Entrevista Dra. Vládia Jucá

A loucura entre nós é um filme sobre sujeitos e suas histórias. Revela, principalmente, a subjetividade de duas personagens em especial: Leonor e Elisângela, duas mulheres de realidades sociais bem distintas, mas que se encontram em trajetórias e questionamentos comuns. Ao dar voz àquelas que, muitas vezes, compõem uma parcela da população negligenciada, a obra abre ao público um universo novo e cheio de contradições.

E já que o documentário pode ser visto a partir de vários prismas, por que não sobre prisma do “Feminino” que ali nos é apresentado? Mais ainda: Se ao longo da evolução da psiquiatria a loucura foi colocada lado a lado com a identidade feminina, qual seriam hoje as questões próprias sobre o sofrimento mental que as mulheres têm que enfrentar?

Para responder a essas – entre muitas – questões envolvendo esposas, filhas, irmãs, amantes e outras “caixas sociais” impostas às mulheres, conversamos com a psicóloga Vládia Jucá, Doutora em Saúde Coletiva pela UFBA e Pós-Doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Professora do Instituto de Psicologia da UFBA, ela encontrou em sua trajetória diversas histórias difíceis vividas por mulheres, mas avisa: “Claro que a condição feminina agrega algumas curvas ao sofrimento. Agora, é o que pertence a cada um que verdadeiramente interessa; ou seja, não há classificação que contemple a complexidade de cada sujeito com sua história e seus impasses”.

Pode-se dizer que, historicamente, a mulher vem sofrendo mais que o homem quando pensamos nas relações político-sociais envolvendo o sofrimento mental?

Vladia

Dra. Vládia Jucá – Certamente as relações de poder entre gêneros que perduraram por séculos em nossa cultura deixaram a mulher mais vulnerável a uma série de violências e, de modo mais sutil, mas não menos importante, a muitos constrangimentos e impedimentos promotores de sofrimento. Recentemente, tivemos o caso da adolescente violentamente estuprada por vários homens no Rio de Janeiro. Eis um exemplo extremo do quanto uma cultura que objetifica a mulher pode levar a situações de sofrimento inimagináveis. A indignação e a rápida resposta nas redes sociais a qualquer tentativa de minimizar o ocorrido são indícios de que esta cultura se encontra em mutação.

Neste sentido, é importante destacar que as mudanças socioculturais produzem também variações nos elementos que propiciam e agravam o sofrimento psíquico, bem como nas formas pelas quais tal sofrimento se expressa. As conquistas femininas, tanto no âmbito político mais amplo quanto nas suas relações afetivas e de trabalho, lançaram novos impasses. A mulher que outrora sofria sob o imperativo de ser “bela, recatada e do lar”, hoje precisa atender a ideais muito elevados: ser bem-sucedida no mercado de trabalho, gerenciar bem o lar, ser boa mãe e ser mais que bela. No contexto mais íntimo, seu prazer também é regido por uma outra normatividade, distinta daquela presente na lógica do “recatada”, posto que agora, além de dar prazer a seu parceiro sexual, é necessário ter prazer intensamente e dar provas disto. O prazer deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação.

Basta comprar qualquer revista feminina ou rapidamente passar os olhos em alguns sites e blogs para percebemos o quanto os imperativos são vorazes e estão intimamente atrelados ao que, em psicanálise, chamamos de discurso capitalista. Um discurso que nos leva a ter uma relação muito particular com nossos corpos, que passam a valer pela capacidade de capturar o olhar do outro.

Claro que os ideais e os imperativos sobre os quais falei não vão afetar a todos do mesmo modo, porque estou tratando de um contexto cultural extremamente amplo, onde encontramos grupos com particularidades diversas e também sujeitos que são singulares em seu funcionamento, e no modo pelo qual se relacionam com tais ideais. Aliás, os que destaquei como estando atrelados ao discurso capitalista causam mal-estar tanto em mulheres quanto em homens.

O contexto social atrelado à condição feminina também tem incidências sobre o sofrimento. Com isso não quero dizer que as mulheres “ricas” são mais felizes. A princípio, elas contam com mais recursos para o enfrentamento das adversidades, apesar de serem mais facilmente devoradas pelo discurso capitalista. Justamente por contarem com mais recursos, podem investir mais em uma imagem que nunca está à altura. O resultado desta equação sem solução é muita insatisfação e mal-estar.

Por outro lado, na rede de assistência à saúde mental pública, não é raro encontrarmos mulheres cujo sofrimento psíquico tem sido muito agravado pela vulnerabilidade social. O excesso de encargos, as dificuldades de obtenção de uma renda mínima para sustentar a si e a outros que delas dependem, o não acesso a educação, saúde, lazer e também aos bens de consumo e padrões corporais vigentes – por que não? – agudizam as dores apresentadas por estas mulheres, por vezes, reeditadas através de gerações.

Até que ponto os padrões masculinos e femininos existentes na sociedade contemporânea ainda podem contribuir para o desencadeamento e/ou agravamento de questões envolvendo o sofrimento mental?

Dra. Vládia Jucá – Creio ter respondido esta pergunta na questão anterior. Assim sendo, vou apenas trazer mais um elemento para pensarmos. Ideais muito elevados auxiliam na produção do sofrimento e isto independe do gênero ou da orientação sexual. Vivemos em uma sociedade onde os ideais estão muito inflados; portanto, temos uma produção de sofrimento em larga escala e, paradoxalmente, o sofrimento não é bem tolerado. Rapidamente ele é medicalizado. O que ele desvela acerca de nossas escolhas e da sociedade na qual vivemos, não queremos saber. Afinal, pensar sobre o mal-estar, utilizá-lo como matéria prima para um possível deslocamento subjetivo, parece colocar em risco um dos maiores ideais e imperativos de nossa época: sermos felizes. A felicidade também se tornou um bem de consumo e, como o prazer, não é uma opção, é uma obrigação. Aliás, mostrar-se feliz talvez seja o mais importante. O facebook parece ser literalmente revelador neste sentido. É a vida como um livro aberto através do qual nos apresentamos com a face que escolhemos para o olhar de tantos outros. Se não receber curtidas, a imagem de nossa felicidade se encontra em séria ameaça.

Para completar, as balizas sociais que durante muito tempo tiveram uma função apaziguadora em nossas conturbadas existências fragilizaram-se.  Assim, ao habitarmos um mundo de incertezas cada vez mais escancaradas, de laços sociais voláteis e ideais muito elevados, o mal-estar cresce. No lugar de se tornar ponto de interrogação, o mal-estar tem sido silenciado com uma grande contribuição da indústria farmacêutica e das práticas “terapêuticas” que primam por um alívio imediato ou, talvez, o que seja ainda mais cruel, pela adaptação a uma ordem extremamente perversa.

