Entrevista com Edna Amado

Ainda no começo das filmagens, em 2011, quando a diretora Fernanda Fontes Vareille não tinha definido que as vozes dadas ao documentário A loucura entre nós seriam apenas dos portadores de sofrimento mental, algumas entrevistas importantes foram feitas com pessoas cujas histórias estavam ligadas ao universo abordado no filme.

Uma delas foi com Edna Amado, Assistente Social baiana de Santo Amaro da Purificação, com graduação em Serviço Social pela Universidade Católica do Salvador (1972) e especialização em Terapia Familiar pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (1977).

Edinha, como é conhecida, foi fundadora do Núcleo pela Superação dos Manicômios (Nesm), filiado à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, e é atuante defensora dos direitos dos portadores de sofrimento mental, com envolvimento por mais de cinco décadas no Hospital Juliano Moreira, em Salvador, e na militância pela implantação dos Centros de Apoio Psicossocial (Caps). Hoje também Professora, é uma pessoa importantíssima para todo o Movimento da Luta Antimanicomial. Fez parte do seu surgimento!

Sua entrevista (como outras realizadas) não entrou na edição final do filme – uma decisão que nada tem a ver com a qualidade do que foi dito. Ao contrário! Suas palavras, experiências relatadas e pensamentos sobre o trabalho que vem realizando em prol da Luta Antimanicomial foram fundamentais para o desenvolvimento do documentário e, hoje, ganham relevância cada vez mais urgente, à medida que o tema também ganha cada vez mais visibilidade.

Resolvemos dividir com o público uma parte desse material, onde Edinha fala do surgimento da Luta Antimanicomial, sobre a perda do Sujeito por parte do interno de hospitais psiquiátricos, sobre a relação entre violência e loucura, sobre o tempo simplesmente perdido para o nada, sobre o dia a dia dentro dos hospitais, eletrochoque…

Ou seja, uma entrevista imperdível, necessária e emocionante, onde essa “Mãe, Mulher e Cidadã” fala sobre a loucura, seus nós e sobre a loucura que existe entre nós – assuntos fundamentais para entender de onde a Luta Antimanicomial veio, onde ela está hoje e para onde ela aponta no futuro!

Como é o trabalho que você desenvolve no CENA?

EdnaAmado-20109172712Edinha: O diferencial do CENA é que ele é um serviço diferente do hospital psiquiátrico; ele é um serviço aberto e comporta inclusive que a comunidade participe, entre etc, etc, etc. Nós procuramos, desde a chegada do paciente, tornar isso diferente.  Por que? Dentro dos princípios da reforma psiquiátrica, pela Portaria 336, os serviços substitutivos ao hospital devem ter uma outra lógica. E devem trabalhar na perspectiva do fora. Não como é a lógica do hospício: desde o seu nascimento, desde o seu primeiro hospital Bicêtre, Salpêtrièreque, a intenção era de excluir, porque, na verdade, o hospital (psiquiátrico) nunca foi feito, nunca foi pensado como um lugar de cura, um lugar de tratamento; sempre foi pensado como um lugar de exclusão, de tirar da sociedade aquelas pessoas estranhas, incômodas, insubordinadas – segundo o ponto de vista do sistema – e excluir esses indivíduos.

Não havia essa perspectiva, essa expectativa de que eles pudessem se recuperar e voltar. Tanto que se construiu o imaginário de que lugar de maluco é no hospício, que lugar de maluco não é na rua, não é na vida. Contra isso, desde a década de 60, depois de mais de duzentos anos de comprovação de que o hospital (psiquiátrico) é uma coisa ruim, é uma coisa que faz mal, profissionais na Europa, nos Estados Unidos, começaram a problematizar: O que é que está errado?

Na verdade, voltando um pouco atrás, a loucura passou a ser entendida como uma patologia – e a gente não vai negar que essa patologia existe – a partir da idade média, porque na idade antiga os loucos eram considerados seres privilegiados. O que hoje a gente chama de alucinação, de delírio, naquele tempo era entendido como peças com os deuses. Entendia-se que os deuses, hoje loucos, frequentavam o Olimpo, e que tinham um poder muito grande. Então eles eram venerados, eles eram privilegiados.  Com a mudança do sistema mercantil é que, na idade média, esses loucos passam a ser um incômodo para a sociedade. É daí que surge a nau dos insensatos, que foi o primeiro hospital que existiu. Porque se enchia as naus de loucos, provia de alimentos e soltava nos grandes rios.

Então um grupo de profissionais começou a questionar: o que é que falta? Ah, falta material, falta pessoal, falta isso… Se abastecia de tudo isso e as pessoas não melhoravam. Iam para o hospital e terminavam demenciados, terminavam mortos. Entendia-se que loucura progredia até chegar à demência. Então, esses trabalhadores começaram a questionar e criaram um grupo. Surge aí um movimento social que é o movimento nacional da luta Antimanicomial, tá certo?

Tivemos uma primeira experiência em Santos. Havia um hospital que matava muito, como, aliás, em todos os hospitais, se morre muito. (…) Dizia-se que todo louco morria de diarréia, morria de etc, etc, etc. Na verdade, morre – eu digo que morre muito – de morte matada. E questiono muito isso. Esse grupo de trabalhadores é que se agregou a isso. Políticos e, posteriormente, usuários e familiares, formaram o Movimento Antimanicomial. Porque a gente tentou mostrar que era possível.

Fizemos isso na cidade de Santos, em São Paulo, onde o Hospital Anchieta era um dos mais terríveis. Foi desconstruído e, em seu lugar, se criou uma outra lógica. Tem gente que chama de serviços substitutivos ao hospital. Os mais conservadores chamam de serviços alternativos. O Movimento Antimanicomial, na sua radicalidade – nós somos radicais, a gente chama de serviços substitutivos –, deve substituir o hospital psiquiátrico. Somos radicais porque vamos à raiz da questão. Por que é que o hospital não funciona? Porque que a pessoas não ficam boas? É porque não está bom? Precisa melhorar, precisa construir isso, precisa fazer aquilo? Não. Nós entendemos que o hospital não presta, não serve, que o hospital não trata, hospital só maltrata; que Hospital não cura, hospital só tortura. Uma tortura que está nas normas, que está no olhar, que está no horário, que está na captura da voz, do Sujeito. As pessoas deixam de ser Sujeito.

Isso acontece a partir de que momento, exatamente?

Edinha: Chegando numa emergência, a primeira coisa que se faz é se tirar a roupa do paciente; se toma os documentos do paciente, se abre um prontuário para o paciente, dá um diagnóstico. Daquele momento em diante, ele deixa de ser um cidadão. Ele deixa de ser um sujeito e passa a ser um paciente. Ele passa a ser um maluco. Daí em diante… Eu sempre digo assim: que Dante não conheceu um hospital psiquiátrico, senão ele não teria pintado o inferno de uma forma tão maneira, tá certo? Porque eu acho que hospital psiquiátrico é pior do que o inferno. Não conheço inferno, mas não precisa… Porque eu conheço hospital psiquiátrico.

