Dia Mundial da Saúde Mental

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O Dia Mundial da Saúde Mental é lembrado em todo o mundo no dia 10 de outubro, quando organizações ligadas à saúde mental e aos diretos humanos se unem para dar visibilidade a questões relevantes ao setor. Em 2016, o tema proposto pela Federação Mundial de Saúde Mental (World Federation for Mental Health) para ser divulgado é “Primeiros Cuidados Psicológicos” (Psychological First Aid), como forma de abrir a discussão para o apoio básico – e pragmático – que pessoas em um papel de auxílio podem dar a quem se encontra em sofrimento mental.

Apesar do nome, que em português também poderia ser traduzido por “primeiros socorros psicológicos”, a questão abrange tanto apoio psicológico quanto social. Na verdade, o investimento em primeiros socorros psicológicos é parte de um esforço de longo prazo para garantir que qualquer pessoa em sofrimento agudo devido a uma crise seja capaz de receber suporte básico, e que aqueles que precisam mais do que os primeiros socorros psicológicos receba suporte avançado adicional de saúde, saúde mental e serviços sociais.

Entre as diversas ações programadas pela Federação Mundial de Saúde Mental esse ano, foi criado um guia para trabalhadores de campo, principalmente para ser acessado por pessoas (profissionais de saúde, professores, bombeiros, agentes comunitários ou policiais) que estão em contato com aqueles que passaram por algum tipo de evento causador de estresse crítico, como desastres naturais, guerras ou acidentes. A ideia é levar ao conhecimento público (e não apenas às instituições prestadoras de cuidados e serviços de saúde mental públicos, privados e do setor social) o trabalho realizado em torno de múltiplos eixos estratégicos que envolvem questões da saúde mental.

O guia é disponibilizado em diversas línguas e possui uma edição em português produzida pela Organização Pan-Americana da Saúde. As orientações contidas nele incluem dicas de como abordar uma pessoa em sofrimento mental. Entre as mensagens transmitidas, estão:

*Seja sempre honesto e confiável com quem você aborda;
*Comporte-se adequadamente de acordo com a cultura, idade e gênero da pessoa abordada;
*Tenha consciência de que é direito de cada pessoa tomar as suas próprias decisões;
*Deixe claro para as pessoas que, mesmo se elas recusarem ajuda agora, poderão ainda acessar a ajuda no futuro;
*Não pressione para que alguém em sofrimento conte a sua história ou interrompa quando ela o faz;
*Não faça falsas promessas ou dê falsas garantias;
*Não tire da pessoa a força ou o sentimento de que ela é capaz de cuidar de si mesma.

Entre inúmeros avanços e alguns retrocessos, as questões referentes à saúde mental estão longe de alcançar o patamar ideal de investimentos e de representatividade na maioria das sociedades, apesar do esforço de profissionais brilhantes que não se deixam abater diante das dificuldades e tabus envolvendo o tema.

Aqui no blog do filme A loucura entre nós, muitos desses profissionais contribuíram na criação de um rico material de pesquisa, através de depoimentos que refletem sua vasta experiência na área. Então, neste dia 10 de outubro, sugerimos um mergulho em todo esse conteúdo exclusivo, criado para qualquer pessoa interessada em ampliar o diálogo sobre a loucura a partir das questões exploradas no filme, relacionando-as com o universo da Psicanálise. Boa pesquisa!

 

Entrevista Dra. Fernanda Otoni

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A psicanalista Fernanda Otoni de Barros-Brisset sabe dos preconceitos existentes na sociedade quando o tema é sofrimento mental. Sabe também que esse preconceito pode aumentar muito quando associado à figura do “louco infrator” – termo carregado de julgamentos muitas vezes usado para designar a pessoa em estado de sofrimento mental que comete algum delito perante a lei.

Ela conhece a fundo todo o assunto. Não à toa, trabalhou para criar e coordena o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (Pai-PJ), Programa modelo em todo o mundo que funciona para reverter conceitos que, ao longo da história, vêm alijando um grupo significativo de pessoas do convívio social, obrigando-os a enfrentar penas em manicômios judiciários capazes de se transformar em verdadeiras prisões perpétuas.

Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e autora de vários trabalhos relacionando a loucura e a sociedade contemporânea, ela é uma das vozes importantes a defender o convívio social como possibilidade de um Presente capaz de gerar um Futuro com menos segregação.

Perguntamos a ela, entre muitas outras coisas, qual seria o melhor caminho para reverter tantas ideias historicamente preconceituosas sobre o universo da pessoa em sofrimento mental. “Conversando”, ela respondeu. E é exatamente isso que ela faz nessa ótima entrevista que dividimos agora com o público de A loucura entre nós:

O que é o PAI PJ?

Dra. Fernanda Otoni – Um programa do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que faz o acompanhamento das pessoas que, numa situação de angústia intensa, como resposta a esse sofrimento, cometeram crimes e, do ponto de vista jurídico, são consideradas inimputáveis e seu processo corre de forma diferenciada. Elas não recebem uma pena, recebem uma medida de segurança, que, do ponto de vista prático, acaba sendo uma medida muito gravosa, porque é uma medida segregativa que, historicamente, destina essas pessoas ao manicômio judiciário – onde elas ficam por lá por tempo indeterminado até que seja realizado o que, juridicamente, é conhecido como um exame de cessação de periculosidade.

Essas pessoas são classificadas como pessoas que portam uma periculosidade intrínseca … uma classificação que etiqueta e segrega! A literatura psiquiátrica, desde 1800, considera que elas portam uma periculosidade. E aí, a única coisa capaz  de fazer com que cesse sua relação com a justiça seria receber um laudo que ateste a cessação de periculosidade. É assim há mais de 200 anos!

Quando o programa começou, 16 anos atrás, partimos de 15 casos que estavam internados no Hospital Raul Soares, o hospital público psiquiátrico de Belo Horizonte – porque os juízes pediram para que essas pessoas fossem internadas lá de forma compulsória, já que não havia vaga no manicômio judiciário de Barbacena. E aí, quando nos aproximamos dessas pessoas pra escutá-las, junto com os colegas daquela instituição, promovemos  uma abertura pra que elas pudessem dizer do seu sofrimento, falar o que estava em questão no momento do ato, entender como é a sua relação com os outros e, hoje, qual é a sua resposta para tratar esse sofrimento.

E nós fomos encontrando pessoas cuja humanidade não é diferente de nenhuma outra, cujo crime foi uma resposta, um ato próprio aos humanos, desde que o mundo é mundo. Quando criam-se as condições para o falar sobre isso, vão se abrindo no dizer respiradouros, outras conexões que incidem sobre as formas de enlaçar-se aos outros, à vida, colocando certa distância do ato, da violenta ruptura do laço, de tal sorte que formas inéditas de convivência, ainda que irregulares,  passam  a ser uma possibilidade. A lógica da segregação produz o silêncio e o isolamento e essas pessoas deixavam de ter acesso, ou mesmo, de transmitir a sua capacidade, a sua responsabilidade pra com os destinos a dar pra suas vidas, pra com seu sofrimento. Então o programa começa dessa maneira, ouvindo essas pessoas, abrindo-lhes a oportunidade de responder pelas consequências dos seus atos em suas vidas.

O programa é uma criação brasileira?

Dra. Fernanda Otoni – O programa é inédito justamente porque no Ocidente, desde Pinel, Morel, Esquirol, e tantos outros, até o início do século XX, essa foi a orientação em relação a esses casos. Então, juridicamente e socialmente, as cidades têm resolvido os problemas com os loucos que cometem crimes enviando-os para os manicômios judiciários. Nós subvertemos essa lógica, justamente porque nós tivemos a oportunidade de encontrar com essa situação a partir de uma outra leitura, que é uma leitura da orientação Lacaniana. Porque a orientação clínica inaugurada por Lacan termina definitivamente com essa ideia de certa  hierarquização entre as estruturas. Desmistifica a concepção de que a Loucura seria um degrau menor da humanidade.

O ensino de Lacan nos permite tomar o parlêtre – o ser falante -como uma resposta singular, o sintoma como uma forma de laço social, cada um porta um saber fazer com a sua causa mais íntima e responde por isso.  E é com isso que cada um joga sua partida na relação com os outros,  laço que conta com as palavras que tocaram seu corpo,  com os objetos da sua rotina,  com o que lhe foi falado e com o impossível de dizer dos traumas  da sua vida. Esse arranjo contingente é o que faz de cada um único, torna única a forma como cada um se enoda, como se amarra… E, se cada um é um, não há hierarquia entre os corpos falantes. Essa é a democracia que nos interessa!

