segmentos religiosos, que vêm, inclusive, ganhando espaço e apoio no âmbito político para a sustentação das suas ações.

Os preconceitos e tabus em relação ao uso de drogas ilícitas é um entrave na abordagem de indivíduos dependentes que precisam de atendimento?

Dr. Luiz Alberto Tavares – As abordagens sobre o consumo de drogas ilícitas em nossa cultura se revestem frequentemente de um tom alarmista que, longe de contribuir para o avanço da compreensão do fenômeno, tem prejudicado a concepção de politicas públicas mais apropriadas para lidar com a questão. Vemos isso com os usuários de crack, atribuindo-se muitas vezes à substância o incremento da violência, o que ratificaria o caráter perigoso da droga. Trabalhos etnográficos e pesquisas no campo da sociantropologia com usuários vivendo nas ruas revelam, através de suas histórias, que estes já estão excluídos do ponto de vista social e subjetivo antes mesmo do uso da droga. Algumas abordagens ao tomar a droga como um mal em si, como causadora de um “comportamento desviante”, focam suas práticas em medidas higienistas ou visam, de forma simplista, uma “adequação” do usuário à norma, geradora de uma exclusão ainda maior. Assim, fica evidente a importância de intervenções que levem em conta não apenas o caráter danoso do produto, mas também as condições sociais, culturais e subjetivas geradoras de vulnerabilidades nesses casos. Como estes usuários têm pouco ou nenhum acesso aos serviços de saúde, são relevantes os projetos avançados de atenção às populações que vivem nas ruas, realizados por profissionais capacitados de instituições e equipes de serviços públicos com larga experiência nessa área de atuação.

O discurso de que o uso recreativo de qualquer substância psicoativa seria a “porta de entrada” para toda sorte de vícios e hábitos nocivos à própria saúde – e à sociedade – ainda faz sentido nos dias de hoje?

Dr. Luiz Alberto Tavares – Trata-se de um equívoco, de uma ideia pré-concebida, atribuir que a experimentação de uma droga possa determinar ou mesmo levar inevitavelmente ao uso de uma outra droga, que seria, por consequência, “mais danosa”. Já escutei diversas vezes familiares ou mesmo profissionais dizerem: o problema da maconha é que ela pode levar ao uso da cocaína! Outra ideia equivocada é de que o uso, mesmo experimental, da droga pode transformar o indivíduo em uma pessoa ruim ou violenta. Estaríamos aqui no terreno do absoluto privilégio do produto e seus efeitos, em detrimento do contexto sociocultural, das motivações daquele que usa e, sobretudo, da singularidade de cada uso. Esse argumento sustenta-se numa perspectiva alarmista, da “pedagogia do terror”, da “luta contra a droga”, muito utilizado em determinadas campanhas ditas educativas, mas que nunca funcionaram.  É preciso fazer um deslocamento do produto, do objeto do consumo, para verificar a posição do sujeito que consome e o que busca nesse endereçamento que faz à droga.

Em relação ao uso de drogas ilícitas, como o senhor tem se posicionado frente às questões da liberação?

Dr. Luiz Alberto Tavares – Uma primeira questão a ser posta é de que não se trata de uma mera liberação. As experiências em alguns países apontam para uma descriminalização do usuário e para uma legalização em que o Estado possa regular os locais para a venda, possa definir a idade para aquisição do produto, além de controlar a qualidade das substâncias vendidas, dentre outros aspectos. Tenho me colocado favorável à legalização por entender que a criminalização leva a uma marginalização e uma estigmatização do usuário, que o afasta do acesso à informação e aos serviços de atenção à saúde. Além disso, a legalização retiraria o usuário e os pequenos traficantes do circuito do crime organizado, que resulta frequentemente no encarceramento de uma população jovem (majoritariamente negra e pobre), e no incremento da violência com o assombroso extermínio dessa mesma população. Argumenta-se com frequência que a legalização aumentaria o consumo de drogas. Na Holanda, por exemplo, onde as leis do uso da maconha são menos repressivos, o seu uso entre os jovens é um dos menores da Europa.

Nesse sentido, nossa sociedade tem feito escolhas bem equivocadas nas questões envolvendo a prevenção dos efeitos causados pelas drogas…

Dr. Luiz Alberto Tavares – Eu diria que o termo prevenção é sempre problemático quando nos referimos ao consumo de drogas, pois ele pressupõe que determinada ação deixe de ocorrer para que se evitem as consequências indesejáveis dessa ação. O uso de substâncias psicoativas está inscrito na pauta cultural da humanidade ao longo de toda sua história e, portanto, não há como banir o seu uso. Diria mesmo que não existem sociedades sem drogas. Verificamos também a complexidade desse fenômeno, com seus variados modos e contextos de consumo, cujas intervenções devem ser cuidadosas e levar em conta as particularidades desses usos. Uma questão a ser considerada é de que muitas abordagens preventivas preconizam a abstinência como um ideal a ser atingido, baseado, sobretudo, em pressupostos morais e normativos. O paradigma proibicionista de combate às drogas, construído historicamente e marcado por fortes interesses econômicos, sustenta essa direção, que tem se mostrado ineficaz em diversas experiências. Nesse sentido, a perspectiva de atenção baseada na redução de riscos e danos, ao levar em conta esses diversos contextos do uso, faz um giro importante ao propiciar que o usuário amplie os conhecimentos e informações sobre as substâncias de consumo, seus efeitos e riscos, sem que se prescreva necessariamente a abstinência do produto como uma condição para uma intervenção. O ponto que me parece fundamental nessa perspectiva de trabalho é que isso implica o sujeito numa condição ética de escolha e responsabilização pelo seu uso.

O que o senhor acha que as pessoas ainda deveriam saber sobre uso de drogas psicoativas?

Dr. Luiz Alberto Tavares – Essa é uma pergunta muito ampla. Talvez o aspecto que gostaria de retomar é que existe um vasto espectro de usos e usuários. Muitas pessoas consomem drogas e não buscam ou não precisam necessariamente de tratamento. Entretanto, existem outras que se colocam numa relação de dependência avassaladora e resistem a qualquer tipo de abordagem que implique na renúncia a essa prática. Equivocadamente, o senso comum diz que elas não querem ou mesmo que não escolhem a via do bem, situando essa escolha numa dimensão moral. Não é que não queiram deixar de usar drogas. A questão é que não podem fazer essa escolha. Não podem, a princípio, abrir mão desse recurso que visa aplacar uma dor insuportável.  Se pudermos nos debruçar sobre essa dimensão ética da escolha talvez possamos nos aproximar, acolher ou escutar sem preconceitos e, talvez, possibilitar algum encontro para a construção de outras saídas além do ato de drogar-se.

Quer saber mais sobre o assunto? Confira nesse link uma entrevista do Dr. Luiz Alberto Tavares para o programa Drogas, fique por dentro!, primeiro programa de rádio, em Salvador, com a proposta de discutir questões relacionadas ao uso de substâncias psicoativas. Ele é apresentado pelo Dr. Antonio Nery Filho e Patrícia Flach.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s