Desde os meus vinte anos que eu estou em hospital psiquiátrico e, aliás, durante muito tempo eu achei que era possível dar jeito no hospital. E trabalhava muito para isso. Na minha ingenuidade da juventude, no meu afã de melhorar, achava que poderia ter um hospital melhor. Hoje eu digo que é verdade que ainda há necessidade, por falta de uma firmeza política, ainda há necessidade de hospitais. Há necessidade porque não se cria condições objetivas para que ele deixe de existir.

Temos uma ideologia de que o doente mental tem de viver em sociedade. Apesar da sua diferença, apesar das suas dificuldades. Bom, voltando um pouco atrás, eu acreditava muito, também, que era possível ter o hospital do bem. Isso não existe. Daí a nossa radicalidade. A gente luta e o nosso lema é: uma sociedade sem manicômios. Nega a loucura? Não. Em absoluto! Enquanto à patologia, não. Em absoluto! A gente nega o lugar que foi criado, supostamente criado, para dar conta: que é o hospital psiquiátrico!

Daí que a reforma psiquiátrica, depois que o movimento se estruturou bem aqui no Brasil, nós elaboramos uma lei, essa lei foi para o Congresso, levou onze anos, não por acaso, onze anos rolando porque não era interesse da indústria farmacêutica, não era interesse dos donos de hospitais psiquiátricos que essa lei fosse aprovada… Enfim, em abril de 2001, essa lei, a lei 10.216 felizmente foi aprovada. Não na íntegra, como a gente queria, mas já foi um avanço muito grande. A partir daí cria-se uma política de saúde mental que às vezes a pessoa confunde com o Movimento Antimanicomial; são duas coisas diferentes. Verdade que o Movimento Antimanicomial ensejou o advento dessa lei, sim. Nós lutamos muito por isso, que a gente diz que é uma luta, realmente. Realmente é uma luta reída, uma luta que é de todo dia, é como matar um boi à unha cada dia, porque a gente luta contra o imaginário social, de que lugar de maluco é no asilo e, por vezes, nos chamam de irresponsáveis, de loucos.

O que é ser “louco” pra você?

Edinha: Depende da circunstância. Diz o ditado popular que “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Quantas vezes a gente faz as coisas e a gente diz: “Meu Deus do céu, eu não sabia que eu era capaz de fazer isso!”, ou “Menina, me deu uma raiva…! Eu vou lhe dizer: se eu pudesse eu matava”. E às vezes é capaz de matar! É capaz de tudo! Isso é da condição humana. A loucura é algo da condição humana.  E diante das condições de vida, das pressões, dos traumas, têm pessoas com uma estrutura mais forte e que bem reagem. Têm outras que não reagem e caem. E fica com a sua lógica comprometida. Era como se: “está tão ruim a realidade, que o indivíduo foge”. “Se foge” através de várias formas. “Se foge” através a loucura – se eu não quero me dar conta desse mundo que me rodeia, eu vou pra uma outra estratosfera… Se suicida, por conta de que a vida fica tão insuportável que as pessoas se matam. É uma forma de fuga. Eu digo sempre que é um mecanismo de defesa. O que é ser louco pra a sociedade? É não pensar como o sistema requer. Percebe? Por isso que eles são considerados incômodos, porque eles não respeitam as normas que são estabelecidas pela sociedade, porque ele está regido por uma outra lógica. E não a lógica dos ditos “normais”, percebe? Um pouco por aí, eu diria.

Por que o dia 18 de maio foi escolhido como o dia da Luta Antimanicomial?

Edinha: Nós estávamos reunidas e resolvemos criar esse lema: Por uma sociedade sem manicômio. E achamos que devíamos ter um dia que fosse emblemático. E aí a gente foi passando, passando, terminou que ficou 18 de maio. No 18 de maio é comemorado no Brasil todo o dia nacional da Luta Antimanicomial. Aliás, aqui em Salvador nós temos o dia municipal também.

banner Inteternet

Fale mais sobre as conquistas recentes do Movimento da Luta Antimanicomial.

Edinha: Várias leis foram criadas antes dessa lei maior, que de fato já tirava, há tempos, de cena, a questão do hospital psiquiátrico e se criava outros espaços. Espaços abertos, tá certo? Dentro de uma política da Portaria 336, que organiza essa questão. Então ele diz que serviços deverão existir para dar conta do sofrimento mental. Então tem o Caps 1, Centro de Atenção Psicosocial 1, Caps 2, Caps 3…

Hospital_Juliano_Moreira

Imagem do Hospital Juliano Moreira, em Salvador.

O Caps 1 o indivíduo pode ficar; está comprometido, mas não tão comprometido que pode ficar somente um turno no Caps e, no outro, tocar a sua vida; o Caps 2, onde o indivíduo passa o dia todo, o Caps 3, onde há uma necessidade dele ficar  minimamente cinco a sete dias, a dez dias, sob internação integral e, mais imediatamente, sair. Mas, mesmo esse Caps 3, onde ele deve ficar internado, a lógica cotidiana é diferente. É uma lógica pautada no respeito, é uma lógica pautada na dignidade, na ética, na igualdade de que o outro é o outro, é um ser de direito, e não um maluco, que não tem voz.

Porque tudo que é maluco, se você passa por um hospital, tem sua vida muito comprometida. Por mais sorte que você tenha, de sair, quando você sai todo mundo vai dizer: “Fernanda já teve no Hospital psiquiátrico! Cuidado, viu? Ela já fez tratamento psiquiátrico”. Seu namorado vai terminar. Se não terminar, vai ficar cheio de restrições com você; seus amigos não vão lhe contrariar porque você pode, de uma hora para outra… Percebe? Você está para todo sempre marcada como doente mental. Esse papel de doente mental, de louco, que passa por um hospício, gruda. Ele é como se fosse uma tatuagem. Pior do que a tatuagem! Porque a tatuagem você opera e tira.  E essa pecha de louco, ela nunca acaba. Então, a gente luta exatamente contra isso, tá certo? De que é possível, às pessoas que têm o sofrimento mental, ter uma vida plena. Ter uma vida cidadã.

Nós temos – e a experiência tem provado isso de várias maneiras –, posso lhe dizer que eu tenho “N” exemplos aqui de pessoas que passaram por aqui como muito comprometidas. Muito psicóticos graves, severos, persistentes e que hoje estão na Faculdade, que hoje estão trabalhando, que hoje estão minimamente integrados no seu território, no seu ambiente. Nós temos usuários aí de que a família já tinha passado por vários internamentos, ninguém mais queria – e a gente nunca trabalha só o usuário, a gente trabalha com a família, não dá para trabalhar só com o usuário… Com usuário e com a família, porque o usuário não é um átomo, ele vive o contexto, numa rede de relações com a comunidade, com a escola, com o trabalho etc, etc, com a Igreja. Hoje mesmo nós estávamos trabalhando com um pessoal que é de Umbanda, e a gente estava trazendo ao Pai de Santo para discutir e ver de que forma ele pode ajudar. Nos ajudar no tratamento do usuário. Então a gente trabalha nessa perspectiva, de entender que é possível.