Por outro lado, também, estávamos em um momento, em 2000, de uma grande discussão em torno da lei Antimanicomial que previa a desospitalização, apontando um outro modelo que não fosse o da segregação. Então tivemos esse encontro, essa feliz contingência de um encontro entre uma orientação clínica e um movimento político. Um encontro em condições de dar lugar a um dispositivo novo a ser instalado e ofertado a essas pessoas, nesse  campo de interface entre o Direito e a Saúde Mental e, em conexão decidida junto ao movimento social da reforma psiquiátrica que previa e fazia esforços nessa direção e ampliava os dispositivos de tratamento que não eram manicomiais.

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O PAI PJ possui abrangência nacional?

Dra. Fernanda Otoni – Não. Ele funciona hoje no estado de Minas Gerais a partir das Comarcas onde esses casos tiveram alguma inscrição. As Comarcas são os lugares do Tribunal de Justiça onde há um Fórum, onde há um juiz responsável pela execução dos processos criminais da sua região.

O Programa já funciona como referência para outros projetos?

Dra. Fernanda Otoni – Sim, ele é uma referência no Brasil. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2011, lança uma recomendação nacional orientando  todos os Tribunais do país a seguirem essa forma de condução dos processos a partir da orientação proposta pelo PAI PJ. Na Itália, em 2014, houve todo um movimento pela extinção dos manicômios judiciários e o programa citado, inclusive na mídia italiana, como modelo, ao dizer como se podia dispensar a segregação como resposta a essa situação, foi o PAI PJ também! Eu já tive a oportunidade de levar a experiência do programa pra discussão na França, em Portugal, na Alemanha, na Inglaterra,  na Espanha, na Bélgica, na Grécia,  na Argentina, e por todos os lugares, essa condição inédita de tratar cada um a partir da sua singularidade é o que faz do Programa uma fórmula absolutamente nova  no mundo jurídico.

A situação da pessoa em sofrimento mental ligada ao sistema penal é mais problemática hoje, no Brasil, do que a situação daqueles que não têm relação com o estigma da violação das leis?

Dra. Fernanda Otoni – Vamos dizer que todos que se encontram em uma situação de sofrimento, de certa desordem, vão buscar nos recursos da civilização, nos recursos da cidade, uma forma de dar tratamento a isso. Isso é humano! Hoje, com a Lei 10.216, temos uma ampliação dos recursos para dar tratamento ao sofrimento psíquico, um movimento político social decidido no campo da saúde mental permitindo aí uma ampliação do cuidado e do seu acesso aos recursos de tratamento. Temos também, a partir do ensino de Jacques Lacan, uma clínica orientada ao detalhe singular de cada sujeito, uma orientação para o singular do sintoma, em cada caso, e para o laço social possível, dando  ênfase ao próprio saber que o sujeito tem sobre o que trata o seu sofrimento. Isso é o abre-alas.

Quando você permite àquele que sofre encontrar no dizer uma forma de expressar o que sofre e como tratar esse sofrimento, isso abre alas! Você precisa que ele tenha acesso aos recursos pra dar tratamento a isso, pra que ele possa inventar suas soluções. Então, com a Lei 10.216, podemos dizer que se instalou uma política pública  que procura ampliar os recursos. Agora, cada um vai fazer uso desses recursos à sua maneira. Seja pela via das palavras ditas e escritas, seja pela via do trabalho, oficinas, seja pela via das relações de convivência, seja pela via medicamentosa ou por todas elas, cada um vai encontrar sua forma de dar tratamento a sua dor de existir.

No caso daquele que comete o crime, a lei penal estabelece certos critérios, certas amarras que não são exclusivas para quem cometeu um crime em situação de sofrimento. O sistema penal hoje é a maior máquina segregativa que nós temos. É um filtro… Se você for olhar dentro, hoje, do sistema penal, encontramos as pessoas que não tiveram acesso à educação, a recursos pra inserção no mercado de trabalho, a maioria são muito pobres, afrodescendentes… de certa forma, o sistema penal recupera todos os efeitos de segregação social produzidos pela lógica capitalista em jogo no sistema atual. E as formas de lidar com isso são formas muito rígidas, no sentido de provocar cada vez mais a escassez dos recursos para que essas pessoas pudessem refazer o laço social, produzindo como única saída  uma identificação maciça com a exceção, com o pior.  Uma vez que se entra no sistema penal, tem sido muito difícil sair dele. É o que as estatísticas mostram. Então, essa situação tende a produzir um recrudescimento da brutalidade da vida. Eu penso que, no caso das pessoas que cometeram um crime, o fato delas serem engolidas pela lógica penal se torna uma dificuldade a mais a se atravessar.

Quando existe o primeiro contato entre o Programa com as pessoas que ele secretaria?

Dra. Fernanda Otoni – Logo que a pessoa entra no sistema judiciário, nós nos colocamos nessa dobradiça entre a Justiça e a Saúde, escutando a singularidade de cada caso e suas tramas pra que essa trilha indique uma direção do tratamento pra que se possa informar ao Juiz qual a medida singular daquele caso, costurando qual a medida de cada um, zelando pra que o Juiz possa ter conhecimento dessa pessoa, pra que essa pessoa possa ir à audiência, para que ela possa tomar a palavra, responder pelos seus atos, construir uma narrativa diante do sistema de justiça, onde ela possa expressar a sua posição subjetiva… Isso tudo produz uma Justiça que promove o laço social, uma Justiça mais cidadã, orientada por cada caso, a partir desse universal da lei para todos – mas que cada um possa se enodar a essa lei geral a partir da sua singularidade – que é um princípio constitucional, mas que na maioria dos casos não é escutado porque há, a priori, uma solução de massa para todos, uma solução que segrega.

Que riscos o Programa está correndo hoje, diante da atual situação do país?

Dra. Fernanda Otoni – O Programa tem uma inserção muito interessante em Minas justamente por estar em quase todas as cidades, fazendo essa discussão muito de perto, seja com os juízes, seja com os serviços de saúde, seja com a comunidade, fazendo conversar o impasse. Então ele tem uma entrada bem interessante no estado inteiro. Só que, por questões orçamentárias, o Tribunal resolveu cortar quase metade dos seus recursos humanos no último ano. Com isso, o Programa deixa de acompanhar 900 pessoas no interior do estado. É uma situação muito grave, porque são pessoas que, de alguma forma, contam com essa secretaria para fazer a diferença, elas contam com sua conexão ao Programa para fazer com que sua diferença subjetiva tenha cabimento na cidade, e a perda desse ponto de contato pode, em alguns casos, corresponder a uma desconexão com a vida que a pessoa vinha, até então, se enlaçando.

Em vários casos, casos iniciais, um laço com o Programa ainda é essencial, no sentido do enodamento a um novo laço social. Então estamos fazendo todos os esforços pra tentar reverter isso. Estamos conversando com o Governo do estado, através da Secretário de Planejamento, que está muito sensível, e vamos ver o que conseguimos construir.

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Cena do filme A loucura entre nós. Foto Gabriel Teixeira.

Qual seria o maior erro na percepção da sociedade em geral em relação às pessoas em situação de sofrimento mental que cometem algum crime?

Dra. Fernanda Otoni – É o de considerá-las perigosas. A brutalidade opaca da vida existe, não há garantias e a tendência ao hedonismo não é um programa natural da humanidade. E  isto é um fato! Mas esse significante perigoso, ele instala o ponto dessa  opacidade real, disso que escapa ao controle, nos corpos de alguns. Taxar essas pessoas de “perigosas” é uma redução da humanidade que nos habita e de sua potencialidade criativa e imprevista, seja de vida ou de morte; é encerrar o inominável de uma vida a uma palavra obscura, “perigoso”. É fazer crer que existe o bom e o mau. Desde criança contam histórias de lobo mau, monstro, fantasma,  bruxa, e acreditar que existem pessoas que são intrinsecamente perigosas é condenar essas pessoas a encarnar o lado mau da história. Imageticamente é como se existissem os heróis e os bandidos.

E como reverter isso?