Existem ainda hoje clínicas ou profissionais que encaram questões específicas da mulher como patologias, como no passado? Como você avalia o DSM-5 neste quesito?

Dra. Vládia Jucá – Sua pergunta imediatamente me remete à embriogênese da discussão sobre a histeria que durante muito tempo foi pensada como um fenômeno atrelado ao feminino. No Egito Antigo, por exemplo, quando ainda não se utilizava o termo, já se considerava que as manifestações corpóreas que serão – séculos depois – pensadas como uma patologia denominada “histeria” se deviam a um deslocamento da matriz: o útero. Com a medicina hipocrática, esta ideia foi retomada. Para quem tiver curiosidade sobre essa curiosa história, vale a pena ler o livro “A Lição de Charcot”, escrito por Antonio Quinet.

Charcot

Óleo sobre tela de Pierre André Brouillet, 1887: Une leçon clinique à la Salpêtrière.

O exemplo da histeria deve ser o mais clássico e famoso no que diz respeito ao estabelecimento de uma relação entre algo que passará a ser considerada propriamente doença mental – a partir do século XVIII – e o universo feminino. No entanto, não é único. Na história da saúde mental, a mulher figurou como sendo mais propensa ao adoecimento, inclusive porque era pensada como mais suscetível a desvios de conduta, por assim dizer.

Bom, nos primórdios da psiquiatria, a associação entre doença mental e o feminino reforçava um lugar desfavorável que reafirmava as relações de poder atreladas as questões de gênero. Contudo, este movimento tinha um efeito colateral: sobre o feminino pairava, vou arriscar dizer, certo mistério, algo que resistia ao conhecimento e que era das mulheres, mesmo que fosse compreendido como fora da norma.

Séculos depois, com a publicação do DSM-5, em 2013, o Transtorno Disfórico Pré-menstrual (TDPM) foi incorporado à categoria dos Transtornos Depressivos. É um fato curioso. Sinal de que o corpo feminino continuou a desconcertar o saber médico. Até nas “regras” as mulheres parecem fugir à ordem. Contudo, uma mudança, precisamos reconhecer: a patologização ou o estranhamento não incide mais sobre a mulher, mas diz respeito a variações hormonais dentro de parâmetros estritamente sindrômicos. No DSM, a mulher, um ser enigmático, não mais interessa. Trata-se de pensar nos hormônios e efeitos que estes têm sobre o corpo.

A velha e nem sempre boa TPM, ao ser “elevada” a um tipo de transtorno depressivo, acaba por ter também uma resposta prêt-à-porter: antidepressivos. Se o feminino ainda aparece atrelado ao adoecimento mental nos dias de hoje, eu diria que, infelizmente, é de um modo muito empobrecido.

Quais são, hoje, as questões de gênero que estão sendo debatidas quando se pensa nos avanços da reforma psiquiátrica?

Dra. Vládia Jucá – No cenário da reforma, a direção do cuidado em saúde mental passa a ter uma maior consideração para com os laços sociais fragilizados ou perdidos durante o adoecimento. Isso implica investir nesses laços para que o sujeito acometido por um sofrimento desagregador, em vários sentidos, possa voltar a participar, com sua singularidade, dos circuitos de trocas que compõem o campo social. As pessoas introduzem novas reinvindicações, por exemplo: o direito de amar, de ter uma vida sexual e de constituir ou resgatar laços familiares, dentre eles, o que dizem respeito ao exercício da parentalidade.

Nas minhas andanças na saúde mental, não foram poucas as vezes que me deparei com relatos de mulheres que engravidaram, pariram e tiveram seus filhos sequestrados nos manicômios. Outras tantas tiveram os filhos na rua e, por uma conjunção de sofrimento, falta de assistência e falta de suporte social, perderam as crianças, seja por intervenção da justiça, seja porque “optaram” por dá-las a quem tinha mais condições de criar.

A reforma propunha uma clínica que cuidasse do sujeito em sua relação com os outros, em uma perspectiva de trabalhar no sentido de fazer acontecer a (re) inserção possível para cada um. O que traz a reboque a necessidade de pôr entre parênteses nossos julgamentos apriorísticos acerca do que seria o melhor para o outro.

Pela primeira vez algumas questões puderam vir à tona. Foi um passo importante. Além das que eu falei, ainda podemos apontar para as reflexões acerca das diferenças de gênero no tocante ao uso de substâncias psicoativas e aos dilemas éticos envolvendo a parentalidade por parte de quem apresenta um uso abusivo das referidas substâncias. O fato de profissionais nas maternidades estarem angustiados diante, por exemplo, das mulheres usuárias de crack, é positivo, desde que funcione como um grito de alerta: é preciso cuidar antes, é preciso trabalhar em rede, é preciso operar para que o sofrimento de uma mulher não seja agravado e uma criança institucionalizada em um abrigo.

Mas, preciso confessar: é muito duro falar sobre isto no momento histórico que vivemos no Brasil atual. Um tempo marcado pelo desmonte do que estava dando certo e pela inviabilização de tantas coisas mais que poderíamos fazer.

Leonor e Elizangela juntas

Leonor e Elisângela juntas no filme A loucura entre nós. Foto Gabriel Teixeira.

No filme A loucura entre nós, são duas mulheres que conduzem, com suas histórias, a maior parte da narrativa, impregnando a obra com uma subjetividade que pode ser vista também como pertencente ao universo feminino. O que muda no olhar que podemos ter sobre certas patologias quando pensamos sob esse aspecto?

Dra. Vládia Jucá – Muda o olhar sobre o patológico e sua relação com a feminilidade. O pathos não deriva da condição feminina; faz parte do humano. Claro que a condição feminina agrega algumas curvas ao sofrimento. Agora, é o que pertence a cada um que verdadeiramente interessa, ou seja, não há classificação que contemple a complexidade de cada sujeito com sua história e seus impasses. Não é por compartilhar o mesmo CID que os sujeitos são os mesmos. Até na apresentação dos sintomas eles diferem. Se pegarmos duas pessoas com um conteúdo delirante com elementos em comum – “ser o redentor” –, as diferenças se farão notar. Há nuances e detalhes que são muito peculiares a cada sujeito. A narrativa das duas mulheres no filme, os caminhos percorridos, os encontros e os desencontros (inclusive entre elas) aponta para uma delicadeza necessária na clínica: a de tratar cada sujeito não a partir do seu diagnóstico, mas a partir de seu modo de fazer laço.