Como lidar com o conceito de “cura” quando falamos de uma pessoa com sofrimento mental ?

Edinha: Tem essa questão que doido não cura. O que é que é cura? Eu sou hipertensa, eu tomo minha medicação todo dia de manhã e levo minha vida normal, percebe? Se eu tomo um susto… Essa noite mesmo eu subi; uma filha de uma amiga minha se suicidou. Me abalou muito! Minha pressão subiu, tomei meu suco de xuxu, tá certo? Tomei meu Tensaliv e estou aqui trabalhando. Isso é cura. O diabético vai tomar, vai fazer o controle o tempo todo dele, mas ele vai poder trabalhar. Um grande estadista, nosso Ulisses Guimarães, era bipolar. Tinha transtorno bipolar. Grande político! Uma sumidade de gente! Se você for para o renascimento, para a época do renascimento, você vai ver quantas pessoas famosas tinham um sofrimento mental. Van Gogh, Bosch, Leonardo da Vinci e tantos outros, tá certo? Tinham comprometimento, mas eram brilhantes numa outra área. A gente entende isso. Nessa perspectiva a gente trabalha, e não apenas!

Edinha

Em 2010, Edinha recebe o título de Cidadã da Cidade de Salvador.

Porque hospital só quer tirar o sintoma. Acha que só deve tirar o sintoma. Tá alucinando, faz medicação pra deixar de alucinar; tá delirando, faz a medicação pra deixar de delirar. Mas não vai à raiz da questão. Que delírio é esse? O que significa? Percebe? Porque desse delírio? O que é que ele tem de real? Como é que a gente vai trabalhar com ele?

A gente não se preocupa em apenas tirar o sintoma. Mas tratar o sujeito de uma forma integral, porque ele é uma totalidade. Ele não é somente ele; não é só corpo; ele não é só físico; ele não é só psicológico. Ele é união, totalidade! Então a gente trabalha nesse sentido, das mais variadas formas. O remédio, que no hospital psiquiátrico, por excelência, é o instrumento, aqui é UM dos instrumentos. No substitutivo ele é UM dos instrumentos. Há tanto outros…

Que outros instrumentos são esses?

Edinha: Hoje eles estão aqui ensaiando uma música, de tarde eles vão fazer Pilates. Fazem uma série de coisas porque o homem é um ser operativo por natureza. Então, não dá para ficar babando o tempo todo, tomar remédio, ficar dormindo. Então, o fazer é de extrema importância. A discussão dos grupos, tudo isso é uma série, todo um manancial de instrumentos que a gente utiliza, a depender da necessidade da realidade de cada um. Não é padronizado o atendimento, o tratamento não é padrão porque ninguém é igual a ninguém! Se ninguém é igual a ninguém, o tratamento não pode ser igual para todo mundo. Não pode ser categoria. Vai ser de acordo com o seu projeto terapêutico individualizado.

É uma outra marca do serviço substitutivo; uma outra coisa do serviço substitutivo. É que não tem aquela pirâmide hierárquica que existe em hospital. Se você pedir a outra pessoa – eu sempre faço isso, com estagiário, “arrume a equipe interdisciplinar, arrume a equipe multiprofissional de acordo com a importância” – com certeza vão botar no topo da pirâmide, o médico. No serviço substitutivo, dentro da lógica da reforma psiquiátrica, que exige uma equipe mínima, básica, mínima, mínima, máxima infinita, mínima de médico, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro, tá certo? É que ele é acrescido de tantos outros…

Nós temos professor de teatro, de dança, de música, de artes, uma série de coisas que vai ajudar no tratamento. Se você pede aqui, não tem quem é mais importante. Todo mundo é muito importante. Às vezes as pessoas dizem que eu exagero nisso, mas às vezes… Dina, que é servente, numa determinada situação, vai ser muito mais importante do que um psiquiatra. Percebe? “Esse paciente é seu, Sidney”. Sidney tem uma penetração, tem um “chega mais perto” do paciente do que o psiquiatra. Então, vai ser com Sidney ali! Obviamente que a gente vai dar suporte, vai orientar, assessorar, monitorar, percebe? Mas, quem está na frente é Sidney. É o que a gente chama de técnico de referência. Porque o psicótico, ele precisa de um. Ele tem toda uma equipe, mas ele tem um técnico de referência que lhe secretaria, digamos assim, lhe secretaria a vida enquanto ele está precisando, no sentido da perspectiva do fora. Que é sempre assim.

Como funciona a relação com a saída desse ambiente?

Edinha: A gente fala de alta na hora que o paciente chega. Ele chegou agora, a gente fez acolhimento, a gente já está dizendo que ele vai levar um tempo conosco, que a gente espera que seja o mínimo possível, e ele vai sair. Então a gente já inscreve a alta no discurso do paciente, da família. E é nesse sentido que a gente trabalha e isso… Inclusive nós temos um grupo, por exemplo, que a gente já toma “pé dentro, pé fora”. Quando o paciente já está melhorando, já está em vias de sair, ele participa de um grupo – ou aqueles que saíram ainda há pouco tempo – para discutir as dificuldades que eles estão enfrentando, para levantar a autoestima deles, para ajudar ele a planejar, com ele, o dia a dia dele. Então, assim, frequentemente a gente tem visitas de pessoas, de pacientes, que passaram por aí. Que estão bem; estão cuidando da vida!

Esqueci de dizer daquele paciente… É um paciente que a família já não aguentava mais, tinha 19 internamentos; um rapaz com 28 anos, dezenove internamentos… Sabe onde está esse rapaz agora? Professor substituto da Universidade Federal da Bahia. Ele fez vestibular, ele pediu para fazer estágio aqui, de Educação Física, e veio fazer estágio, com os usuários, ele fez a monografia, ele se formou, veio um dia desse dizer para a gente, no mês passado: “Edinha, eu fiz o concurso para professor substituto e passei”! Está na Federal! Professor substituto! Temos advogados, temos pessoas formadas em informática que passaram por aí. Que estão na Universidade. Porque a gente tá sempre dando suporte assim.

Agora, a reforma é feita de tal ordem, que o indivíduo sai daí, e ele vai… Ele não abandona o tratamento. Ele é encaminhado, ele tem uma rede que lhe dá suporte, tá certo? São os Caps, os centros de atenção psicossocial. Isso aqui é um serviço aberto. É um hospital dia, onde o paciente vem de manhã e vai para casa de noite, mas que a gente, o técnico de referência, monitora o tempo todo. O tempo que ele não está aí, que é de noite, ou sábado, domingo, no feriado, qualquer alteração, qualquer fenômeno que ocorra, a família tem o celular do técnico de referência, e liga: “fulano está inquieta, fulano não quer tomar a medicação, fulano está querendo sair”. Então entra em ação o técnico de referência. Pode ser até que necessite ir na casa do usuário, tá certo? Pode ser que, conversando com ele, deixe; pode ser que não.

