A Loucura e a Família

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Qual o papel da família no tratamento e no cuidado com a pessoa em estado de sofrimento mental? Durante muito tempo da história da humanidade, essa sequer foi uma questão a ser levantada.  Somente no século XX, com a evolução da psiquiatria e com todas as mudanças realizadas no conceito do sofrimento mental, a família foi finalmente convidada a exercer seu papel de colaboradora no tratamento e no do empoderamento dos sujeitos envolvidos nesse processo.

Não que tenhamos chegado ao estado ideal em que os cuidados necessários agregam tanto as dimensões, por parte da família, da proteção, compreensão e participação em todos os desdobramentos que se observam a respeito da reabilitação psicossocial dos pacientes, quanto à assistência aos próprios familiares no longo processo terapêutico com o qual estão diretamente envolvidos.

Nesse sentido, a reforma psiquiátrica e o movimento da Luta Antimanicomial têm exercido a importante função de colocar a família no centro de toda essa discussão, buscando novas possibilidades políticas e organizacionais capazes de gerar ações de envolvimento reais e produtivas.

Para aprofundar essas e outras questões envolvendo A Loucura e a Família, oferecemos aqui esse novo capítulo, revelando mais uma camada temática presente no filme A loucura entre nós. Nosso convite é para que você entre em contato com aspectos relacionados aos diversos dilemas com o quais os familiares e as pessoas em estado de sofrimento mental precisam lidar ao longo de suas vidas, a partir das necessidades singulares de cada um deles.

CRÍTICAS
O que foi dito sobre o filme A loucura entre nós que se relaciona ao tema da Família.

“Elizangela e Leonor tornam-se os faróis que guiam o filme. São personagens que evoluem mesmo no decorrer da narrativa. A opção de não entrevistar nenhum médico, especialista ou a administração do hospital reforça esse caráter humanista e subjetivo, apreendido nas falas das personagens, e de outros pacientes, que acabam jogando luz sobre vários aspectos de uma dura rotina: as delicadas e doídas relações entre paciente e família, a solidão que atravessa o cotidiano, o companheirismo e as rixas entre pacientes, a aceitação de si e do outro.”

Por Rafael Carvalho – Crítico de cinema e repórter do jornal A Tarde, de Salvador – BA. Para ler o texto completo, entre nesse link.

“Destaca-se também as trajetórias opostas de duas das pacientes, que acabam se tornando foco principal do roteiro do documentário e nossas guias naquele mundo. Elizangela e Leonor começam brigando por um pequeno jardim e aos poucos vamos vendo a melhora de uma e a piora de outra, reforçando a questão cíclica da doença e os diversos aspectos incluindo família e medicações. Mas, mais do que isso, vemos suas almas por trás do estigma da doença e nos dói, sofrendo junto com elas aqueles desencontros de vida que ficam em aberto. E quando o mar se abre em tela em revelações chocantes, não podemos deixar de lembrar daquelas espadas arrancadas e replantadas no pequeno jardim do hospital. Como disse, um filme intenso.”

Por Amanda Aouad – Crítica Afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea (Poscom / UFBA), especialista em Cinema pela UCSal, roteirista do núcleo Anima Bahia e dos curtas Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Dia de Cão. É ainda professora de Audiovisual, tendo experiência como RTVC e Assistente de Direção. Leia a crítica completa aqui.

MEMÓRIA
Produções diversas que ampliam o debate sobre as críticas do filme A loucura entre nós e a relação entre a Loucura e a Família.

 

A_MORTE_DA_FAMILIAA morte da família
Livro escrito por David Cooper em 1986, publicado pela Martins Fontes. A obra é uma referência para ampliar a reflexão sobre os modelos familiares, alternativas de novas configurações e seus desafios.

Experiências dos cuidadores de pessoas com adoecimento psíquico em face à reforma psiquiátrica: produção do cuidado, autonomia, empoderamento e resolubilidade
Texto das pesquisadoras Andréa Acioly Maia Firmo e Maria Salete Bessa Jorge publicado na Revista Saúde e Sociedade da Universidade de São Paulo, Este estudo objetiva compreender o lugar da família nos processos de cuidado e desinstitucionalização, e a maneira como os arranjos familiares têm experienciado a proposta reformista e antimanicomial de oferta dos serviços substitutivos como política pública. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa e de cunho crítico hermenêutico, realizado em dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), cada um em um município distinto do estado do Ceará, nordeste brasileiro.

Loucuras_e_FamíliasLoucura(s) e família(s)
Análise de práticas discursivas, o livro de Cristine Görski Severo mergulha na constituição de saberes sobre a loucura e a família a partir do discurso antimanicomial.