No caso da quebra com os padrões de “normalidade”, que tipos de preconceitos específicos as mulheres sofrem – e que são diferentes dos vivenciados pelos homens?

Dra. Vládia Jucá – Certamente merece destaque as mulheres em abuso de substâncias psicoativas. Em linhas gerais, os “loucos” são considerados como pessoas que adoeceram, independente de sua vontade. Por isso, são tratados com uma maior tolerância quando comparados com os que fazem uso de drogas. É como se, no último caso, o desvio pudesse ser explicado de modo muito simples por uma escolha, ou seja, “fulano está nessa porque quer”.

Quando se trata de mulheres, vemos o quanto a imagem acima falada da “bela, recatada e do lar” ainda assombra. Aquelas que são do bar, para usar de um trocadilho que circulou recentemente nas redes sociais, sofrem grandes rechaços porque contrariam alguns ideais. Dentre eles, o de boa mãe. Não obstante todas as contribuições da antropologia, da psicanálise e, eu acrescentaria do mundo da vida, continuamos a persistir na ideia de que há um instinto materno que deve ser superior a tudo.

Mesmo sabendo que não deveria ser assim, incomoda muito mais a imagem de uma mulher sob o efeito de substâncias do que a de um homem. Quando se trata de um caso de dependência psíquica e química, e o cuidado consigo deixa de existir, a situação da mulher é julgada sem atenuantes. Parece que nossos olhos são mais sensíveis a determinadas contrariedades imaginárias.

De que maneira esses preconceitos podem ser quebrados por cada um de nós?

Dra. Vládia Jucá – Eu falei tanto sobre o olhar na entrevista e me ocorre que podemos pensar em como abrir outras possibilidades de olhar para as questões sobre as quais conversamos. Eu acredito muito no poder da arte e de outras formas de intervenção cultural para criarmos novas sensibilidades e alterarmos algumas já instituídas. Lembro-me do relato de algumas mulheres que integram o grupo teatral Os Insênicos, quando falam o quanto a nova identidade de atriz permitiu que seus filhos e outras pessoas do seu convívio olhassem para elas por outro ângulo. Produzir bons documentários ajuda também. Neste sentido, é muito importante que A loucura entre nós circule e seja visto por muitas pessoas. No final, trata-se disso: assustar-se menos com a circulação da loucura. Por mais que tentemos afastá-la ou bani-la, ela é teimosa; está sempre entre nós e em nós, independente da nossa disponibilidade para encarar o fato.

 

Leia todo o material produzido sobre “Loucura e o Feminino” entrando aqui.

Entrevista Dra. Fernanda Otoni

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A psicanalista Fernanda Otoni de Barros-Brisset sabe dos preconceitos existentes na sociedade quando o tema é sofrimento mental. Sabe também que esse preconceito pode aumentar muito quando associado à figura do “louco infrator” – termo carregado de julgamentos muitas vezes usado para designar a pessoa em estado de sofrimento mental que comete algum delito perante a lei.

Ela conhece a fundo todo o assunto. Não à toa, trabalhou para criar e coordena o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (Pai-PJ), Programa modelo em todo o mundo que funciona para reverter conceitos que, ao longo da história, vêm alijando um grupo significativo de pessoas do convívio social, obrigando-os a enfrentar penas em manicômios judiciários capazes de se transformar em verdadeiras prisões perpétuas.

Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e autora de vários trabalhos relacionando a loucura e a sociedade contemporânea, ela é uma das vozes importantes a defender o convívio social como possibilidade de um Presente capaz de gerar um Futuro com menos segregação.

Perguntamos a ela, entre muitas outras coisas, qual seria o melhor caminho para reverter tantas ideias historicamente preconceituosas sobre o universo da pessoa em sofrimento mental. “Conversando”, ela respondeu. E é exatamente isso que ela faz nessa ótima entrevista que dividimos agora com o público de A loucura entre nós:

O que é o PAI PJ?

Dra. Fernanda Otoni – Um programa do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que faz o acompanhamento das pessoas que, numa situação de angústia intensa, como resposta a esse sofrimento, cometeram crimes e, do ponto de vista jurídico, são consideradas inimputáveis e seu processo corre de forma diferenciada. Elas não recebem uma pena, recebem uma medida de segurança, que, do ponto de vista prático, acaba sendo uma medida muito gravosa, porque é uma medida segregativa que, historicamente, destina essas pessoas ao manicômio judiciário – onde elas ficam por lá por tempo indeterminado até que seja realizado o que, juridicamente, é conhecido como um exame de cessação de periculosidade.

Essas pessoas são classificadas como pessoas que portam uma periculosidade intrínseca … uma classificação que etiqueta e segrega! A literatura psiquiátrica, desde 1800, considera que elas portam uma periculosidade. E aí, a única coisa capaz  de fazer com que cesse sua relação com a justiça seria receber um laudo que ateste a cessação de periculosidade. É assim há mais de 200 anos!

Quando o programa começou, 16 anos atrás, partimos de 15 casos que estavam internados no Hospital Raul Soares, o hospital público psiquiátrico de Belo Horizonte – porque os juízes pediram para que essas pessoas fossem internadas lá de forma compulsória, já que não havia vaga no manicômio judiciário de Barbacena. E aí, quando nos aproximamos dessas pessoas pra escutá-las, junto com os colegas daquela instituição, promovemos  uma abertura pra que elas pudessem dizer do seu sofrimento, falar o que estava em questão no momento do ato, entender como é a sua relação com os outros e, hoje, qual é a sua resposta para tratar esse sofrimento.

E nós fomos encontrando pessoas cuja humanidade não é diferente de nenhuma outra, cujo crime foi uma resposta, um ato próprio aos humanos, desde que o mundo é mundo. Quando criam-se as condições para o falar sobre isso, vão se abrindo no dizer respiradouros, outras conexões que incidem sobre as formas de enlaçar-se aos outros, à vida, colocando certa distância do ato, da violenta ruptura do laço, de tal sorte que formas inéditas de convivência, ainda que irregulares,  passam  a ser uma possibilidade. A lógica da segregação produz o silêncio e o isolamento e essas pessoas deixavam de ter acesso, ou mesmo, de transmitir a sua capacidade, a sua responsabilidade pra com os destinos a dar pra suas vidas, pra com seu sofrimento. Então o programa começa dessa maneira, ouvindo essas pessoas, abrindo-lhes a oportunidade de responder pelas consequências dos seus atos em suas vidas.

O programa é uma criação brasileira?