Dra. Fernanda Otoni – Conversando. É isso que o Programa faz. Ele vai lá, conversar com cada um, conversar na comunidade. Porque muitas vezes a comunidade não quer aquela pessoa de volta; quer que ela seja presa, que viva o resto da vida no manicômio judiciário… Então, o que é que a gente faz? Além de estar ao lado e  promover as condições para que a pessoa possa encontrar formas de tratar o seu sofrimento, ter acesso ao dizer e com isso transmitir a singularidade de seu tratamento, também abrimos espaço de conversas com a comunidade, com as equipes de saúde lá onde a pessoa mora, lá onde é o seu território  social, pra que, com a conversa, isso se desloque. Porque somente conseguimos provocar um deslocamento desses significantes rígidos, dessa ordem de ferro, quando se começa a falar. Quando isso acontece, o falar ativa outras palavras, as  lembranças, narrativas  da  infância,  de um caso parecido, uma história nova pra contar, e isso vai se deslocando, vai encontrando formas de abertura, de arejamento, e abre para uma aposta na convivência. E com a convivência as pessoas vão se dando conta de que o  perigoso é a ausência de tratamento, o isolamento,  o silêncio. Quando se amplia as condições de laço social, ampliam-se as possibilidades de respostas, ainda que fora do normal. Pode não ser racional, mas é razoável. Não adianta vir por decreto de lei… A solução vem conversando e convivendo!

O que as pessoas ainda não sabem sobre o assunto – mas que deveriam saber?

Dra. Fernanda Otoni – Vou subverter um pouco a sua pergunta… Talvez a pergunta seja assim: “O que as pessoas sabem, mas não querem saber – e por isso elas não sabem?” Eu acho que, de forma geral, as pessoas se defendem é da loucura de cada um, da loucura entre nós. É da forma imprevista, inominável, incalculável como cada um porta o seu ponto de loucura sem sentido, e que pode se manifestar na forma de atos insanos, em certa desordem, em palavras que saem sem pensar ou em atos que chocam. Não há nada mais humano que isso. Isso é para todos! É o que não tem governo nem nunca terá…

Mas a humanidade cria uma série de discursos e de instituições para se defender disso que está na causa do nosso Ser, da nossa existência. De fato é o que todo mundo sabe, mas não quer saber – e se defende disso a partir desse “não saber”. “Eu não quero saber de nada disso” é tão poderoso, que é capaz de produzir essas instituições, como diz Foucault, que dão a ilusão pra todo mundo que “loucos são eles” – e se o território onde estão está cercado, como numa ilha, nós estamos protegidos deles. E, assim, cria-se a ilusão de que há uma distância entre cada um e a sua loucura. Mas, na realidade, a loucura está em cada um de nós! Todos nós somos loucos, a nossa maneira, e, no fundo, o que fazemos é tratar de conviver com a loucura entre nós – até para tratar do feliz título do filme de vocês!

Leia aqui o comentário da Dr.a Fernanda Otoni sobre o filme A loucura entre nós.

Entrevista com Edna Amado

Ainda no começo das filmagens, em 2011, quando a diretora Fernanda Fontes Vareille não tinha definido que as vozes dadas ao documentário A loucura entre nós seriam apenas dos portadores de sofrimento mental, algumas entrevistas importantes foram feitas com pessoas cujas histórias estavam ligadas ao universo abordado no filme.

Uma delas foi com Edna Amado, Assistente Social baiana de Santo Amaro da Purificação, com graduação em Serviço Social pela Universidade Católica do Salvador (1972) e especialização em Terapia Familiar pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (1977).

Edinha, como é conhecida, foi fundadora do Núcleo pela Superação dos Manicômios (Nesm), filiado à Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial, e é atuante defensora dos direitos dos portadores de sofrimento mental, com envolvimento por mais de cinco décadas no Hospital Juliano Moreira, em Salvador, e na militância pela implantação dos Centros de Apoio Psicossocial (Caps). Hoje também Professora, é uma pessoa importantíssima para todo o Movimento da Luta Antimanicomial. Fez parte do seu surgimento!

Sua entrevista (como outras realizadas) não entrou na edição final do filme – uma decisão que nada tem a ver com a qualidade do que foi dito. Ao contrário! Suas palavras, experiências relatadas e pensamentos sobre o trabalho que vem realizando em prol da Luta Antimanicomial foram fundamentais para o desenvolvimento do documentário e, hoje, ganham relevância cada vez mais urgente, à medida que o tema também ganha cada vez mais visibilidade.

Resolvemos dividir com o público uma parte desse material, onde Edinha fala do surgimento da Luta Antimanicomial, sobre a perda do Sujeito por parte do interno de hospitais psiquiátricos, sobre a relação entre violência e loucura, sobre o tempo simplesmente perdido para o nada, sobre o dia a dia dentro dos hospitais, eletrochoque…

Ou seja, uma entrevista imperdível, necessária e emocionante, onde essa “Mãe, Mulher e Cidadã” fala sobre a loucura, seus nós e sobre a loucura que existe entre nós – assuntos fundamentais para entender de onde a Luta Antimanicomial veio, onde ela está hoje e para onde ela aponta no futuro!

Como é o trabalho que você desenvolve no CENA?

EdnaAmado-20109172712Edinha: O diferencial do CENA é que ele é um serviço diferente do hospital psiquiátrico; ele é um serviço aberto e comporta inclusive que a comunidade participe, entre etc, etc, etc. Nós procuramos, desde a chegada do paciente, tornar isso diferente.  Por que? Dentro dos princípios da reforma psiquiátrica, pela Portaria 336, os serviços substitutivos ao hospital devem ter uma outra lógica. E devem trabalhar na perspectiva do fora. Não como é a lógica do hospício: desde o seu nascimento, desde o seu primeiro hospital Bicêtre, Salpêtrièreque, a intenção era de excluir, porque, na verdade, o hospital (psiquiátrico) nunca foi feito, nunca foi pensado como um lugar de cura, um lugar de tratamento; sempre foi pensado como um lugar de exclusão, de tirar da sociedade aquelas pessoas estranhas, incômodas, insubordinadas – segundo o ponto de vista do sistema – e excluir esses indivíduos.

Não havia essa perspectiva, essa expectativa de que eles pudessem se recuperar e voltar. Tanto que se construiu o imaginário de que lugar de maluco é no hospício, que lugar de maluco não é na rua, não é na vida. Contra isso, desde a década de 60, depois de mais de duzentos anos de comprovação de que o hospital (psiquiátrico) é uma coisa ruim, é uma coisa que faz mal, profissionais na Europa, nos Estados Unidos, começaram a problematizar: O que é que está errado?

Na verdade, voltando um pouco atrás, a loucura passou a ser entendida como uma patologia – e a gente não vai negar que essa patologia existe – a partir da idade média, porque na idade antiga os loucos eram considerados seres privilegiados. O que hoje a gente chama de alucinação, de delírio, naquele tempo era entendido como peças com os deuses. Entendia-se que os deuses, hoje loucos, frequentavam o Olimpo, e que tinham um poder muito grande. Então eles eram venerados, eles eram privilegiados.  Com a mudança do sistema mercantil é que, na idade média, esses loucos passam a ser um incômodo para a sociedade. É daí que surge a nau dos insensatos, que foi o primeiro hospital que existiu. Porque se enchia as naus de loucos, provia de alimentos e soltava nos grandes rios.

Então um grupo de profissionais começou a questionar: o que é que falta? Ah, falta material, falta pessoal, falta isso… Se abastecia de tudo isso e as pessoas não melhoravam. Iam para o hospital e terminavam demenciados, terminavam mortos. Entendia-se que loucura progredia até chegar à demência. Então, esses trabalhadores começaram a questionar e criaram um grupo. Surge aí um movimento social que é o movimento nacional da luta Antimanicomial, tá certo?

Tivemos uma primeira experiência em Santos. Havia um hospital que matava muito, como, aliás, em todos os hospitais, se morre muito. (…) Dizia-se que todo louco morria de diarréia, morria de etc, etc, etc. Na verdade, morre – eu digo que morre muito – de morte matada. E questiono muito isso. Esse grupo de trabalhadores é que se agregou a isso. Políticos e, posteriormente, usuários e familiares, formaram o Movimento Antimanicomial. Porque a gente tentou mostrar que era possível.