É uma questão também, assim, de ter tesão para isso! De ter um compromisso. Porque pode ser que de madrugada, ligue. A família ligue e diga: “olhe, fulano está ruim, agitado, não está querendo dormir, tal, tal, tal”… E que a gente tem de dizer: “chame ele aí”. E a gente conversa, conversa, às vezes dez minutos, 20 minutos, meia hora, faz respiração por telefone, o que for necessário. Às vezes é preciso se deslocar até a residência do usuário; às vezes é preciso que encaminhe para um outro serviço, enfim, esse usuário, ele está coberto, na verdade, no que pese vir de manhã, voltar de tarde, mas ele está coberto. O tempo todo.

E como é o dia a dia do serviço oferecido?

Edinha: Logo de manhã é feito o bom-dia, onde a gente procura ver como é que foi a noite, se dormiu, como é que foi o sonho, se teve aporrinhação, brigou, agitou, e o grupo todo trabalha isso – ao tempo em que também a gente trabalha com o grupo de familiares. Tem família que não sabe lidar com o doente mental. E a família não tem nenhuma obrigação de saber.  Então, tem família que rejeita, essa coisa… Rejeita porque a sociedade rejeita. E a família é sociedade. É parte da sociedade. Todo mundo tem medo de doido; a família também tem medo de doido.

A violência, ela está em todo lugar. Violência de toda ordem. Violência visível, violência invisível. Todo dia você abre o jornal e vê: Quantos crimes! Mas no dia que é com uma pessoa doente mental, aí sai: “Doente mental mata!”. Nos outros dias não sai “pessoa normal mata”. Porque se parte do pressuposto. Isto é uma cultura que foi construída e que é difícil desconstruir, de que o louco é perigoso. Uma criança nuca viu um doido. Mas se disser “olhe, é vem um maluco ali”, a criança se pica correndo!  Na frente. Porque, está incrustada aquela ideia de que o doido é perigoso. E que o doido é incapaz. E a gente vê que não é isso. Loucura não tem nada a ver com capacidade, com inteligência, percebe? O sistema de atendimento hospitalar é que torna essas pessoas assim, mortos vivos. Porque no hospital eles não fazem nada. È o passar do tempo anexo. Hoje é igual a ontem, e que será igual a amanhã; nada se modifica. Agora, eu digo que sou radical, trabalhei durante muito tempo no hospital, digo assim: enquanto o hospital não acabar, a gente tem de torná-lo o “menos pior”. Melhor não, porque não vai conseguir. Mas torná-lo “menos pior”. Percebe?

IMG_5755

Imagem do projeto Criamundo, retratado no filme A loucura entre nós.

Existe hospital onde é possível fazer o Criamundo , é possível fazer atividade física, a gente tem de estar fazendo isso. A gente tem o projeto “Tô maluco pra te vê”. Que projeto é esse? A gente tentando trazer a sociedade pra gente. Então já trouxemos Orquestra Sinfônica da Bahia, já trouxemos (o maetro baiano) Fred Dantas, já trouxemos (a cantora) Mariene de Castro.

Tem uma programação que tem todo sábado e domingo, e feriado, que são os piores dias pra eles, que estão no Hospital e que não têm a equipe técnica para dialogar, nem nada; os funcionários vêm saturados, sem condições de trabalho, tá certo? Cansados porque vêm, às vezes, de outros trabalhos, então os pacientes aqui se ferram. O paciente nunca é ouvido.

Se ele disser: “Fernanda me deu uma bofetada”, ninguém vai dar atenção. Porque foi um maluco que disse, isso é delírio. Ninguém acredita.

Um dia eu subi, encontrei um paciente chorando, eu disse: “O que foi?”, ela disse: “Ela me deu uma palmada”.

– “Mentira, D. Edna”.

Eu levantei a saia e, quando levantei estava lá, roxa. Percebe? A outra disse: “A palmatória está ali”. Tinha uma palmatória… Entendeu? De uma outra feita um paciente amarrado na cama morreu por esganadura. Ninguém sabe, ninguém viu. Já essas coisas acontecem em hospital. Todo mundo me fala. E assim a própria psiquiatria avançou muito. Se nós temos hoje métodos mais avançados, mais leves, mais suportáveis, porque utilizar-se de métodos primitivos? Que o usuário não gosta…!

Então eu sou muito criticada porque eu sou contra o eletrochoque. Percebe? Sou contra eletrochoque, sou contra lobotomia? Sou. Porque é muito ruim para o usuário. Porque o usuário não gosta. Porque mata. E eu uso o próprio discurso da medicina que diz: eletrochoque só deve ser usado em última instância. Então eu aposto, eu acredito na medicina e aposto nisso. Vamos usar todos os argumentos, todo potencial, todo instrumental. Se todos falharem, que se use o eletrochoque. Percebe? Agora, o problema é a dificuldade de se usar todo o instrumental, é buscar portas…

Estava com um paciente aí anteontem; ele veio do interior; eu olhando para ele, ele veio e almoçou aí. E eu olhando para ele… Fulano, se continuasse internado, hoje ele não estaria aqui. Estaria morto. Porque ele fez inúmeras sessões de eletrochoque. E por fim fizemos uma briga muito grande e tiramos esse usuário da equipe que ele estava trabalhando. Mudamos ele de equipe, tá certo? Esse usuário passou a tomar medicação de alto custo, que é um mecanismo que a gente tem hoje de grande utilidade, eficácia. Ele está lá com a bicicletinha dele no interior, ele vive a vida dele, vem todo mês buscar a medicação dele.

Um paciente uma vez disse assim: “Se é uma técnica, inventem outra, porque essa a gente não gosta”. Então, o pessoal acha que eu sou radical, que eu quero ser doutora… Nunca seria, porque eu sou assistente social, com honra e glória!

Fale um pouco sobre como você começou nesse caminho.

Edinha: Eu entrei nessa luta desde os vinte anos. Eu fazia o pedagógico, e teve um curso de monitor de praxe, Terapia. Era a questão da cura pela ação, pela primeira vez. E que hoje é a terapia ocupacional. Então eu fiz o estágio, fiz o concurso, passei e fiquei lá. Mas, desde aquele tempo, eu não me conformava muito não. Achava tudo muito doido, muito estranho.  Teve um Natal mesmo, o primeiro Natal que eu passei lá, ainda jovenzinha, que o presente era uma escova, um sabonete e uma pasta de dente. Eu disse: que diabo é isso?Mas isso tem de ser presente de Natal, meu Deus do céu? Ou é uma coisa de todo dia? Percebe? E se dava por uma guarita. Dava aos pacientes por uma guarita! “Para o ano eu vou entrar aí”. Pavilhão de 200 pacientes, e as minha colegas diziam: Você vai morrer aqui, você ainda vai morrer aqui. Eu entrei lá!

Já aconteceu alguma coisa com você? Já se sentiu ameaçada?