Dra. Fernanda Otoni – O programa é inédito justamente porque no Ocidente, desde Pinel, Morel, Esquirol, e tantos outros, até o início do século XX, essa foi a orientação em relação a esses casos. Então, juridicamente e socialmente, as cidades têm resolvido os problemas com os loucos que cometem crimes enviando-os para os manicômios judiciários. Nós subvertemos essa lógica, justamente porque nós tivemos a oportunidade de encontrar com essa situação a partir de uma outra leitura, que é uma leitura da orientação Lacaniana. Porque a orientação clínica inaugurada por Lacan termina definitivamente com essa ideia de certa  hierarquização entre as estruturas. Desmistifica a concepção de que a Loucura seria um degrau menor da humanidade.

O ensino de Lacan nos permite tomar o parlêtre – o ser falante -como uma resposta singular, o sintoma como uma forma de laço social, cada um porta um saber fazer com a sua causa mais íntima e responde por isso.  E é com isso que cada um joga sua partida na relação com os outros,  laço que conta com as palavras que tocaram seu corpo,  com os objetos da sua rotina,  com o que lhe foi falado e com o impossível de dizer dos traumas  da sua vida. Esse arranjo contingente é o que faz de cada um único, torna única a forma como cada um se enoda, como se amarra… E, se cada um é um, não há hierarquia entre os corpos falantes. Essa é a democracia que nos interessa!

Por outro lado, também, estávamos em um momento, em 2000, de uma grande discussão em torno da lei Antimanicomial que previa a desospitalização, apontando um outro modelo que não fosse o da segregação. Então tivemos esse encontro, essa feliz contingência de um encontro entre uma orientação clínica e um movimento político. Um encontro em condições de dar lugar a um dispositivo novo a ser instalado e ofertado a essas pessoas, nesse  campo de interface entre o Direito e a Saúde Mental e, em conexão decidida junto ao movimento social da reforma psiquiátrica que previa e fazia esforços nessa direção e ampliava os dispositivos de tratamento que não eram manicomiais.

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O PAI PJ possui abrangência nacional?

Dra. Fernanda Otoni – Não. Ele funciona hoje no estado de Minas Gerais a partir das Comarcas onde esses casos tiveram alguma inscrição. As Comarcas são os lugares do Tribunal de Justiça onde há um Fórum, onde há um juiz responsável pela execução dos processos criminais da sua região.

O Programa já funciona como referência para outros projetos?

Dra. Fernanda Otoni – Sim, ele é uma referência no Brasil. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2011, lança uma recomendação nacional orientando  todos os Tribunais do país a seguirem essa forma de condução dos processos a partir da orientação proposta pelo PAI PJ. Na Itália, em 2014, houve todo um movimento pela extinção dos manicômios judiciários e o programa citado, inclusive na mídia italiana, como modelo, ao dizer como se podia dispensar a segregação como resposta a essa situação, foi o PAI PJ também! Eu já tive a oportunidade de levar a experiência do programa pra discussão na França, em Portugal, na Alemanha, na Inglaterra,  na Espanha, na Bélgica, na Grécia,  na Argentina, e por todos os lugares, essa condição inédita de tratar cada um a partir da sua singularidade é o que faz do Programa uma fórmula absolutamente nova  no mundo jurídico.

A situação da pessoa em sofrimento mental ligada ao sistema penal é mais problemática hoje, no Brasil, do que a situação daqueles que não têm relação com o estigma da violação das leis?

Dra. Fernanda Otoni – Vamos dizer que todos que se encontram em uma situação de sofrimento, de certa desordem, vão buscar nos recursos da civilização, nos recursos da cidade, uma forma de dar tratamento a isso. Isso é humano! Hoje, com a Lei 10.216, temos uma ampliação dos recursos para dar tratamento ao sofrimento psíquico, um movimento político social decidido no campo da saúde mental permitindo aí uma ampliação do cuidado e do seu acesso aos recursos de tratamento. Temos também, a partir do ensino de Jacques Lacan, uma clínica orientada ao detalhe singular de cada sujeito, uma orientação para o singular do sintoma, em cada caso, e para o laço social possível, dando  ênfase ao próprio saber que o sujeito tem sobre o que trata o seu sofrimento. Isso é o abre-alas.

Quando você permite àquele que sofre encontrar no dizer uma forma de expressar o que sofre e como tratar esse sofrimento, isso abre alas! Você precisa que ele tenha acesso aos recursos pra dar tratamento a isso, pra que ele possa inventar suas soluções. Então, com a Lei 10.216, podemos dizer que se instalou uma política pública  que procura ampliar os recursos. Agora, cada um vai fazer uso desses recursos à sua maneira. Seja pela via das palavras ditas e escritas, seja pela via do trabalho, oficinas, seja pela via das relações de convivência, seja pela via medicamentosa ou por todas elas, cada um vai encontrar sua forma de dar tratamento a sua dor de existir.

No caso daquele que comete o crime, a lei penal estabelece certos critérios, certas amarras que não são exclusivas para quem cometeu um crime em situação de sofrimento. O sistema penal hoje é a maior máquina segregativa que nós temos. É um filtro… Se você for olhar dentro, hoje, do sistema penal, encontramos as pessoas que não tiveram acesso à educação, a recursos pra inserção no mercado de trabalho, a maioria são muito pobres, afrodescendentes… de certa forma, o sistema penal recupera todos os efeitos de segregação social produzidos pela lógica capitalista em jogo no sistema atual. E as formas de lidar com isso são formas muito rígidas, no sentido de provocar cada vez mais a escassez dos recursos para que essas pessoas pudessem refazer o laço social, produzindo como única saída  uma identificação maciça com a exceção, com o pior.  Uma vez que se entra no sistema penal, tem sido muito difícil sair dele. É o que as estatísticas mostram. Então, essa situação tende a produzir um recrudescimento da brutalidade da vida. Eu penso que, no caso das pessoas que cometeram um crime, o fato delas serem engolidas pela lógica penal se torna uma dificuldade a mais a se atravessar.

Quando existe o primeiro contato entre o Programa com as pessoas que ele secretaria?

Dra. Fernanda Otoni – Logo que a pessoa entra no sistema judiciário, nós nos colocamos nessa dobradiça entre a Justiça e a Saúde, escutando a singularidade de cada caso e suas tramas pra que essa trilha indique uma direção do tratamento pra que se possa informar ao Juiz qual a medida singular daquele caso, costurando qual a medida de cada um, zelando pra que o Juiz possa ter conhecimento dessa pessoa, pra que essa pessoa possa ir à audiência, para que ela possa tomar a palavra, responder pelos seus atos, construir uma narrativa diante do sistema de justiça, onde ela possa expressar a sua posição subjetiva… Isso tudo produz uma Justiça que promove o laço social, uma Justiça mais cidadã, orientada por cada caso, a partir desse universal da lei para todos – mas que cada um possa se enodar a essa lei geral a partir da sua singularidade – que é um princípio constitucional, mas que na maioria dos casos não é escutado porque há, a priori, uma solução de massa para todos, uma solução que segrega.