Tendo como ponto de partida um olhar foucaultiano, analisa tal discurso no que diz respeito à maneira pela qual este reconta/produz, politicamente, a loucura e a família como objetos do saber.

 

PAPO ABERTO
Entrevista exclusiva sobre o tema.

fernandaEntrevista com Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes

Pesquisadora e consultora extremamente atuante em diversos projetos de políticas públicas para o autismo e a prevenção psicossocial, a Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes conhece de perto as realidades – e necessidades – envolvidas na participação familiar quando se fala no tratamento de pessoas com sofrimento mental no Brasil.

Nessa entrevista para a equipe de A loucura entre nós, ela divide algumas de suas muitas experiências, jogando luzes – e provocações – necessárias a esse mergulho no universo da Loucura e a Família.

Vivemos períodos em que a pessoa era isolada da família para se tratar e, em tempos atuais, convivemos com propostas de atendimento à família do paciente. Como você percebe essas transformações?
Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Ninguém pode se “tratar” de modo isolado, nem isolado de uma família, nem do campo social ao qual pertence. Isolamento ou exclusão não trata ninguém. No caso da saúde mental, separar uma pessoa dos seus laços sociais para que ela se “trate”, na verdade, é querer higienizar a vida, é projetar num único sujeito o mal estar inerente à condição humana, como disse Freud, o “mal estar na civilização”. Portanto, é da ordem de um grande engano essa concepção do isolamento ou da exclusão; presta uma função àqueles que isolam; não aos que são excluídos. Tudo isso para dizer que não há tratamento sem a participação da família – participação não apenas de apoio terapêutico ou algo assim, mas participação nas decisões sobre o tratamento.

Leia a entrevista completa entrando aqui

OUTROS OLHARES
Filmes que dialogam com o tema; obras produzidas a partir de temas correlatos.

Running from Crazy
Documentário com direção de Barbara Kopple, trata sobre o histórico de problemas mentais dentro da família Hemingway, que levou ao suicídio de sete parentes, dentre eles o do escritor Ernest Hemingway.

Uma_licao_de_amorUma Lição de Amor
Sam é um sujeito com questões mentais que cuida da filha Lucy, de sete anos. Ele corre o risco de perder a guarda da filha e precisa do depoimento da vizinha Annie, para tentar mantê-la. Mas Annie não consegue sair de casa porque sofre de agorafobia, um transtorno de ansiedade no qual a pessoa tem medo de situações ou lugares em que a fuga seja difícil ou um socorro não seja imediato em caso de pânico.

Meu nome é rádio
Harold Jones (Ed Harris) é o treinador local de futebol americano na escola secundária T. L. Hanna, que fica tão envolvido em preparar o time que raramente passa algum tempo com sua família. Jones conhece um jovem considerado “lento”, James Robert Kennedy (Cuba Gooding Jr.), e o coloca sob sua proteção, além de lhe dar uma ocupação.

Gente como a gente
Ganhador de vários Oscars, o filme dirigido por Robert Redford tem como premissa a morte prematura em um acidente de um dos filhos de uma família de classe média alta, que acaba afetando a todos, principalmente o irmão da vítima, que se considera responsável pelo ocorrido e está em tratamento psiquiátrico. No entanto a mãe faz questão de manter as aparências, para não dar a entender que a unidade familiar foi quebrada.

Sentimentos_que_curamSentimentos que curam
O fato de Cameron (Mark Ruffalo) ser bipolar não impediu que Maggie (Zoe Saldana) se envolvesse com ele. O casal teve duas filhas, mas os constantes colapsos nervosos de Cameron fizeram com que eles deixassem de morar juntos, por mais que mantivessem contato constante. Em 1978, devido às dificuldades financeiras, Maggie resolve fazer um curso de especialização em Nova York, com duração de 18 meses. A saída para que o plano dê certo é que Cameron deixe o hospital psiquiátrico em que vive para voltar a morar em casa, cuidando das garotas, com Maggie visitando o trio nos finais de semana. Trata-se de um grande desafio para Cameron, que precisa de vez assumir responsabilidades de pai e aprender a controlar o transtorno.

Grey_Gardens_(1975_film)_posterGray Gardens – O documentário
O filme dos irmãos Albert and David Maysles foca a história de “Big Edie” Bouvier Beale e sua filha adulta “Little Edie”, que acreditava estar fazendo um documentário sobre sua – inexistente – carreira artística. Membros de uma família rica e famosa (eram parentes de Jacqueline Kennedy Onassis), revelam um universo sombrio dentro de uma mansão em East Hampton, onde convivem sem qualquer higiene com o acúmulo de lixo, gatos, pulgas e objetos velhos, até serem acionadas pelo departamento de saúde do estado de Nova Iorque.