Edinha: Já… Já… Já. E na vez que aconteceu o paciente tinha toda razão. Eu tenho essa marca aqui… Uma paciente agarrou em mim. Foram seis pessoas para tirar. Mas uma paciente que tinha toda razão. A gente vinha fazendo um trabalho com ela, a equipe vinha fazendo um trabalho com ela… Eu não vou dizer detalhes porque ela ainda está aí. Pode ser facilmente identificável, é uma pessoa que está aí, na vida. (…) Nos 50 anos de serviço, foi ela.

Qual é a origem da paixão pelo o que você faz?

Edinha: A minha paixão vem de que? (Silêncio) A minha paixão veio de que? Mesmo trabalhando no hospital, e eram tempos terríveis, era coisa completamente diferente de hoje… Biotomia era corriqueiro. Eletrochoque era terça-feira. Terça-feira era dia de eltrochoque. Era aquela fila enorme de pacientes para todo mundo tomar eletrochoque. E eu me colocava muito contra isso. Brigava muito. Eu não concordava com isso. E tudo que tinha de novidade, eu inventava de fazer. Então, comunidade terapêutica, psiquiatria comunitária, é… Tudo que aparecia eu me metia. Viajava, participava de tudo!

Teve uma primeira conferência de Saúde Mental, eu me piquei para o Rio de Janeiro, tempo de ditadura, tempos difíceis pra gente. Eu era considerada… Sou chamada até hoje de Vermelha! Que naquela época era um risco. Eu era “comunista”, né? Porque lutar pelos direitos humanos, qualquer coisa, era ser… Uma desgraça! E aí tinha um amigo, compadre, que era General: “Cuidado, cuidado comadre. Cuidado que você está sendo seguida, comadre”. Aquela coisa toda no ímpeto da…. Hoje não se faz mais gente como naquele tempo. Eu acho.

Mas, enfim, teve essa conferência. Daí nós criamos um grupo, surgiu aí. Criamos um grupo, derrubamos, desfizemos a conferência, fizemos uma outra conferência, em outubro nos reunimos –  eu, aliás, não estava nessa reunião, foi em Bauru. Foi quando surgiu o Movimento Antimanicomial. Surge esse Movimento; de imediato eu me engajo, em janeiro. Então, no início, era eu e um amigo, que é mineiro, Marcus Vinícius* (Prof. Marcus Matraga, assassinado em fevereiro de 2016 no interior da Bahia) uma figura histórica, que tem história marcante na Luta Antimanicomial, conhecido no Brasil. Foi odiado também, tanto quanto eu. A gente enfrenta autoridades, a gente faz críticas públicas, tá certo? A gente bota a cara na rua, e aí a gente foi. Foi se organizando.

O primeiro encontro nacional, inclusive, foi aqui em Salvador. Foi quando saiu a carta de Salvador; a gente fez pela primeira vez uma coisa que não era… Que não passava pela cabeça, o que hoje é comum: a gente sai com o paciente pra rua… Naquele tempo não passava nem pela cabeça de ninguém. Nós trouxemos 600 usuários do Brasil todo! Fizemos um encontro ali me Piatã. O usuário tomando banho, bebendo água de côco, todo mundo achando uma loucura! Ali foi ótimo!

E de dois em dois anos a gente faz um encontro em cada estado. Eu vi um jornalista com a máquina, assim meio tonto… “Pôrra! Aqui a gente não sabe quem é médico, quem é doido”. É isso que a gente quer. Porque não tem diferença! Eu ensino na Faculdade e meus alunos dizem assim: “Ó Edinha, deixe eu ir lá pra ver”. Ver o quê? “Ver como é”. Como é o quê? “Como é que faz, como é o doido”. Eu digo: Pegue o espelho e se olhe no espelho. Doido é assim. Igualzinho a você! E é isso que a gente quer.

Fizemos uma marcha em Brasília, que desembocou na quarta conferência – porque já havia nove anos que não tinha conferência – com 3.000 usuários. Fomos à todos os Ministérios. Fomos no Gabinete do Presidente, que estava em Copenhague. Tava o Roberto Carvalho, que era assessor dele. E aí, todo sem jeito, tudo bem assim… Muitos usuários e dois, três técnicos, assim, assessorando, somente. Porque a gente quer que eles sejam protagonistas! Mas a gente não quer tutelar doido. Aí um paciente de Minas perguntou a ele: “Se o senhor tivesse um assunto muito importante pra falar com o Presidente, o que era que o senhor fazia?”. Ele respondeu: “Eu ia entrar em contato com ele ou por e-mail, ou por telefone…”. Ele disse: “Então faça isso. Faça isso agora, que é importante”. Ele ligou para Lula: “Aí, tem um grupo aqui…”, falou pra ele a situação. “Garanta a conferência ainda esse ano!”. Conferência saiu! Fomos a todos os Ministérios, enchemos Brasília. Agora, não é interessante pra o capital que essas coisas apareçam. Porque, senão, a indústria farmacêutica vende menos remédio. Porque se você tem outras formas de lidar, a gente vai tomar muito menos remédio. Vai comprar muito menos remédio. Não é bom? Não é bom pra quem tem hospital.

Desde quando começou o movimento, com a lei de 2006 pra agora, 65% dos leitos hospitalares já foram desativados. Estamos aqui agora com uma comissão do Ministério, do Conselho Nacional de Direitos Humanos, pra acabar com o manicômio judiciário. Pode ser assim: O que é o manicômio judiciário? O doente mental que cometeu algum delito. Também lá você vai encontrar muita gente que está lá porque mijou na Praça da casa do Juiz. Ou porque buliu com a mulher do Prefeito. Você encontra coisas bizarras lá dentro. Mas Minas Gerais é um Estado grande que não tem manicômio judiciário. Goiânia não tem manicômio judiciário. A pessoa é um cliente do SUS, e ele é tratado no SUS. Do mesmo jeito que qualquer cidadão. Essa coisa que parece que é utopia, mas que não é.

Não afeta você ter que acordar a vida inteira e se dedicar a um processo tão difícil?

Edinha: O que me move é conhecimento de que isso dá certo. Que tem o efeito. Que os doentes mentais não estão amarrados. Não estão babando, tomando eletrochoque. Estão na rua, estão dizendo. Eles fizeram a carta do usuários, fizeram encontro em Santos, eles têm autonomia. Eles são protagonistas. Eles são resilientes. Isso é o que me move. Essa possibilidade de eu ver que acontece na prática. Não é de mentirinha. Sempre que tem algum aniversário em minha casa, meu marido pergunta assim: “Tem doido? Aqui tem algum doido hoje?” Sempre tem! Meus amigos! Eu tenho um bocado de amigos! Entre eles tem muitos que são doentes mentais, vão para o meu aniversário. Obviamente.

Você acha que você é “doida”?