Que riscos o Programa está correndo hoje, diante da atual situação do país?

Dra. Fernanda Otoni – O Programa tem uma inserção muito interessante em Minas justamente por estar em quase todas as cidades, fazendo essa discussão muito de perto, seja com os juízes, seja com os serviços de saúde, seja com a comunidade, fazendo conversar o impasse. Então ele tem uma entrada bem interessante no estado inteiro. Só que, por questões orçamentárias, o Tribunal resolveu cortar quase metade dos seus recursos humanos no último ano. Com isso, o Programa deixa de acompanhar 900 pessoas no interior do estado. É uma situação muito grave, porque são pessoas que, de alguma forma, contam com essa secretaria para fazer a diferença, elas contam com sua conexão ao Programa para fazer com que sua diferença subjetiva tenha cabimento na cidade, e a perda desse ponto de contato pode, em alguns casos, corresponder a uma desconexão com a vida que a pessoa vinha, até então, se enlaçando.

Em vários casos, casos iniciais, um laço com o Programa ainda é essencial, no sentido do enodamento a um novo laço social. Então estamos fazendo todos os esforços pra tentar reverter isso. Estamos conversando com o Governo do estado, através da Secretário de Planejamento, que está muito sensível, e vamos ver o que conseguimos construir.

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Cena do filme A loucura entre nós. Foto Gabriel Teixeira.

Qual seria o maior erro na percepção da sociedade em geral em relação às pessoas em situação de sofrimento mental que cometem algum crime?

Dra. Fernanda Otoni – É o de considerá-las perigosas. A brutalidade opaca da vida existe, não há garantias e a tendência ao hedonismo não é um programa natural da humanidade. E  isto é um fato! Mas esse significante perigoso, ele instala o ponto dessa  opacidade real, disso que escapa ao controle, nos corpos de alguns. Taxar essas pessoas de “perigosas” é uma redução da humanidade que nos habita e de sua potencialidade criativa e imprevista, seja de vida ou de morte; é encerrar o inominável de uma vida a uma palavra obscura, “perigoso”. É fazer crer que existe o bom e o mau. Desde criança contam histórias de lobo mau, monstro, fantasma,  bruxa, e acreditar que existem pessoas que são intrinsecamente perigosas é condenar essas pessoas a encarnar o lado mau da história. Imageticamente é como se existissem os heróis e os bandidos.

E como reverter isso?

Dra. Fernanda Otoni – Conversando. É isso que o Programa faz. Ele vai lá, conversar com cada um, conversar na comunidade. Porque muitas vezes a comunidade não quer aquela pessoa de volta; quer que ela seja presa, que viva o resto da vida no manicômio judiciário… Então, o que é que a gente faz? Além de estar ao lado e  promover as condições para que a pessoa possa encontrar formas de tratar o seu sofrimento, ter acesso ao dizer e com isso transmitir a singularidade de seu tratamento, também abrimos espaço de conversas com a comunidade, com as equipes de saúde lá onde a pessoa mora, lá onde é o seu território  social, pra que, com a conversa, isso se desloque. Porque somente conseguimos provocar um deslocamento desses significantes rígidos, dessa ordem de ferro, quando se começa a falar. Quando isso acontece, o falar ativa outras palavras, as  lembranças, narrativas  da  infância,  de um caso parecido, uma história nova pra contar, e isso vai se deslocando, vai encontrando formas de abertura, de arejamento, e abre para uma aposta na convivência. E com a convivência as pessoas vão se dando conta de que o  perigoso é a ausência de tratamento, o isolamento,  o silêncio. Quando se amplia as condições de laço social, ampliam-se as possibilidades de respostas, ainda que fora do normal. Pode não ser racional, mas é razoável. Não adianta vir por decreto de lei… A solução vem conversando e convivendo!

O que as pessoas ainda não sabem sobre o assunto – mas que deveriam saber?

Dra. Fernanda Otoni – Vou subverter um pouco a sua pergunta… Talvez a pergunta seja assim: “O que as pessoas sabem, mas não querem saber – e por isso elas não sabem?” Eu acho que, de forma geral, as pessoas se defendem é da loucura de cada um, da loucura entre nós. É da forma imprevista, inominável, incalculável como cada um porta o seu ponto de loucura sem sentido, e que pode se manifestar na forma de atos insanos, em certa desordem, em palavras que saem sem pensar ou em atos que chocam. Não há nada mais humano que isso. Isso é para todos! É o que não tem governo nem nunca terá…

Mas a humanidade cria uma série de discursos e de instituições para se defender disso que está na causa do nosso Ser, da nossa existência. De fato é o que todo mundo sabe, mas não quer saber – e se defende disso a partir desse “não saber”. “Eu não quero saber de nada disso” é tão poderoso, que é capaz de produzir essas instituições, como diz Foucault, que dão a ilusão pra todo mundo que “loucos são eles” – e se o território onde estão está cercado, como numa ilha, nós estamos protegidos deles. E, assim, cria-se a ilusão de que há uma distância entre cada um e a sua loucura. Mas, na realidade, a loucura está em cada um de nós! Todos nós somos loucos, a nossa maneira, e, no fundo, o que fazemos é tratar de conviver com a loucura entre nós – até para tratar do feliz título do filme de vocês!

Leia aqui o comentário da Dr.a Fernanda Otoni sobre o filme A loucura entre nós.

Entrevista Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes

Dra

Imagem da Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes feita por seu filho, Pedro.

Pesquisadora e consultora extremamente atuante em diversos projetos de políticas públicas para o autismo e a prevenção psicossocial, a Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes conhece de perto as realidades – e necessidades – envolvidas na participação familiar quando se fala no tratamento de pessoas com sofrimento mental no Brasil.

Afinal, participou da construção do Marco Legal Primeira Infância, PLC 14/2015, e escreveu diversos livros relacionando a infância com o universo da psicanálise. Além disso, fundou o Instituto Viva Infância (OSCIP) e o INFANS – unidade de atendimento ao bebê, núcleo São Paulo e Salvador.

Seu currículo inclui ainda Graduação em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (1989), Mestrado em Filosofia da Ciência pela Universidade de Campinas (2003), Doutorado em Psicologia Clínica pela USP (2010) e Especialização em Psicopatologia do Bebê pela Université de Paris Nord, Dep. de Medicina (1990), e em Epistemologia da Psicanálise, UNICAMP (1998).