Fizemos isso na cidade de Santos, em São Paulo, onde o Hospital Anchieta era um dos mais terríveis. Foi desconstruído e, em seu lugar, se criou uma outra lógica. Tem gente que chama de serviços substitutivos ao hospital. Os mais conservadores chamam de serviços alternativos. O Movimento Antimanicomial, na sua radicalidade – nós somos radicais, a gente chama de serviços substitutivos –, deve substituir o hospital psiquiátrico. Somos radicais porque vamos à raiz da questão. Por que é que o hospital não funciona? Porque que a pessoas não ficam boas? É porque não está bom? Precisa melhorar, precisa construir isso, precisa fazer aquilo? Não. Nós entendemos que o hospital não presta, não serve, que o hospital não trata, hospital só maltrata; que Hospital não cura, hospital só tortura. Uma tortura que está nas normas, que está no olhar, que está no horário, que está na captura da voz, do Sujeito. As pessoas deixam de ser Sujeito.

Isso acontece a partir de que momento, exatamente?

Edinha: Chegando numa emergência, a primeira coisa que se faz é se tirar a roupa do paciente; se toma os documentos do paciente, se abre um prontuário para o paciente, dá um diagnóstico. Daquele momento em diante, ele deixa de ser um cidadão. Ele deixa de ser um sujeito e passa a ser um paciente. Ele passa a ser um maluco. Daí em diante… Eu sempre digo assim: que Dante não conheceu um hospital psiquiátrico, senão ele não teria pintado o inferno de uma forma tão maneira, tá certo? Porque eu acho que hospital psiquiátrico é pior do que o inferno. Não conheço inferno, mas não precisa… Porque eu conheço hospital psiquiátrico.

Desde os meus vinte anos que eu estou em hospital psiquiátrico e, aliás, durante muito tempo eu achei que era possível dar jeito no hospital. E trabalhava muito para isso. Na minha ingenuidade da juventude, no meu afã de melhorar, achava que poderia ter um hospital melhor. Hoje eu digo que é verdade que ainda há necessidade, por falta de uma firmeza política, ainda há necessidade de hospitais. Há necessidade porque não se cria condições objetivas para que ele deixe de existir.

Temos uma ideologia de que o doente mental tem de viver em sociedade. Apesar da sua diferença, apesar das suas dificuldades. Bom, voltando um pouco atrás, eu acreditava muito, também, que era possível ter o hospital do bem. Isso não existe. Daí a nossa radicalidade. A gente luta e o nosso lema é: uma sociedade sem manicômios. Nega a loucura? Não. Em absoluto! Enquanto à patologia, não. Em absoluto! A gente nega o lugar que foi criado, supostamente criado, para dar conta: que é o hospital psiquiátrico!

Daí que a reforma psiquiátrica, depois que o movimento se estruturou bem aqui no Brasil, nós elaboramos uma lei, essa lei foi para o Congresso, levou onze anos, não por acaso, onze anos rolando porque não era interesse da indústria farmacêutica, não era interesse dos donos de hospitais psiquiátricos que essa lei fosse aprovada… Enfim, em abril de 2001, essa lei, a lei 10.216 felizmente foi aprovada. Não na íntegra, como a gente queria, mas já foi um avanço muito grande. A partir daí cria-se uma política de saúde mental que às vezes a pessoa confunde com o Movimento Antimanicomial; são duas coisas diferentes. Verdade que o Movimento Antimanicomial ensejou o advento dessa lei, sim. Nós lutamos muito por isso, que a gente diz que é uma luta, realmente. Realmente é uma luta reída, uma luta que é de todo dia, é como matar um boi à unha cada dia, porque a gente luta contra o imaginário social, de que lugar de maluco é no asilo e, por vezes, nos chamam de irresponsáveis, de loucos.

O que é ser “louco” pra você?

Edinha: Depende da circunstância. Diz o ditado popular que “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Quantas vezes a gente faz as coisas e a gente diz: “Meu Deus do céu, eu não sabia que eu era capaz de fazer isso!”, ou “Menina, me deu uma raiva…! Eu vou lhe dizer: se eu pudesse eu matava”. E às vezes é capaz de matar! É capaz de tudo! Isso é da condição humana. A loucura é algo da condição humana.  E diante das condições de vida, das pressões, dos traumas, têm pessoas com uma estrutura mais forte e que bem reagem. Têm outras que não reagem e caem. E fica com a sua lógica comprometida. Era como se: “está tão ruim a realidade, que o indivíduo foge”. “Se foge” através de várias formas. “Se foge” através a loucura – se eu não quero me dar conta desse mundo que me rodeia, eu vou pra uma outra estratosfera… Se suicida, por conta de que a vida fica tão insuportável que as pessoas se matam. É uma forma de fuga. Eu digo sempre que é um mecanismo de defesa. O que é ser louco pra a sociedade? É não pensar como o sistema requer. Percebe? Por isso que eles são considerados incômodos, porque eles não respeitam as normas que são estabelecidas pela sociedade, porque ele está regido por uma outra lógica. E não a lógica dos ditos “normais”, percebe? Um pouco por aí, eu diria.

Por que o dia 18 de maio foi escolhido como o dia da Luta Antimanicomial?

Edinha: Nós estávamos reunidas e resolvemos criar esse lema: Por uma sociedade sem manicômio. E achamos que devíamos ter um dia que fosse emblemático. E aí a gente foi passando, passando, terminou que ficou 18 de maio. No 18 de maio é comemorado no Brasil todo o dia nacional da Luta Antimanicomial. Aliás, aqui em Salvador nós temos o dia municipal também.

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Fale mais sobre as conquistas recentes do Movimento da Luta Antimanicomial.

Edinha: Várias leis foram criadas antes dessa lei maior, que de fato já tirava, há tempos, de cena, a questão do hospital psiquiátrico e se criava outros espaços. Espaços abertos, tá certo? Dentro de uma política da Portaria 336, que organiza essa questão. Então ele diz que serviços deverão existir para dar conta do sofrimento mental. Então tem o Caps 1, Centro de Atenção Psicosocial 1, Caps 2, Caps 3…

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Imagem do Hospital Juliano Moreira, em Salvador.

O Caps 1 o indivíduo pode ficar; está comprometido, mas não tão comprometido que pode ficar somente um turno no Caps e, no outro, tocar a sua vida; o Caps 2, onde o indivíduo passa o dia todo, o Caps 3, onde há uma necessidade dele ficar  minimamente cinco a sete dias, a dez dias, sob internação integral e, mais imediatamente, sair. Mas, mesmo esse Caps 3, onde ele deve ficar internado, a lógica cotidiana é diferente. É uma lógica pautada no respeito, é uma lógica pautada na dignidade, na ética, na igualdade de que o outro é o outro, é um ser de direito, e não um maluco, que não tem voz.

Porque tudo que é maluco, se você passa por um hospital, tem sua vida muito comprometida. Por mais sorte que você tenha, de sair, quando você sai todo mundo vai dizer: “Fernanda já teve no Hospital psiquiátrico! Cuidado, viu? Ela já fez tratamento psiquiátrico”. Seu namorado vai terminar. Se não terminar, vai ficar cheio de restrições com você; seus amigos não vão lhe contrariar porque você pode, de uma hora para outra… Percebe? Você está para todo sempre marcada como doente mental. Esse papel de doente mental, de louco, que passa por um hospício, gruda. Ele é como se fosse uma tatuagem. Pior do que a tatuagem! Porque a tatuagem você opera e tira.  E essa pecha de louco, ela nunca acaba. Então, a gente luta exatamente contra isso, tá certo? De que é possível, às pessoas que têm o sofrimento mental, ter uma vida plena. Ter uma vida cidadã.

Nós temos – e a experiência tem provado isso de várias maneiras –, posso lhe dizer que eu tenho “N” exemplos aqui de pessoas que passaram por aqui como muito comprometidas. Muito psicóticos graves, severos, persistentes e que hoje estão na Faculdade, que hoje estão trabalhando, que hoje estão minimamente integrados no seu território, no seu ambiente. Nós temos usuários aí de que a família já tinha passado por vários internamentos, ninguém mais queria – e a gente nunca trabalha só o usuário, a gente trabalha com a família, não dá para trabalhar só com o usuário… Com usuário e com a família, porque o usuário não é um átomo, ele vive o contexto, numa rede de relações com a comunidade, com a escola, com o trabalho etc, etc, com a Igreja. Hoje mesmo nós estávamos trabalhando com um pessoal que é de Umbanda, e a gente estava trazendo ao Pai de Santo para discutir e ver de que forma ele pode ajudar. Nos ajudar no tratamento do usuário. Então a gente trabalha nessa perspectiva, de entender que é possível.