Edinha: Olhe, se ser doida é ser ética, é ser justa, é não concordar com absurdos, com violência ao sujeito, ao direito, é não me completar, eu poderia estar rica! Continuo pobre. Porque o sistema faz isso. Quando você é perigosa, tenta te cooptar. Eu já tive muitas chamadas. Eu já fui adulada pra ser coordenadora de saúde mental. Nunca quis, tá certo? Se ser doido é isso, é poder ter o direito à liberdade, de dizer ao Diretor, ao Secretário, ao Governador, que isso é um absurdo, que você está errado, que isso não se faz, então eu sou doida, tá certo?

O imaginário coletivo sempre brinca que todo mundo é um pouco “doido”…

Edinha: É muito relativo. Depende da normalidade. E a normalidade é um conceito muito fluido. Porque depende da situação. Se você for para um casamento, a sociedade diz que você tem que ir para o casamento de vestido longo, toda arrumada; se você for pra lá de biquíni, vão dizer que você é doida! Mas se você tiver na praia, de biquíni, você não é doida. É muito relativo. Um pajé, numa tribo indígena, que está lá falando com os deuses, fazendo as fumaças dele, “lá, lá, lá…”, fumando o cachimbo dele, é normal, é normal! Aqui, ou em outro lugar qualquer, vai está alucinando. Vai ser preso. A Samu vai trazer. Então esse conceito de anormalidade e normalidade varia muito. Varia com a cultura, varia… Se eu, Edinha, hoje, com setenta anos, sair nua – ando doida que essa moda venha pra eu ainda aproveitar… –, “ai meu Deus, Edinha trabalhou com tantos doidos que ficou doida…” Diziam muito isso aí: “Edinha surtou”. Quando eu não concordava com absurdos. Quando dizia: Mas porque que vai tomar eletrochoque? Já foi feito tudo? Já foi feito estudo de caso? Eu exijo estudo de caso! O paciente morreu. Morreu de que? Quem vai dar atestado? Você viu o paciente morrer? Você sabe do que foi que ele morreu? Então, tem que mandar para o Nina (Rodrigues) para saber porque que ele morreu. Porque há uma lei que diz isso. Aí dizem assim: “Edinha surtou”. Então, eu surto vária vezes, entendeu? Pra as pessoas, “Edinha é maluca”! Meu marido de vez em quando diz: “Não sei como é que deixam você sair do Hospital… Não vê que você é maluca?”. Entendeu?

Como é o procedimento inicial dentro de um acolhimento para um tratamento?

Edinha: Ele é acolhido, a gente discute, ouve a história dele, a família conversa com ele, a gente informa do serviço que nós temos, como é que funciona esse serviço, como será, tá certo? Que estamos querendo ajudá-lo, que vamos dar o cuidado que ele merece, pra que ele saia o mais rápido possível. Apresentamos o serviço, apresentamos as pessoas, tá certo? Mais ou menos como funciona. E ele vai ficando aí. Os próprios pacientes às vezes já acolhem.

IMG_5901 2Quando eu cheguei também fiquei assustada. A gente tenta tornar o ambiente o mais agradável, menos opressor possível, porque isso assusta. E eles chegam aí vê cores, vê um bocado de coisa. Mostro pra eles: Olha, tem um computador aqui se você quiser. Se você quiser tem isso, tem aquilo, tem aquilo outro… E aí a gente vai conversando. E aí o que é que acontece? A equipe reúne. A equipe técnica reúne para discutir. A partir do histórico, da história, do projeto terapêutico, como ele chegou, da situação, a gente traça um projeto terapêutico. Traça um projeto terapêutico e tenta seguir . Não se diz que é fixo. Pode mudar, a gente pode estar completamente errada!

E aí a gente trabalha com o paciente, trabalha com a família, trabalha com o emprego, trabalha com o pastor, trabalha com o pai de santo, trabalha com o território, enfim, tudo que possa estar ajudando ou que esteja prejudicando, a gente acessa para poder dar conta desse usuário. Discute com ele, atende ele individualmente, atende em grupo. Tem uma assembleia geral toda semana, onde participa todo mundo, da coordenação ao servente. Onde todo mundo tem voz. Faz a voz e o voto. E decide o que deve fazer, como deve ser. Até um passeio a gente discute. Para onde é que nós vamos.

Teve uma vez interessante: Uma turma queria ir para a praia, outra turma queria viajar de trem. Teve um lá que disse assim: “A gente pode fazer as duas coisas. A gente vai para Periperi, porque a gente vai de trem, pra praia”. (…) Houve todo um trabalho com a equipe. Era uma equipe que vinha com todos os vícios de hospital, e que foi um cacete pra dar conta disso. Como ainda é, até hoje. Muito difícil! É muito difícil porque de vez em quando a pessoa é capturada pela lógica. Antiga. Entendeu? Eu, como coordenação, tenho de estar muito atenta para que essas coisas não aconteçam.

Uma vez mesmo uma paciente tinha de vir com a mãe; a mãe não dava muita importância. Não veio. Ela veio aí e um membro da equipe disse: “Então, você vai voltar”. Disse: “Não! Você está querendo entrar em rota de colisão com a paciente? Quer disputar, quer brigar com a paciente? Porque a mãe dela não veio?” Ela vai voltar na hora que ela tem de voltar. Então você sempre tem de estar atentando para que essas coisas não aconteçam.

“Vamos pra praia”. É para Periperi? “É”. Vamos de trem. “Fulana não vai, beltrana não vai, cicrano não vai”, porque está muito grave… Justo estas é que precisam ir. “Vai todo mundo!” Aí eu vou pra médica:

– “Vambora fulana…”
– “Ah, não. Pelo amor de Deus. Me peça tudo, Edinha, menos isso. Eu tenho um bocado de paciente pra ver”.
– “Vai ser ótimo! Lá você vai ter oportunidade de ver de uma forma bem mais clara”. Aí tentei, tentei, tapiei, tapiei… Aí ela foi! Quando foi, ela disse:
– “Edinha, muito obrigada. Eu nunca conheci tão bem os usuários como conheci lá”.

São formas diferentes. Por isso que eu digo a você: A gente não sabe se é para fazer assim. A gente não sabe como não é para fazer. Então, os usuários, se eles se veem na condição de decidir, em condição de igualdade, com médico, com coordenador, com todo mundo, ele vai incorporando isso. Ele vai se autonomizando, a autoestima dele vai se elevando. Ele vai descobrindo sua capacidade, tá certo? Hoje mesmo estávamos atendendo um aí que a família leva ela pra Umbanda. Duas vezes na semana. Ela não quer ir pra Umbanda: “Sou católica”! E ela disse para a equipe, chamamos a equipe e ela falou. A família disse: “Ah, mas o que ela diz não sabe o que está dizendo”. Ela sabe exatamente o que está dizendo! Ela está dizendo que não gosta, que não quer participar de Umbanda. “Eu entendo que você está fazendo isso por amor. Por achar que é bom para ela. Mas, ela não está gostando”. Foi uma reunião difícil, tensa, porque tem que ser com muito cuidado, que você não pode perder a família de vista, pra não tirar de repente, de alta pedido, a gente tem que ter todo um manejo. Mas a gente… É assim que a gente trabalha.

Como se pode dar voz o paciente?