Toda essa experiência lhe deu uma perspectiva clara sobre diversas questões subjacentes às dinâmicas familiares afetadas pelo sofrimento mental e como a falta de apoio de um núcleo próximo pode gerar processos de exclusão social que em nada contribuem para qualquer tratamento. Nessa entrevista para a equipe de A loucura entre nós, ela divide algumas de suas experiências, jogando luzes – e provocações – necessárias a esse mergulho no universo da Loucura e a Família.

Qual é a relação que se pode estabelecer entre família e a loucura?  Como as relações familiares podem potencializar – ou anular – comportamentos associados ao sofrimento mental?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Essa é uma pergunta complexa porque parece que nela esta implícita uma certa culpabilização da família pela loucura de algum de seus membros. Não compartilho da ideia de que numa relação biunívoca de causa/consequência haja a produção da loucura pela família em si. Também não acredito que a loucura seria o resultado de um “diálogo íntimo” entre a família e um de seus membros. Mas parto do princípio de que a loucura é uma forma de resposta. Uma certa resposta ao sofrimento, à condição de existir.  A loucura não é produzida a dois, mas existe entre muitos. Essa situação fica mais aguda em circunstancias onde as exigências por uma reposta ideal caem por terra.

Mas sabemos que nem toda dinâmica familiar pode ser considerada
 “saudável” – e, às vezes, pode até mesmo ser um gatilho de disparo de processos difíceis para a pessoa em estado de sofrimento mental. Quando a família está incluída nesse elo nocivo de comportamento, como a sociedade – médicos, sistema público de saúde etc. – deve interagir?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – É verdade que pode ocorrer de algumas operações psíquicas fundamentais não terem o tempo para se organizarem a contento – e isso dificultar muito a vida de membros de uma família, mais ainda da pessoa que está afetada diretamente com a loucura. É preciso haver operações para que o desejo materno (operação sustentada por qualquer pessoa significativa para a criança) não seja nem exclusivo e nem exclusivista, e para isso um terceiro é fundamental para instaurar a alteridade que barre a complementaridade apenas de dois membros. É nesse sentido que médicos, sistema de saúde, psicólogos e outros profissionais podem ajudar fazendo essa função de alteridade, de terceiro, de alguém que pensa diferente e que consegue intermediar uma relação intrafamiliar muito fusional, por exemplo. O trabalho em rede é, a meu ver, o de maior potência para cumprir com a função de terceiro, pois possibilita o corte, mas, também, construir uma linha de continuidade e a atenção no trabalho, completando um trabalho de “corte e costura” muito constitutivo. Quando há elos nocivos, como está citado na pergunta, é mais um indicativo que o trabalho não pode ser realizado excluindo a família, mas sim tomando-a como um componente importante do foco de atenção, da ajuda, do atendimento.

Vivemos períodos em que o paciente era isolado da família para se tratar e, em tempos atuais, convivemos com propostas de atendimento à família do paciente. Como você percebe essas transformações?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Ninguém pode se “tratar” de modo isolado, nem isolado de uma família, nem do campo social ao qual pertence. Isolamento ou exclusão não trata ninguém. No caso da saúde mental, separar uma pessoa dos seus laços sociais para que ela se “trate”, na verdade, é querer higienizar a vida, é projetar num único sujeito o mal estar inerente à condição humana, como disse Freud, o “mal estar na civilização”. Portanto, é da ordem de um grande engano essa concepção do isolamento ou da exclusão; presta uma função àqueles que isolam; não aos que são excluídos. Tudo isso para dizer que não há tratamento sem a participação da família – participação não apenas de apoio terapêutico ou algo assim, mas participação nas decisões sobre o tratamento.

 

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Imagem de Elisângela com sua filha, em cena do filme A loucura entre nós.

Quais mudanças você destaca no modo como a família tem convivido com a loucura e as representações sobre o sofrimento mental?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acredito que a participação política da família nas reivindicações e na construção de uma política pública de atenção à loucura tem sido a maior diferença. Mas acho que precisamos enfrentar o tenso debate sobre o apoio à família de modo mais efetivo. A representação da loucura no imaginário familiar avançou mais em famílias participantes de movimentos ou grupamentos politizados, participantes da Lluta Antimanicomial. Porém, de modo mais amplo, ainda há muito preconceito nas relações que envolvem a loucura.

Acredito que a Luta Antimanicomial é de um avanço único, mas acho também que no meio desse percurso a briga política tenha deixado um pouco de tomar o sofrimento da família – e isso pode dar problemas também. Existe algo que talvez tenhamos que rever na nossa luta: a singularidade de como cada família viveu e vive a desinstitucionalização, por exemplo. Digo isso porque, no campo social, essa família ainda fica muito isolada também.

Atendi uma época uma mãe gestante paciente numa moradia assistida. O casal procurou se casar no religioso, mas nenhuma igreja aceitou fazer o casamento, pois eram “loucos”… A família de um usuário não conta com uma rede social que possa acolher de modo simples e modesto, que seja, suas necessidades de inclusão. Falo de escola, igreja, clube, associação do bairro e outros. Há, portanto, o risco da família ficar muito só. O papel da família é fundamental para a inclusão social de qualquer problema em saúde mental, mas ela precisa estar incluída.

Nessa perspectiva, qual seria exatamente o papel da família no tratamento e no cuidado com o paciente?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Em primeiro lugar, condições básicas para suprir as necessidades de uma vida economicamente viável. Vou voltar a esses casos de mães psicóticas e seus bebês ou filhos pequenos: há uma diferença imensa no procedimento até Legal em se tratando de classes sociais distintas. Na classe menos favorecida, como era o trabalho na nossa ONG, desde a maternidade já se colocava o imperativo de que essas mães não podiam ficar com seus bebês, mas ninguém nunca viu isso numa maternidade de classe alta; nenhuma mãe ou pai de classe alta é interditado a priori em relação ao filho desde a maternidade! Então, suprida as condições mínimas de moradia, alimentação e trabalho para os membros da família, a atenção psicossocial pública deve ser o segundo parâmetro de necessidade, pois daqui podem vir as possibilidades de inclusão da família em comunidades ou grupos sociais da sua localidade – não falo aqui mais de dispositivos da própria rede RAPS, mas da rede da cultura, da rede comunitária, escolar etc.

Que aspectos você considera mais relevantes quando se trata de uma proposta de atendimento à família?    

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acho que já respondi nas anteriores, mas gostaria de acrescentar que tudo isso é feito “uma a um”, ou seja, a proposta da rede RAPS do projeto terapêutico singular é fundamental porque todas as pessoas são diferentes e singulares.