Como lidar com o conceito de “cura” quando falamos de uma pessoa com sofrimento mental ?

Edinha: Tem essa questão que doido não cura. O que é que é cura? Eu sou hipertensa, eu tomo minha medicação todo dia de manhã e levo minha vida normal, percebe? Se eu tomo um susto… Essa noite mesmo eu subi; uma filha de uma amiga minha se suicidou. Me abalou muito! Minha pressão subiu, tomei meu suco de xuxu, tá certo? Tomei meu Tensaliv e estou aqui trabalhando. Isso é cura. O diabético vai tomar, vai fazer o controle o tempo todo dele, mas ele vai poder trabalhar. Um grande estadista, nosso Ulisses Guimarães, era bipolar. Tinha transtorno bipolar. Grande político! Uma sumidade de gente! Se você for para o renascimento, para a época do renascimento, você vai ver quantas pessoas famosas tinham um sofrimento mental. Van Gogh, Bosch, Leonardo da Vinci e tantos outros, tá certo? Tinham comprometimento, mas eram brilhantes numa outra área. A gente entende isso. Nessa perspectiva a gente trabalha, e não apenas!

Edinha

Em 2010, Edinha recebe o título de Cidadã da Cidade de Salvador.

Porque hospital só quer tirar o sintoma. Acha que só deve tirar o sintoma. Tá alucinando, faz medicação pra deixar de alucinar; tá delirando, faz a medicação pra deixar de delirar. Mas não vai à raiz da questão. Que delírio é esse? O que significa? Percebe? Porque desse delírio? O que é que ele tem de real? Como é que a gente vai trabalhar com ele?

A gente não se preocupa em apenas tirar o sintoma. Mas tratar o sujeito de uma forma integral, porque ele é uma totalidade. Ele não é somente ele; não é só corpo; ele não é só físico; ele não é só psicológico. Ele é união, totalidade! Então a gente trabalha nesse sentido, das mais variadas formas. O remédio, que no hospital psiquiátrico, por excelência, é o instrumento, aqui é UM dos instrumentos. No substitutivo ele é UM dos instrumentos. Há tanto outros…

Que outros instrumentos são esses?

Edinha: Hoje eles estão aqui ensaiando uma música, de tarde eles vão fazer Pilates. Fazem uma série de coisas porque o homem é um ser operativo por natureza. Então, não dá para ficar babando o tempo todo, tomar remédio, ficar dormindo. Então, o fazer é de extrema importância. A discussão dos grupos, tudo isso é uma série, todo um manancial de instrumentos que a gente utiliza, a depender da necessidade da realidade de cada um. Não é padronizado o atendimento, o tratamento não é padrão porque ninguém é igual a ninguém! Se ninguém é igual a ninguém, o tratamento não pode ser igual para todo mundo. Não pode ser categoria. Vai ser de acordo com o seu projeto terapêutico individualizado.

É uma outra marca do serviço substitutivo; uma outra coisa do serviço substitutivo. É que não tem aquela pirâmide hierárquica que existe em hospital. Se você pedir a outra pessoa – eu sempre faço isso, com estagiário, “arrume a equipe interdisciplinar, arrume a equipe multiprofissional de acordo com a importância” – com certeza vão botar no topo da pirâmide, o médico. No serviço substitutivo, dentro da lógica da reforma psiquiátrica, que exige uma equipe mínima, básica, mínima, mínima, máxima infinita, mínima de médico, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro, tá certo? É que ele é acrescido de tantos outros…

Nós temos professor de teatro, de dança, de música, de artes, uma série de coisas que vai ajudar no tratamento. Se você pede aqui, não tem quem é mais importante. Todo mundo é muito importante. Às vezes as pessoas dizem que eu exagero nisso, mas às vezes… Dina, que é servente, numa determinada situação, vai ser muito mais importante do que um psiquiatra. Percebe? “Esse paciente é seu, Sidney”. Sidney tem uma penetração, tem um “chega mais perto” do paciente do que o psiquiatra. Então, vai ser com Sidney ali! Obviamente que a gente vai dar suporte, vai orientar, assessorar, monitorar, percebe? Mas, quem está na frente é Sidney. É o que a gente chama de técnico de referência. Porque o psicótico, ele precisa de um. Ele tem toda uma equipe, mas ele tem um técnico de referência que lhe secretaria, digamos assim, lhe secretaria a vida enquanto ele está precisando, no sentido da perspectiva do fora. Que é sempre assim.

Como funciona a relação com a saída desse ambiente?

Edinha: A gente fala de alta na hora que o paciente chega. Ele chegou agora, a gente fez acolhimento, a gente já está dizendo que ele vai levar um tempo conosco, que a gente espera que seja o mínimo possível, e ele vai sair. Então a gente já inscreve a alta no discurso do paciente, da família. E é nesse sentido que a gente trabalha e isso… Inclusive nós temos um grupo, por exemplo, que a gente já toma “pé dentro, pé fora”. Quando o paciente já está melhorando, já está em vias de sair, ele participa de um grupo – ou aqueles que saíram ainda há pouco tempo – para discutir as dificuldades que eles estão enfrentando, para levantar a autoestima deles, para ajudar ele a planejar, com ele, o dia a dia dele. Então, assim, frequentemente a gente tem visitas de pessoas, de pacientes, que passaram por aí. Que estão bem; estão cuidando da vida!

Esqueci de dizer daquele paciente… É um paciente que a família já não aguentava mais, tinha 19 internamentos; um rapaz com 28 anos, dezenove internamentos… Sabe onde está esse rapaz agora? Professor substituto da Universidade Federal da Bahia. Ele fez vestibular, ele pediu para fazer estágio aqui, de Educação Física, e veio fazer estágio, com os usuários, ele fez a monografia, ele se formou, veio um dia desse dizer para a gente, no mês passado: “Edinha, eu fiz o concurso para professor substituto e passei”! Está na Federal! Professor substituto! Temos advogados, temos pessoas formadas em informática que passaram por aí. Que estão na Universidade. Porque a gente tá sempre dando suporte assim.

Agora, a reforma é feita de tal ordem, que o indivíduo sai daí, e ele vai… Ele não abandona o tratamento. Ele é encaminhado, ele tem uma rede que lhe dá suporte, tá certo? São os Caps, os centros de atenção psicossocial. Isso aqui é um serviço aberto. É um hospital dia, onde o paciente vem de manhã e vai para casa de noite, mas que a gente, o técnico de referência, monitora o tempo todo. O tempo que ele não está aí, que é de noite, ou sábado, domingo, no feriado, qualquer alteração, qualquer fenômeno que ocorra, a família tem o celular do técnico de referência, e liga: “fulano está inquieta, fulano não quer tomar a medicação, fulano está querendo sair”. Então entra em ação o técnico de referência. Pode ser até que necessite ir na casa do usuário, tá certo? Pode ser que, conversando com ele, deixe; pode ser que não.

É uma questão também, assim, de ter tesão para isso! De ter um compromisso. Porque pode ser que de madrugada, ligue. A família ligue e diga: “olhe, fulano está ruim, agitado, não está querendo dormir, tal, tal, tal”… E que a gente tem de dizer: “chame ele aí”. E a gente conversa, conversa, às vezes dez minutos, 20 minutos, meia hora, faz respiração por telefone, o que for necessário. Às vezes é preciso se deslocar até a residência do usuário; às vezes é preciso que encaminhe para um outro serviço, enfim, esse usuário, ele está coberto, na verdade, no que pese vir de manhã, voltar de tarde, mas ele está coberto. O tempo todo.

E como é o dia a dia do serviço oferecido?

Edinha: Logo de manhã é feito o bom-dia, onde a gente procura ver como é que foi a noite, se dormiu, como é que foi o sonho, se teve aporrinhação, brigou, agitou, e o grupo todo trabalha isso – ao tempo em que também a gente trabalha com o grupo de familiares. Tem família que não sabe lidar com o doente mental. E a família não tem nenhuma obrigação de saber.  Então, tem família que rejeita, essa coisa… Rejeita porque a sociedade rejeita. E a família é sociedade. É parte da sociedade. Todo mundo tem medo de doido; a família também tem medo de doido.