Edinha: Isso dá polêmica. Isso vai até para relatório médico: “Que absurdo! Então as pessoas agora têm que ter orgulho de ser louco?” (…) Não. Mas as pessoas têm de “não ter vergonha de ser louco”. Não é um defeito. È uma condição. Essa é a ideia que a gente quer passar. Procuramos uma forma pactuante que tenha efeito, uma repercussão positiva junto aos usuários, que você não imagina. Quem não gosta disso são as outras pessoas, que têm muita vergonha, que escondem seus loucos, que escondem suas loucuras, que botam no quarto, no fundo da casa, que não deixam chegar na janela; essas pessoas é que se incomodam com o orgulho louco. Os usuários não.

O Louco é um Cidadão, mas o imaginário impôs que é uma coisa muito feia, que é uma vergonha ser louco, que é uma vergonha dizer que o pai, que a mãe, que a tia, que o avô é maluco. É uma questão do homem dito normal. O que a gente quer passar é exatamente essa ideia que eles não têm que ter vergonha de ser louco. Percebe? (…) As críticas são muitas. Acham que nós somos irresponsáveis, que nós somos… Sobretudo eu, que não sou médica.  Eu sou muito ousada de querer interferir no conhecimento médico e dizer que eletrochoque é ruim. Eletrochoque É ruim! Você vê ali o cartaz. “Eletrochoque não. Obrigada”. Imagine um na sua cabeça. Você daria eletrochoque na sua mãe?

Agora pegaram um discurso que diz assim: se minha mãe tiver deprimida, meu pai tiver deprimido, eu quero que dê eletrochoque… Eu digo: É mentira! Você não vai dar eletrochoque nenhum porque você sabe… Tanto assim, que você precisa que a família se responsabilize e assine. Se é um saber de vocês, porque é que a família tem de assinar? Porque a bronca que der, a família é responsável. Não são vocês, tá certo? Então tem muita crítica. (…) Muita gente me critica. Hoje ando em relatório médico, falam mal de mim. Tem médico que não me suporta! Tem um bocado de inimigo que nem fala comigo. De mim e de Marcus*!

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Edinha: Não sei. Não sei não. Tantas coisas, teria pra dizer. É muito complexo. È muito complexo! É muito difícil, muito difícil! Eu mesma… Aconteceu um fato no primeiro encontro que nós fizemos aqui, antimanicomial. Pegamos os relatórios: Teve um grupo de usuários, nós da organização, pegamos a origem de todos os grupos, mandamos buscar no Brasil todo… Você sabe que esquecemos de mandar buscar o relatório do grupo de pacientes? Viu que ato falho? Porque a Cultura é uma coisa muito forte. Para você desconstruir dois séculos, é muito forte… Foi o melhor relatório! Mas nós esquecemos, porque era relatório de doido… A gente precisa muito, estar o tempo todo muito atenta pra essas coisas, entendeu? Que não basta dizer que doido é Cidadão. É preciso que a gente o trate como tal, percebe?

Quem é Edna?

Edinha: Eu sou uma mulher de setenta anos, filha de Santo Amaro da Purificação, assistente social. Só. Mãe, mulher. Cidadã. Só isso. Nada mais do que isso. Nada mais. Procuro cumprir minha obrigação. Só isso. Nada mais.

Matraga* O professor Marcus Vinícius (ou Marcus Matraga, como era conhecido) foi um dos pioneiros na luta pela reforma antimanicomial e criação dos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps. Em fevereiro de 2016, dois homens foram até a casa do professor no povoado de Pirajuía, município de Jaguaripe, no Recôncavo baiano, por volta das 19h, e disseram que uma amiga dele passava mal. Um dos suspeitos se identificou como neto da mulher. Ao sair de casa para prestar socorro à amiga, o professor foi rendido e levado de carro até uma estrada de terra do povoado. Lá, ele foi executado com um tiro na cabeça. Nos últimos anos, Marcus mediava conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros. Até este momento, ninguém foi preso e a investigação do caso corre em sigilo – apesar dos investigadores afirmarem à imprensa baiana que o processo de investigação já foi todo feito e que as pessoas suspeitas de envolvimento já são conhecidas do crime. Atualmente secretários de Segurança Pública do Estado e de Direitos Humanos da presidência da República, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conselho Regional de Psicologia e associações antimanicomiais estão marcando encontros  para discutir a agilidade das investigações.

Críticas no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema

Capa_FB_Fest_Panorama

A passagem do filme A loucura entre nós no no último dia 31 de outubro, em Salvador, rendeu algumas críticas sobre a obra. Aqui, dividimos algumas com vocês:

Intenso, essa talvez seja a melhor forma de traduzir o filme de Fernanda Fontes Varielle sobre os internos do Hospital Juliano Moreira. (…) A Loucura Entre Nós não quer construir teses, nem mesmo dar respostas a quaisquer questões, tanto que não entrevista médicos, nem assistentes sociais. O documentário quer apenas dar voz a esses pacientes e mostrar que por trás do estigma de ‘loucos’, existem pessoas ali que não são necessariamente perigosas, mas trabalhadores, artistas, mães, seres humanos que são tudo isso ao mesmo tempo e algo mais.”  – Texto escrito no Portal Cine Pipoca Cult por Amanda Aouad – Crítica Afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Leia a crítica na íntegra aqui.

“Os personagens reais do documentário revelam seus anseios, desejos e delírios de forma muito honesta, levando o espectador a questionar o que é a loucura e quais os impactos negativos do modelo asilar para o ‘interno’. As personagens mais fortes são as femininas que norteiam o filme de formas marcantes. (…) Essa delicadeza do universo feminino, concomitante, com a força e fibra delas é o marco da narrativa. A fotografia é crua, onde a câmera é um personagem revelador, ele inspira confiança aos depoentes que a usam como um espaço para verbalizar suas angustias, desejos e alegrias”. – Site Vozes da Voz. Leia a crítica na íntegra aqui.

Os labirintos do olhar no filme “A loucura entre nós”

A_loucura_entre_nós_foto(2)_Divulgação

Por Marcelo Veras*

Não quis escrever sobre o filme A loucura entre nós antes de seu lançamento em Salvador. Surpreendi-me com uma pequena multidão que rapidamente lotou as três salas do Espaço Glauber Rocha ontem à noite. No debate ocorrido após a projeção falei rapidamente de um ponto que considero precioso e que as câmeras conseguem demonstrar com muito mais facilidade do que meu próprio livro. Refiro-me ao modo como podemos trabalhar com o olhar na clínica da loucura. O olhar na clínica é habitualmente identificado com seu poder disciplinador. Ao enquadrar, ele demarca uma alteridade entre o clínico/observador e o paciente/observado. Muito já foi dito sobre esse aspecto e a referência foucauldiana ao Panopticum de Bentham tornou-se um clássico na Saúde Mental. Quando fui diretor de hospital psiquiátrico tive a certeza do peso desse olhar absoluto e do modo como esse olhar organiza os espaços e os corpos, estabelecendo um dentro e um fora. O olhar clássico sobre a loucura é sempre um olhar de fora para dentro. É como se só pudéssemos vê-la por uma fresta entre as grades, protegidos e separados.