Como o Autismo entra nesse contexto?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – O autismo e a loucura são condições distintas. Até 1943 o autismo era tomado como uma esquizofrenia infantil, mas atualmente essa aproximação não se sustenta. A dificuldade que se pode sentir ou persistir em dúvidas, acredito que vem muito mais da impossibilidade de classificações ideais da psiquiatria, do que de uma irmandade entre autismo e loucura. São formas subjetivas diferentes que não podem ser confundidas.

 

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Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes.

Podemos falar em especificidades no que diz respeito ao autismo, quando pensamos nas relações a serem estabelecidas para o cuidado esperado com a família?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Em relação à família de uma criança, ou já adulto, com autismo, é preciso pensar que aqui as dificuldades são de outra ordem. Em primeiro lugar, por ser um assunto que não há ainda conclusões etiológicas comprovadas, as famílias tiveram e têm um papel importante na busca de soluções como podem, seja nas pesquisas desses tipos de atendimentos, seja no campo da atenção, seja no campo dos direitos humanos e políticos. As associações de amigos e familiares de autistas são extremamente organizadas no mundo todo. Mas precisamos ampliar o olhar para poder falar também que essa grande participação das famílias na política e no tratamento de pessoas com autismo, não necessariamente as protege de “enganos” a que podem ser levadas quando se deparam com “promessas de cura”, “tratamentos milagrosos”, “falsas pesquisas” ou “pesquisas com conflito de interesses”. Aqui temos um triste terreno, que ocorre em qualquer área, mas ante a falta de comprovações definitivas, esse tema do autismo tem sofrido mais a ameaça de um mercado ganancioso, que ultrapassa o sofrimento em jogo em muitas situações. Tem sido uma luta difícil para essas famílias, juntar a função de “estudar” e “cuidar” dos filhos com autismo.

O atendimento à família precisa comportar essa dimensão também, além das outras. O autismo pode e deve ser atendido na rede RAPS, e o formato de CAPs tem total condição de prestar um atendimento intensivo e interdisciplinar, com uma excelente proposta de inclusão social; a dificuldade aqui é que essas equipes precisam de maior capacitação para algumas especificidades, como a comunicação alternativa e a integração sensorial. E foi por isso que fomos convidados pelo Ministro da Saúde entre 2012 e 2013 para escrevermos esse documento chamado “Linha de cuidados na atenção à pessoa com autismo e sua família na rede RAPS”. Precisamos colocar em prática tudo isso.

Que diferenças nos resultados podem ser observadas nos tratamentos de pessoas em estado de sofrimento mental quando eles são iniciados logo na infância?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acredito que um sofrimento que se inicia na infância deve ser tratado assim que se inicia, ou seja, na infância. Se podemos falar em alguma unanimidade no campo da saúde mental ou saúde publica, essa se refere ao atendimento poder ser iniciado assim que haja uma suspeita sobre ele, sem que precisemos aguardar uma cristalização de seus prejuízos, e isso normalmente acontece ainda na infância ou em algumas situações ainda na adolescência (pois sabemos que há uma segunda volta, tanto em termos de poda neuronal, quanto de possibilidades de ressignificações  psíquicas). Portanto, também toda atenção ou investimento público no campo da atenção à infância é, em termos de política pública, de uma grande economia para governos sérios. Então, tanto no âmbito do trabalho individual, caso a caso, quanto numa política de Estado, é unanimidade que sa atenção se inicia assim que a dificuldade ou o sofrimento se iniciam; os resultados são muito melhores e, atualmente, não há qualquer pessoa que possa dizer o contrário.

Como você avalia o modelo dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS no que se refere à prevenção?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Eu considero o modelo dos CAPS um grande modelo para a saúde mental. Há a ideia de integralidade, de portas abertas, de equipe interdisciplinar, com um grande objetivo de inclusão social e ser referencia para as famílias, além da possibilidade de conjugar as outras redes do SUS. Acho que é um modelo extremamente avançado, realmente. Existe a possibilidade de atendimento intensivo e semi-intensivo, com alimentação e oficinas etc. As moradias assistidas, que são projetos importantíssimos de inclusão social e ajuda à família, também fazem ponte com a rede dos CAPS. O objetivo de inclusão que está no espirito essencial de um CAPS é um trabalho de prevenção; não prevenção da loucura, mas dos efeitos secundários e perturbadores da exclusão social e da segregação. O problema para o CAPS de conseguir cumprir a contento com sua função são problemas que não advém de sua concepção, mas da falta de recursos e da limitação quantitativa de sua rede.

O que você acha essencial dizer para as pessoas sobre a loucura?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Diria em primeiro lugar que, nem de perto e nem de longe, ninguém é normal! A condição da loucura em si não inviabiliza a vida de ninguém; o que inviabiliza a vida de alguém é a segregação, a exclusão e a falta de oportunidade. Assim, numa sociedade pautada pela cadeia produtiva, em que a padronização das respostas está tão em voga, essas pessoas sofrem mais, por estarem, muitas vezes, com menos condições de responderem às exigências desse tipo de mundo capitalista. É fundamental que se tenha lugar para todos; um lugar para todo mundo com suas singularidades.

A Loucura invade Portugal!

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O filme A loucura entre nós continua sua carreira internacional em festivais e mostras! Mal foi exibido (com sessão concorridíssima no último dia 29 de abril, diga-se de passagem) na quinta edição do Madeira Film Festival, realizado em Madeira, a obra da Água de Março Filmes organiza nova exibição para o público português, com sessão agendada para o dia 7 de maio na 7ª edição do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin), em Lisboa!

O FESTin acontece de 4 a 11 de maio no Cinema São Jorge, em Lisboa. Este ano serão exibidos 74 filmes (entre longas, curtas e documentários) de oito países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste. Em comum, as práticas de respeito à diversidade presente nos povos de Língua Portuguesa, traduzidas pelo cinema contemporâneo.

A loucura entre nós participará da competição de documentários, que surge particularmente forte este ano, englobando temas que abordam desde temáticas sociais até reconstruções históricas e intercâmbios culturais entre os países lusófonos. Entre os filmes estão Do Outro Lado do Atlântico (sobre a ponte entre Brasil e África, a partir das histórias de vida de estudantes africanos de países de língua oficial portuguesa em diferentes cidades do Brasil), O Olhar de Nise (a partir da vida de Nise da Silveira) e Central (que revela as condições de uma penitenciária brasileira para investigar os obstáculos da ressocialização dos condenados).