A violência, ela está em todo lugar. Violência de toda ordem. Violência visível, violência invisível. Todo dia você abre o jornal e vê: Quantos crimes! Mas no dia que é com uma pessoa doente mental, aí sai: “Doente mental mata!”. Nos outros dias não sai “pessoa normal mata”. Porque se parte do pressuposto. Isto é uma cultura que foi construída e que é difícil desconstruir, de que o louco é perigoso. Uma criança nuca viu um doido. Mas se disser “olhe, é vem um maluco ali”, a criança se pica correndo!  Na frente. Porque, está incrustada aquela ideia de que o doido é perigoso. E que o doido é incapaz. E a gente vê que não é isso. Loucura não tem nada a ver com capacidade, com inteligência, percebe? O sistema de atendimento hospitalar é que torna essas pessoas assim, mortos vivos. Porque no hospital eles não fazem nada. È o passar do tempo anexo. Hoje é igual a ontem, e que será igual a amanhã; nada se modifica. Agora, eu digo que sou radical, trabalhei durante muito tempo no hospital, digo assim: enquanto o hospital não acabar, a gente tem de torná-lo o “menos pior”. Melhor não, porque não vai conseguir. Mas torná-lo “menos pior”. Percebe?

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Imagem do projeto Criamundo, retratado no filme A loucura entre nós.

Existe hospital onde é possível fazer o Criamundo , é possível fazer atividade física, a gente tem de estar fazendo isso. A gente tem o projeto “Tô maluco pra te vê”. Que projeto é esse? A gente tentando trazer a sociedade pra gente. Então já trouxemos Orquestra Sinfônica da Bahia, já trouxemos (o maetro baiano) Fred Dantas, já trouxemos (a cantora) Mariene de Castro.

Tem uma programação que tem todo sábado e domingo, e feriado, que são os piores dias pra eles, que estão no Hospital e que não têm a equipe técnica para dialogar, nem nada; os funcionários vêm saturados, sem condições de trabalho, tá certo? Cansados porque vêm, às vezes, de outros trabalhos, então os pacientes aqui se ferram. O paciente nunca é ouvido.

Se ele disser: “Fernanda me deu uma bofetada”, ninguém vai dar atenção. Porque foi um maluco que disse, isso é delírio. Ninguém acredita.

Um dia eu subi, encontrei um paciente chorando, eu disse: “O que foi?”, ela disse: “Ela me deu uma palmada”.

– “Mentira, D. Edna”.

Eu levantei a saia e, quando levantei estava lá, roxa. Percebe? A outra disse: “A palmatória está ali”. Tinha uma palmatória… Entendeu? De uma outra feita um paciente amarrado na cama morreu por esganadura. Ninguém sabe, ninguém viu. Já essas coisas acontecem em hospital. Todo mundo me fala. E assim a própria psiquiatria avançou muito. Se nós temos hoje métodos mais avançados, mais leves, mais suportáveis, porque utilizar-se de métodos primitivos? Que o usuário não gosta…!

Então eu sou muito criticada porque eu sou contra o eletrochoque. Percebe? Sou contra eletrochoque, sou contra lobotomia? Sou. Porque é muito ruim para o usuário. Porque o usuário não gosta. Porque mata. E eu uso o próprio discurso da medicina que diz: eletrochoque só deve ser usado em última instância. Então eu aposto, eu acredito na medicina e aposto nisso. Vamos usar todos os argumentos, todo potencial, todo instrumental. Se todos falharem, que se use o eletrochoque. Percebe? Agora, o problema é a dificuldade de se usar todo o instrumental, é buscar portas…

Estava com um paciente aí anteontem; ele veio do interior; eu olhando para ele, ele veio e almoçou aí. E eu olhando para ele… Fulano, se continuasse internado, hoje ele não estaria aqui. Estaria morto. Porque ele fez inúmeras sessões de eletrochoque. E por fim fizemos uma briga muito grande e tiramos esse usuário da equipe que ele estava trabalhando. Mudamos ele de equipe, tá certo? Esse usuário passou a tomar medicação de alto custo, que é um mecanismo que a gente tem hoje de grande utilidade, eficácia. Ele está lá com a bicicletinha dele no interior, ele vive a vida dele, vem todo mês buscar a medicação dele.

Um paciente uma vez disse assim: “Se é uma técnica, inventem outra, porque essa a gente não gosta”. Então, o pessoal acha que eu sou radical, que eu quero ser doutora… Nunca seria, porque eu sou assistente social, com honra e glória!

Fale um pouco sobre como você começou nesse caminho.

Edinha: Eu entrei nessa luta desde os vinte anos. Eu fazia o pedagógico, e teve um curso de monitor de praxe, Terapia. Era a questão da cura pela ação, pela primeira vez. E que hoje é a terapia ocupacional. Então eu fiz o estágio, fiz o concurso, passei e fiquei lá. Mas, desde aquele tempo, eu não me conformava muito não. Achava tudo muito doido, muito estranho.  Teve um Natal mesmo, o primeiro Natal que eu passei lá, ainda jovenzinha, que o presente era uma escova, um sabonete e uma pasta de dente. Eu disse: que diabo é isso?Mas isso tem de ser presente de Natal, meu Deus do céu? Ou é uma coisa de todo dia? Percebe? E se dava por uma guarita. Dava aos pacientes por uma guarita! “Para o ano eu vou entrar aí”. Pavilhão de 200 pacientes, e as minha colegas diziam: Você vai morrer aqui, você ainda vai morrer aqui. Eu entrei lá!

Já aconteceu alguma coisa com você? Já se sentiu ameaçada?

Edinha: Já… Já… Já. E na vez que aconteceu o paciente tinha toda razão. Eu tenho essa marca aqui… Uma paciente agarrou em mim. Foram seis pessoas para tirar. Mas uma paciente que tinha toda razão. A gente vinha fazendo um trabalho com ela, a equipe vinha fazendo um trabalho com ela… Eu não vou dizer detalhes porque ela ainda está aí. Pode ser facilmente identificável, é uma pessoa que está aí, na vida. (…) Nos 50 anos de serviço, foi ela.

Qual é a origem da paixão pelo o que você faz?

Edinha: A minha paixão vem de que? (Silêncio) A minha paixão veio de que? Mesmo trabalhando no hospital, e eram tempos terríveis, era coisa completamente diferente de hoje… Biotomia era corriqueiro. Eletrochoque era terça-feira. Terça-feira era dia de eltrochoque. Era aquela fila enorme de pacientes para todo mundo tomar eletrochoque. E eu me colocava muito contra isso. Brigava muito. Eu não concordava com isso. E tudo que tinha de novidade, eu inventava de fazer. Então, comunidade terapêutica, psiquiatria comunitária, é… Tudo que aparecia eu me metia. Viajava, participava de tudo!

Teve uma primeira conferência de Saúde Mental, eu me piquei para o Rio de Janeiro, tempo de ditadura, tempos difíceis pra gente. Eu era considerada… Sou chamada até hoje de Vermelha! Que naquela época era um risco. Eu era “comunista”, né? Porque lutar pelos direitos humanos, qualquer coisa, era ser… Uma desgraça! E aí tinha um amigo, compadre, que era General: “Cuidado, cuidado comadre. Cuidado que você está sendo seguida, comadre”. Aquela coisa toda no ímpeto da…. Hoje não se faz mais gente como naquele tempo. Eu acho.

Mas, enfim, teve essa conferência. Daí nós criamos um grupo, surgiu aí. Criamos um grupo, derrubamos, desfizemos a conferência, fizemos uma outra conferência, em outubro nos reunimos –  eu, aliás, não estava nessa reunião, foi em Bauru. Foi quando surgiu o Movimento Antimanicomial. Surge esse Movimento; de imediato eu me engajo, em janeiro. Então, no início, era eu e um amigo, que é mineiro, Marcus Vinícius* (Prof. Marcus Matraga, assassinado em fevereiro de 2016 no interior da Bahia) uma figura histórica, que tem história marcante na Luta Antimanicomial, conhecido no Brasil. Foi odiado também, tanto quanto eu. A gente enfrenta autoridades, a gente faz críticas públicas, tá certo? A gente bota a cara na rua, e aí a gente foi. Foi se organizando.