Gray Gardens – O Telefilme
Grey Gardens é um telefilme vencedor de Emmy Awards 2009 sobre as vida de Edith Bouvier Beale (Little Edie,) interpretada por Drew Barrymore, e sua mãe Edith Ewing Bouvier (Big Edie) interpretada pela Jessica Lange. O filme, dirigido por Michael Sucsy e Patricia Rozema, é baseado no documentário homônimo de 1975.

kevin01Precisamos falar sobre Kevin
Dirigido por Lynne Ramsay, conta a história de uma mãe e o seu difícil relacionamento com o filho primogênito, retratando um caso de perversão sem meias palavras. Eva (Tilda Swinton) lida com sentimentos diversos em relação à maternidade, além do sentimento de culpa por causa dos atos de seu filho, Kevin.

Correndo com tesouras
Filho da escritora Margaret Robison e do professor de psicologia John Robison, Augusten Borroughs nos revela sem piedade a sua juventude a partir dos 12 anos. A separação dos pais, a relação com sua instável mãe e principalmente a temporada com o psiquiatra pouco ortodoxo da mãe, que o marcaria para sempre. Muito mais que uma autobiografia ‘Correndo com tesouras’ é um mergulho na prostração da sociedade contemporânea e foi feito a partir do livro homônimo.

Os Excêntricos Tenenbaums
O filme é uma comédia sobre uma família totalmente disfuncional. Royal Tenenbaum, o pai quer reunir a família anos depois de ter abandonado a mulher e os três filhos, prodígios na infância, o que provoca a decadência da família.

OUTRAS VOZES
Livros, pesquisas e textos para ampliar ainda mais a discussão.

A rede de atenção à saúde mental a partir da Estratégia Saúde da Família
A Estratégia de Saúde da Família (ESF) é um importante aliado na rede de atenção à saúde mental, contribuindo para a integralidade e efetividade do cuidado. Este estudo teve como objetivo discutir a rede de atenção em saúde mental a partir do cotidiano de uma ESF. É um estudo avaliativo, com abordagem metodológica qualitativa. Texto publicado na Revista Gaúcha de Enfermagem.

A família e o cuidado em saúde mental
Este trabalho foi publicado por Gisele Santin e Teresinha Eduardes Klafke, da Universidade de Santa Cruz do Sul, e discorre sobre o cuidado com o portador de sofrimento psíquico dentro do seu ambiente familiar. É realizada uma breve revisão teórica sobre a reforma psiquiátrica e o papel da família como cuidadora, sendo abordados aspectos como a sobrecarga e as dificuldades encontradas pelas famílias; as redes de apoio e o suporte aos familiares; o impacto causado pela doença mental na família, entre outros. O texto tem como “pano de fundo” a experiência do Grupo de Familiares existente no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS I) de uma cidade de pequeno porte do interior do estado do Rio Grande do Sul.

PsicanálisePsicanálise para aqueles que não falam? A imagem e a letra na clinica com o bebê
O texto de Cláudia Mascarenhas Fernandes inaugura uma perspectiva inédita de abordagem do que ata recém-nascidos e seus responsáveis, por meio da investigação dos confins da angústia, na perda e na invasão.

Saúde da família como estratégia para mudança do modelo de atenção: representações sociais dos usuários
A atenção básica visa garantir a universalidade e integralidade na saúde e tem a Estratégia Saúde da Família (ESF) como prioritária para a reorientação do modelo assistencial de saúde.  O objetivo do estudo é analisar as representações sociais dos usuários acerca da ESF, e foi feito por Márcia Niituma Ogata, Maria Lúcia Teixeira Machado e Erika Aparecida Catoia.

Papéis atribuídos à família na produção da loucura: algumas reflexões
Artigo de Fabiana Renata Pegaro publicado no Boletim Academia Paulista de Psicologia que  consiste  em  arrolar  as  concepções a respeito da participação das famílias na produção/manutenção da loucura em diferentes momentos históricos e destacar de que modo a presença delas é vista em serviços públicos brasileiros. Ancora-se na legislação vigente e em estudos publicados no Brasil.