O filme tem longas sequências fixas mostrando precisamente uma porta. Do lado de dentro, onde se situa a câmera e os pacientes do projeto Criamundo, temos a impressão de estarmos em uma ilha dentro do asilo. A loucura é um teatro que se passa do outro lado das grades. Contudo, rapidamente nos damos conta da impossibilidade de estabelecermos um muro eficaz. A primeira cena mostra um grupo de participantes do projeto trabalhando tranquilamente, em um ambiente claro e limpo, e aos poucos nos damos conta de que a paz é cortada pelo urrar de uma paciente. Urro de horror e desespero, vindo de alguma enfermaria do lado de fora.

O plano da porta é um perfeito enquadramento para a loucura. Na verdade esse plano lembra um pouco a play scene de Hamlet. Toda vez que uma porta ou uma janela aparece em um cinema temos a visão de uma cena dentro da cena. O público sentado na plateia já está diante da tela que é um enquadramento. O escuro em torno da tela é uma moldura. Então focamos o filme, e aí percebemos a loucura por trás da porta. Nesse momento é a realidade retratada no filme que faz papel de moldura, a loucura está mais além.

Eis que a câmera atravessa a porta, inicialmente como observadora. Ela passa a percorrer os corredores do asilo. Aos poucos os pacientes vão descobrindo a câmera. E de repente ela se torna um canal de expressão, eles começam a dizer para a câmera tudo que a instituição calava. Doravante eles não estão mais submissos ao olhar absoluto; outro olhar, o da câmera, faz furo no panopticum de Bentham. Aos poucos o olhar subverte a segregação imposta. A loucura não está mais do outro lado, ela está entre nós. Cada história narrada desconstrói o retrato. Não é possível, contudo, viver sem uma moldura e ao final vemos como cada um vai se virar com sua própria invenção de realidade. Os personagens deixam de ser um retrato fixado pelos discursos da saúde mental. O filme, lembro, não é uma ficção. No final, as protagonistas, cada uma a seu modo, escolhem uma solução para o peso do olhar insistente do Outro. Uma personagem atravessa a moldura e a outra escapa do olhar deixando-se confundir na multidão.
*Dr. Marcelo Veras é autor do livro homônimo que inspirou o documentário A loucura entre nós. Esse texto foi retirado do post do seu Facebook publicado em 01 de novembro de 2015, um dia após a exibição do filme no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador.

Estreia em Salvador

Panorama20H

A loucura entre nós finalmente vai ser exibido em Salvador, dentro da Competitiva Baiana do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema. A sessão na capital baiana, cidade que deu origem à ideia, ao desejo e à produção envolvendo as histórias – retratadas sem filtros ou julgamento – sobre os caminhos que percorremos em busca de uma aparente normalidade, acontece no dia 31 de outubro no Espaço Itaú de Cinema (Cine Glauber Rocha), às 20h, e contará com um debate com a presença da diretora Fernanda Fontes Vareille e a produtora Amanda Gracioli (Águas de Março Filmes), após a exibição.

O Panorama Internacional Coisa de Cinema é um dos principais eventos cinematográficos do estado da Bahia – e também do país – e, este ano, acontece no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha (Salvador – BA), na Sala Walter da Silveira (Salvador – BA) e na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (Cachoeira – BA). Os ingressos custam R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia) e R$ 30 (passaporte com direito a 10 filmes do Panorama).

Com patrocínio da Petrobahia e da Carbocloro (através do artigo 1° A da Lei 8685/93, Lei do Audiovisual) A loucura entre nós, da diretora Fernanda Vareille, faz um recorte extremamente poético sobre a vida de pessoas com passagem pelo hospital psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador, cujos depoimentos, histórias e relações propõem reflexões sobre os caminhos, ganhos e perdas que cada um de nós vive na busca por uma possível “normalidade”. Um documentário que quebra o isolamento de pessoas vivendo nos limites de ruptura com a realidade, abrindo uma discussão sobre os paradoxos da reinserção da loucura no mundo em geral.

A loucura entre nós na TVE Paraná

No ‪#‎4olhardecinema‬, a produtora Amanda Gracioli foi ao estúdio da Rádio e Televisão Educativa do Paraná para bater um papo com a apresentadora e cantora Iria Braga sobre ‪#‎aloucuraentrenos‬. Clique em cima da foto e confira a primeira parte da entrevista.

IMG_2388

Para ver a segunda parte, entre aqui. A terceira e última parte da entrevista está aqui!

Revista Mente Cérebro

O filme A loucura entre nós é um dos destaques da edição de junho da revista Mente Cérebro, publicação da Scientific American sobre assuntos de psicologia,  psicanálise e neurociência.

Revista_Mente_Cérebro_junho2015

A equipe

João Tatu, Amanda Gracioli, Fernanda Vareille e Gabriel Teixeira em um dia de filmagem de A loucura entre nós.

João Tatu, Amanda Gracioli, Fernanda Vareille e Gabriel Teixeira em um dia de filmagem.

Diferentemente do que muita gente acredita, nem sempre um filme conta com uma equipe numerosa para a sua realização. No caso de um documentário, por exemplo, esse grupo pode ser bem reduzido – principalmente se pensamos nos padrões das equipes dos filmes de ficção, sempre superlativos. Na maior parte do tempo de produção e filmagem, a equipe de A loucura entre nós foi composta por apenas quatro pessoas: a diretora Fernanda Vareille, a diretora de produção Amanda Gracioli, o operador de áudio João Tatu e o diretor de fotografia Gabriel Teixeira.

Esse número reduzido, inclusive, foi uma das estratégias de trabalho para poder realizar o trabalho delicado de imersão absolutamente necessário para interagir com as pessoas que fazem parte do filme. Além disso, a equipe escolhida pela diretora possuía as características necessárias para compreender a complexidade do tema, agindo com a delicadeza e o cuidado necessários para focar nas histórias dos entrevistados.

Ao todo foram três anos de filmagem (iniciada em 2011, com finalização de produção em março de 2015). Nos dias de filmagem no Hospital Juliano Moreira, os quatro chegavam cedo e permaneciam durante todo o dia convivendo com as pessoas. Muitas vezes estavam presentes sem produzir nenhum material, apenas observando e convivendo para que todos, pacientes e funcionários, se acostumassem com a nova presença – e, principalmente, com a presença da câmera. O resultado foi o mergulho numa jornada onde houve uma tomada de nova consciência sobre o tema da loucura, capaz de ressignificar todo o processo.

E se o mundo retratado no início de A loucura entre nós atrai nossa atenção por ser distante e exótico, ao longo do filme ele passa a revelar novas camadas de interesse, à medida que vai se abrindo.  A maior conquista desse amadurecimento, talvez, seja a produção de um material que nos leva à percepção de que “A” saúde mental talvez sequer exista; o que existem são histórias contadas, uma a uma.