O primeiro encontro nacional, inclusive, foi aqui em Salvador. Foi quando saiu a carta de Salvador; a gente fez pela primeira vez uma coisa que não era… Que não passava pela cabeça, o que hoje é comum: a gente sai com o paciente pra rua… Naquele tempo não passava nem pela cabeça de ninguém. Nós trouxemos 600 usuários do Brasil todo! Fizemos um encontro ali me Piatã. O usuário tomando banho, bebendo água de côco, todo mundo achando uma loucura! Ali foi ótimo!

E de dois em dois anos a gente faz um encontro em cada estado. Eu vi um jornalista com a máquina, assim meio tonto… “Pôrra! Aqui a gente não sabe quem é médico, quem é doido”. É isso que a gente quer. Porque não tem diferença! Eu ensino na Faculdade e meus alunos dizem assim: “Ó Edinha, deixe eu ir lá pra ver”. Ver o quê? “Ver como é”. Como é o quê? “Como é que faz, como é o doido”. Eu digo: Pegue o espelho e se olhe no espelho. Doido é assim. Igualzinho a você! E é isso que a gente quer.

Fizemos uma marcha em Brasília, que desembocou na quarta conferência – porque já havia nove anos que não tinha conferência – com 3.000 usuários. Fomos à todos os Ministérios. Fomos no Gabinete do Presidente, que estava em Copenhague. Tava o Roberto Carvalho, que era assessor dele. E aí, todo sem jeito, tudo bem assim… Muitos usuários e dois, três técnicos, assim, assessorando, somente. Porque a gente quer que eles sejam protagonistas! Mas a gente não quer tutelar doido. Aí um paciente de Minas perguntou a ele: “Se o senhor tivesse um assunto muito importante pra falar com o Presidente, o que era que o senhor fazia?”. Ele respondeu: “Eu ia entrar em contato com ele ou por e-mail, ou por telefone…”. Ele disse: “Então faça isso. Faça isso agora, que é importante”. Ele ligou para Lula: “Aí, tem um grupo aqui…”, falou pra ele a situação. “Garanta a conferência ainda esse ano!”. Conferência saiu! Fomos a todos os Ministérios, enchemos Brasília. Agora, não é interessante pra o capital que essas coisas apareçam. Porque, senão, a indústria farmacêutica vende menos remédio. Porque se você tem outras formas de lidar, a gente vai tomar muito menos remédio. Vai comprar muito menos remédio. Não é bom? Não é bom pra quem tem hospital.

Desde quando começou o movimento, com a lei de 2006 pra agora, 65% dos leitos hospitalares já foram desativados. Estamos aqui agora com uma comissão do Ministério, do Conselho Nacional de Direitos Humanos, pra acabar com o manicômio judiciário. Pode ser assim: O que é o manicômio judiciário? O doente mental que cometeu algum delito. Também lá você vai encontrar muita gente que está lá porque mijou na Praça da casa do Juiz. Ou porque buliu com a mulher do Prefeito. Você encontra coisas bizarras lá dentro. Mas Minas Gerais é um Estado grande que não tem manicômio judiciário. Goiânia não tem manicômio judiciário. A pessoa é um cliente do SUS, e ele é tratado no SUS. Do mesmo jeito que qualquer cidadão. Essa coisa que parece que é utopia, mas que não é.

Não afeta você ter que acordar a vida inteira e se dedicar a um processo tão difícil?

Edinha: O que me move é conhecimento de que isso dá certo. Que tem o efeito. Que os doentes mentais não estão amarrados. Não estão babando, tomando eletrochoque. Estão na rua, estão dizendo. Eles fizeram a carta do usuários, fizeram encontro em Santos, eles têm autonomia. Eles são protagonistas. Eles são resilientes. Isso é o que me move. Essa possibilidade de eu ver que acontece na prática. Não é de mentirinha. Sempre que tem algum aniversário em minha casa, meu marido pergunta assim: “Tem doido? Aqui tem algum doido hoje?” Sempre tem! Meus amigos! Eu tenho um bocado de amigos! Entre eles tem muitos que são doentes mentais, vão para o meu aniversário. Obviamente.

Você acha que você é “doida”?

Edinha: Olhe, se ser doida é ser ética, é ser justa, é não concordar com absurdos, com violência ao sujeito, ao direito, é não me completar, eu poderia estar rica! Continuo pobre. Porque o sistema faz isso. Quando você é perigosa, tenta te cooptar. Eu já tive muitas chamadas. Eu já fui adulada pra ser coordenadora de saúde mental. Nunca quis, tá certo? Se ser doido é isso, é poder ter o direito à liberdade, de dizer ao Diretor, ao Secretário, ao Governador, que isso é um absurdo, que você está errado, que isso não se faz, então eu sou doida, tá certo?

O imaginário coletivo sempre brinca que todo mundo é um pouco “doido”…

Edinha: É muito relativo. Depende da normalidade. E a normalidade é um conceito muito fluido. Porque depende da situação. Se você for para um casamento, a sociedade diz que você tem que ir para o casamento de vestido longo, toda arrumada; se você for pra lá de biquíni, vão dizer que você é doida! Mas se você tiver na praia, de biquíni, você não é doida. É muito relativo. Um pajé, numa tribo indígena, que está lá falando com os deuses, fazendo as fumaças dele, “lá, lá, lá…”, fumando o cachimbo dele, é normal, é normal! Aqui, ou em outro lugar qualquer, vai está alucinando. Vai ser preso. A Samu vai trazer. Então esse conceito de anormalidade e normalidade varia muito. Varia com a cultura, varia… Se eu, Edinha, hoje, com setenta anos, sair nua – ando doida que essa moda venha pra eu ainda aproveitar… –, “ai meu Deus, Edinha trabalhou com tantos doidos que ficou doida…” Diziam muito isso aí: “Edinha surtou”. Quando eu não concordava com absurdos. Quando dizia: Mas porque que vai tomar eletrochoque? Já foi feito tudo? Já foi feito estudo de caso? Eu exijo estudo de caso! O paciente morreu. Morreu de que? Quem vai dar atestado? Você viu o paciente morrer? Você sabe do que foi que ele morreu? Então, tem que mandar para o Nina (Rodrigues) para saber porque que ele morreu. Porque há uma lei que diz isso. Aí dizem assim: “Edinha surtou”. Então, eu surto vária vezes, entendeu? Pra as pessoas, “Edinha é maluca”! Meu marido de vez em quando diz: “Não sei como é que deixam você sair do Hospital… Não vê que você é maluca?”. Entendeu?

Como é o procedimento inicial dentro de um acolhimento para um tratamento?

Edinha: Ele é acolhido, a gente discute, ouve a história dele, a família conversa com ele, a gente informa do serviço que nós temos, como é que funciona esse serviço, como será, tá certo? Que estamos querendo ajudá-lo, que vamos dar o cuidado que ele merece, pra que ele saia o mais rápido possível. Apresentamos o serviço, apresentamos as pessoas, tá certo? Mais ou menos como funciona. E ele vai ficando aí. Os próprios pacientes às vezes já acolhem.

IMG_5901 2Quando eu cheguei também fiquei assustada. A gente tenta tornar o ambiente o mais agradável, menos opressor possível, porque isso assusta. E eles chegam aí vê cores, vê um bocado de coisa. Mostro pra eles: Olha, tem um computador aqui se você quiser. Se você quiser tem isso, tem aquilo, tem aquilo outro… E aí a gente vai conversando. E aí o que é que acontece? A equipe reúne. A equipe técnica reúne para discutir. A partir do histórico, da história, do projeto terapêutico, como ele chegou, da situação, a gente traça um projeto terapêutico. Traça um projeto terapêutico e tenta seguir . Não se diz que é fixo. Pode mudar, a gente pode estar completamente errada!

E aí a gente trabalha com o paciente, trabalha com a família, trabalha com o emprego, trabalha com o pastor, trabalha com o pai de santo, trabalha com o território, enfim, tudo que possa estar ajudando ou que esteja prejudicando, a gente acessa para poder dar conta desse usuário. Discute com ele, atende ele individualmente, atende em grupo. Tem uma assembleia geral toda semana, onde participa todo mundo, da coordenação ao servente. Onde todo mundo tem voz. Faz a voz e o voto. E decide o que deve fazer, como deve ser. Até um passeio a gente discute. Para onde é que nós vamos.