A loucura entre nós | FESTin
07 de maio |20h30 | Cinema São Jorge |Sala 3

Para informações sobre ingressos em Lisboa, entre aqui!

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Cartaz do Madeira Film Festival, que também contou com a participação de A loucura entre nós.

A Loucura em Brasília!

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Dr. Marcelo Veras estará em Brasília para debater sobre o filme, após a sessão do dia 01/05.

A Loucura entre nós está chegando em Brasília! No próximo dia 01 de maio, o filme de Fernanda Fontes Vareille participa da programação da MOSTRA DO FILME LIVRE 2016, com exibição às 19h, no CCBB. Mas não só isso; a sessão na cidade contará com um debate com a participação do Dr. Marcelo Veras, psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e autor do livro “A loucura entre nós” (que inspirou a criação do documentário), e Eva Falheiro, coordenadora do Movimento Pró-saúde Mental do DF e Diretora da Inverso. A mediação dessa conversa imperdível será de Giovanna Quaglia, psicanalista, membro da Delegação Geral GO/DF e da Escola Brasileira de Psicanálise.

Para saber mais sobre a sessão, ingressos e local, entre aqui!

Estreia em Paris!

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Foi intensa a participação do filme A loucura entre nós na 18ª. edição do Festival du Cinéma Brésilien de Paris, no último dia 07 de abril. Com a sala do cinema L´Arlequin  praticamente lotada por um público misto de brasileiros e franceses, a exibição do documentário de Fernanda Fontes Vareille deu munição para um debate pós-filme extremamente participativo!

A diretora estava acompanhada do psiquiatra Marcelo Veras, autor do livro homônimo no qual o filme se inspirou. A dupla foi questionada intensivamente por parte do público, interessado em discutir desde temas relacionados ao conceito de “louco” até os caminhos que a equipe do documentário teve que trilhar para conseguir produzir uma obra tão tocante sobre um assunto não menos intenso. O resultado foi uma conversa rica e dinâmica, que só não se estendeu ainda mais porque o cinema tinha horário para fechar…!

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Fernana Fontes Vareille e Dr. Marcelo Veras respondem ao público. Foto do Festival du Cinéma Brésilien de Paris.

O Jornal do Brasil, que tinha um representante seu durante o debate, chegou a publicar: “A resposta do público a esse que foi o primeiro longa-metragem de Fernanda foi muito positiva, muitas pessoas presentes na plateia contaram inclusive suas próprias experiências em hospitais psiquiátricos na França ou no Brasil”. (Leia a matéria na íntegra aqui)

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A produtora Amanda Graciolli também esteve presente no lançamento em Paris. Fotos do Festival du Cinéma Brésilien de Paris.

A obra já foi exibida em Festivais no Brasil e no exterior, como o 4o. Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, o Pirenópolis.Doc (onde ganhou Prêmio de melhor longa-metragem da Mostra Competitiva Nacional – júri popular), o INDIE Festival, em Belo Horizonte, o Festival Cachoeira Doc, o VLAFF – Vancouver Latin American Film Festival, no Canadá e o XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador. Em 2015, ganhou também uma exibição fechada no Ateliers Varan, prestigiada escola de cinema francesa que reúne alunos e estudiosos de várias partes do mundo envolvidos na formação e pesquisa do cinema documental. Sua temporada no circuito comercial brasileiro está sendo agendada para o segundo semestre de 2016.

Mostra do Filme Livre 2016

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A loucura entre nós foi selecionado para a MOSTRA DO FILME LIVRE 2016 e estará no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais, entre os meses de março e junho! O filme foi selecionado entre os 1.342 inscritos e será exibido nas sedes do Centro Cultural Banco do Brasil das quatro cidades, com entrada franca!

O documentário da Água de Março Filmes integrará a mostra Territórios, com obras que partem de questões locais muito específicas, mas que têm em comum a busca por um tempo inerente a cada espaço filmado, estabelecendo, pelas transformações consequentes das ações de um sobre o outro, seu próprio tempo interno.

A programação:

18 de março, sexta-feira | 16h | Rio de Janeiro
04 de abril, segunda-feira | 19h | São Paulo
11 de abril, segunda-feira | 19h15 | Rio de Janeiro
01 de maio, domingo | 19h |Distrito Federal
12 de junho, domingo |19 | Minas Gerais

Para mais informações, entre aqui!

Escola Brasileira de Psicanálise

A Escola Brasileira de Psicanálise vai realizar essa semana em São Paulo duas sessões do filme “A loucura entre nós”, de Fernanda Fontes Vareille. A primeira acontece no dia 04 de março, às 19h30, na Fnac do Shopping Don Pedro, dentro do projeto “Cine debate”. A segunda acontece no dia 05 de março, às 10h, na capital paulista, dentro da abertura das atividades da Diretoria de Biblioteca da EBP-SP. Nos dois casos, a exibição será seguida de um debate sobre as questões abordadas no filme. Confira abaixo os nomes de quem estará presente em cada sessão!

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Festival du Cinéma Brésilien de Paris

Ponto de encontro dos cinéfilos parisienses, o cinema L´Arlequin será, em abril, a casa do cinema brasileiro na França. Afinal, é lá que acontecerá a 18ª. edição do Festival du Cinéma Brésilien de Paris, evento que marcará a primeira exibição pública francesa do documentário A loucura entre nós, da cineasta Fernanda Fontes Vareille. Serão doze dias de festival, com filmes em competição, documentários, debates e encontros – devidamente animados com um bar brasileiro montado especialmente para a ocasião.

A loucura entre nós será exibido no dia 7 de abril, às 21h30. Os ingressos custarão entre 4 e 7 euros e, após a sessão para 400 pessoas, haverá debate com a presença de Fernanda Fontes Vareille, Amanda Gracioli, Marcelo Veras e Antoine Vareille.

A obra já foi exibida em Festivais no Brasil e no exterior, como o 4o. Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, o Pirenópolis.Doc (onde ganhou Prêmio de melhor longa-metragem da Mostra Competitiva Nacional – júri popular), o INDIE Festival, em Belo Horizonte, o Festival Cachoeira Doc, o VLAFF – Vancouver Latin American Film Festival, no Canadá e o XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador. Em 2015, ganhou também uma exibição fechada no Ateliers Varan, prestigiada escola de cinema francesa que reúne alunos e estudiosos de várias partes do mundo envolvidos na formação e pesquisa do cinema documental. Sua temporada no circuito comercial brasileiro está sendo agendada para o segundo semestre de 2016.

Dia 07.04 | L´Arlequin | 76 rue de Rennes – PARIS | 4€ / 7€
Exibição com a presença da diretora Fernanda Fontes Vareille, seguida de debate

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