A experiência das famílias sobre o cuidado terapêutico de pessoas com transtorno mental nas instituições psiquiátricas
Este estudo de Norma F. RandemarkI e Sônia Barros foi delineado de forma qualitativa e o objetivo foi desvendar como as famílias vivenciam a assistência prestada às pessoas com transtornos mentais nas instituições psiquiátricas. Os dados utilizados foram colhidos de fragmentos do discurso das famílias por meio de entrevista semi-estruturada e observação participante e compilados nos diários de campo de pesquisas no período entre 2001e 2003, mas cujo material não foi contemplado como objeto de estudo. Os dados, submetidos à análise temática, nortearam a construção dos seguintes temas: Representando as instituições psiquiátricas, O significado do fazer terapêutico e A inserção das famílias no projeto terapêutico.

O apoio familiar na perspectiva do paciente em reinternação psiquiátrica: um estudo qualitativo
Trabalho desenvolvido por Vanessa Cristina MachadoI e Manoel Antônio dos Santos para investigar a percepção do envolvimento familiar nos cuidados ao paciente, no paradigma da reabilitação psicossocial.

O significado de ser familiar cuidador do portador de transtorno mental
Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo exploratório, descritivo, cujo objetivo foi compreender os significados de ser familiar cuidador do paciente portador de transtorno mental. O estudo foi desenvolvido com familiares de portadores de transtornos mentais, atendidos na Clínica Integrada de Atenção Básica à Saúde, no município de Biguaçu-SC, vinculada à Universidade do Vale do Itajaí. Por Marília Mazzuco Sant’AnaI, Valdete Preve PereiraII, Miriam Süsskind BorensteinIII e Alcione Leite da Silva.

Apoio social e sobrecarga familiar: um olhar sobre o cuidado cotidiano ao portador de transtorno mental
Com processo de desinstitucionalização psiquiátrica, cuja ênfase é a provisão de serviços comunitários de saúde mental e períodos mais curtos de hospitalização, as famílias se tornam as principais provedoras de cuidados e apoio aos pacientes. O objetivo deste artigo é analisar as repercussões da presença de um portador de transtorno mental no contexto e vivência familiar. Por Liane Maria Monteiro da Fonte, Danielle Duarte Gomes de Melo.
NA MÍDIA
Matérias, entrevistas e reportagens para ampliar a discussão sobre a Loucura e a Família.

Leia aqui as principais matérias publicadas sobre o documentário A loucura entre nós.

Café filosófico: A Evolução da Família – Joel Birman
Neste Café Filosófico, o psiquiatra Joel Birman nos conduz por uma história da família e mostra como a relação entre pais, mães, filhos a avós se transformou ao longo do tempo. Da chamada família pré-moderna, que exibia uma estrutura rigidamente patriarcal, passando pela família moderna, onde a mulher ganha um novo poder em seu papel de mãe, nós chegamos à família contemporânea, onde os papeis e relações de poder ainda estão sendo definidos. Este passeio nos ajuda a compreender a família de ontem e de hoje.

A Liga / Saúde Mental
Programa “A Liga” sobre Saúde Mental, de 2013. Nesse episódio, os repórteres acompanham o dia a dia de pessoas que convivem com transtornos mentais. Além de possibilitar uma aproximação com o que muitas vezes é considerado diferente, o programa reforça que os dilemas de vida são semelhantes entre todos.

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Diana Corso – Família: coração de um mundo sem refúgio
A organização da família e a experiência da infância passam por transformações profundas nos dias atuais. Estruturas familiares inéditas emergem numa sociedade que hiperestimula a infância, celebra a autonomia e não admite a velhice. São tempos de mães libertas, pais fraternos e inseguros, filhos críticos. O que é, para onde vai, a família nuclear contemporânea, centro de um mundo tão descentrado como o nosso? Palestra de Diana Corso no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 10 de junho, em São Paulo.

Familiares debatem a esquizofrenia – Programa Em Família – Canal Saúde
Este programa da FIOCRUZ traz a ótica dos familiares e tenta quebrar alguns tabus que cercam a doença, enfatizando que com o tratamento a pessoa que sofre de esquizofrenia pode levar uma vida normal.

Em_Família

O desafio do diagnóstico infantil
Artigo de Vera Blondina Zimmermann para a revista Mente Cérebro: Diagnósticos na infância não devem ser feitos apenas a partir de anamnese com os pais. Existe o risco de que o técnico caia na armadilha de um enfoque exclusivo, num “intersubjetivismo” das relações familiares, se esquecendo da produção singular da criança, ou seja, que aquilo que acontece com essa criança pode ser muito diferente daquilo que os pais conseguem observar.

Pedras, plantas e outros caminhos
Doc idealizado pelo Coletivo de ATs, sob coordenação do Prof. Ricardo Wagner Machado da Silveira da UFU e produção do Núcleo de Produção da TV Universitária. Obra que mergulha no enfrentamento das lógicas hegemônicas de “cuidado” em saúde mental.

Pedras