Teve uma vez interessante: Uma turma queria ir para a praia, outra turma queria viajar de trem. Teve um lá que disse assim: “A gente pode fazer as duas coisas. A gente vai para Periperi, porque a gente vai de trem, pra praia”. (…) Houve todo um trabalho com a equipe. Era uma equipe que vinha com todos os vícios de hospital, e que foi um cacete pra dar conta disso. Como ainda é, até hoje. Muito difícil! É muito difícil porque de vez em quando a pessoa é capturada pela lógica. Antiga. Entendeu? Eu, como coordenação, tenho de estar muito atenta para que essas coisas não aconteçam.

Uma vez mesmo uma paciente tinha de vir com a mãe; a mãe não dava muita importância. Não veio. Ela veio aí e um membro da equipe disse: “Então, você vai voltar”. Disse: “Não! Você está querendo entrar em rota de colisão com a paciente? Quer disputar, quer brigar com a paciente? Porque a mãe dela não veio?” Ela vai voltar na hora que ela tem de voltar. Então você sempre tem de estar atentando para que essas coisas não aconteçam.

“Vamos pra praia”. É para Periperi? “É”. Vamos de trem. “Fulana não vai, beltrana não vai, cicrano não vai”, porque está muito grave… Justo estas é que precisam ir. “Vai todo mundo!” Aí eu vou pra médica:

– “Vambora fulana…”
– “Ah, não. Pelo amor de Deus. Me peça tudo, Edinha, menos isso. Eu tenho um bocado de paciente pra ver”.
– “Vai ser ótimo! Lá você vai ter oportunidade de ver de uma forma bem mais clara”. Aí tentei, tentei, tapiei, tapiei… Aí ela foi! Quando foi, ela disse:
– “Edinha, muito obrigada. Eu nunca conheci tão bem os usuários como conheci lá”.

São formas diferentes. Por isso que eu digo a você: A gente não sabe se é para fazer assim. A gente não sabe como não é para fazer. Então, os usuários, se eles se veem na condição de decidir, em condição de igualdade, com médico, com coordenador, com todo mundo, ele vai incorporando isso. Ele vai se autonomizando, a autoestima dele vai se elevando. Ele vai descobrindo sua capacidade, tá certo? Hoje mesmo estávamos atendendo um aí que a família leva ela pra Umbanda. Duas vezes na semana. Ela não quer ir pra Umbanda: “Sou católica”! E ela disse para a equipe, chamamos a equipe e ela falou. A família disse: “Ah, mas o que ela diz não sabe o que está dizendo”. Ela sabe exatamente o que está dizendo! Ela está dizendo que não gosta, que não quer participar de Umbanda. “Eu entendo que você está fazendo isso por amor. Por achar que é bom para ela. Mas, ela não está gostando”. Foi uma reunião difícil, tensa, porque tem que ser com muito cuidado, que você não pode perder a família de vista, pra não tirar de repente, de alta pedido, a gente tem que ter todo um manejo. Mas a gente… É assim que a gente trabalha.

Como se pode dar voz o paciente?

Edinha: Isso dá polêmica. Isso vai até para relatório médico: “Que absurdo! Então as pessoas agora têm que ter orgulho de ser louco?” (…) Não. Mas as pessoas têm de “não ter vergonha de ser louco”. Não é um defeito. È uma condição. Essa é a ideia que a gente quer passar. Procuramos uma forma pactuante que tenha efeito, uma repercussão positiva junto aos usuários, que você não imagina. Quem não gosta disso são as outras pessoas, que têm muita vergonha, que escondem seus loucos, que escondem suas loucuras, que botam no quarto, no fundo da casa, que não deixam chegar na janela; essas pessoas é que se incomodam com o orgulho louco. Os usuários não.

O Louco é um Cidadão, mas o imaginário impôs que é uma coisa muito feia, que é uma vergonha ser louco, que é uma vergonha dizer que o pai, que a mãe, que a tia, que o avô é maluco. É uma questão do homem dito normal. O que a gente quer passar é exatamente essa ideia que eles não têm que ter vergonha de ser louco. Percebe? (…) As críticas são muitas. Acham que nós somos irresponsáveis, que nós somos… Sobretudo eu, que não sou médica.  Eu sou muito ousada de querer interferir no conhecimento médico e dizer que eletrochoque é ruim. Eletrochoque É ruim! Você vê ali o cartaz. “Eletrochoque não. Obrigada”. Imagine um na sua cabeça. Você daria eletrochoque na sua mãe?

Agora pegaram um discurso que diz assim: se minha mãe tiver deprimida, meu pai tiver deprimido, eu quero que dê eletrochoque… Eu digo: É mentira! Você não vai dar eletrochoque nenhum porque você sabe… Tanto assim, que você precisa que a família se responsabilize e assine. Se é um saber de vocês, porque é que a família tem de assinar? Porque a bronca que der, a família é responsável. Não são vocês, tá certo? Então tem muita crítica. (…) Muita gente me critica. Hoje ando em relatório médico, falam mal de mim. Tem médico que não me suporta! Tem um bocado de inimigo que nem fala comigo. De mim e de Marcus*!

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Edinha: Não sei. Não sei não. Tantas coisas, teria pra dizer. É muito complexo. È muito complexo! É muito difícil, muito difícil! Eu mesma… Aconteceu um fato no primeiro encontro que nós fizemos aqui, antimanicomial. Pegamos os relatórios: Teve um grupo de usuários, nós da organização, pegamos a origem de todos os grupos, mandamos buscar no Brasil todo… Você sabe que esquecemos de mandar buscar o relatório do grupo de pacientes? Viu que ato falho? Porque a Cultura é uma coisa muito forte. Para você desconstruir dois séculos, é muito forte… Foi o melhor relatório! Mas nós esquecemos, porque era relatório de doido… A gente precisa muito, estar o tempo todo muito atenta pra essas coisas, entendeu? Que não basta dizer que doido é Cidadão. É preciso que a gente o trate como tal, percebe?

Quem é Edna?

Edinha: Eu sou uma mulher de setenta anos, filha de Santo Amaro da Purificação, assistente social. Só. Mãe, mulher. Cidadã. Só isso. Nada mais do que isso. Nada mais. Procuro cumprir minha obrigação. Só isso. Nada mais.

Matraga* O professor Marcus Vinícius (ou Marcus Matraga, como era conhecido) foi um dos pioneiros na luta pela reforma antimanicomial e criação dos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps. Em fevereiro de 2016, dois homens foram até a casa do professor no povoado de Pirajuía, município de Jaguaripe, no Recôncavo baiano, por volta das 19h, e disseram que uma amiga dele passava mal. Um dos suspeitos se identificou como neto da mulher. Ao sair de casa para prestar socorro à amiga, o professor foi rendido e levado de carro até uma estrada de terra do povoado. Lá, ele foi executado com um tiro na cabeça. Nos últimos anos, Marcus mediava conflitos de terra entre indígenas e fazendeiros. Até este momento, ninguém foi preso e a investigação do caso corre em sigilo – apesar dos investigadores afirmarem à imprensa baiana que o processo de investigação já foi todo feito e que as pessoas suspeitas de envolvimento já são conhecidas do crime. Atualmente secretários de Segurança Pública do Estado e de Direitos Humanos da presidência da República, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Conselho Regional de Psicologia e associações antimanicomiais estão marcando encontros  para discutir a agilidade das investigações.

Entrevistando Marcelo Veras – Parte I

Marcelo_VerasContinuando o processo de debate sobre as subjetividades contidas no filme A loucura entre nós, da diretora Fernanda Vareille, damos voz agora ao Dr. Marcelo Veras, autor do livro homônimo que inspirou o filme.

Como a própria diretora admite: “O filme surgiu a partir de uma conversa com Dr. Marcelo Veras, meu amigo, que me deu um exemplar do seu livro e me falou sobre o Criamundo”. A partir daí, a porta para a criação de uma nova obra foi aberta, mas sempre estabelecendo estreitos laços com o universo apresentado pelo Dr. Marcelo – que concluiu recentemente um festejado período como Diretor da Escola Brasileira de Psicanálise.

Então, nada melhor que mergulhar numa conversa franca – e inspirada! – com um dos nomes mais que respeitados quando o assunto é Saúde Mental. Um papo dividido em duas partes (aqui publicamos a primeira delas), onde o Dr. Marcelo Veras fala de sua experiência como Diretor do Hospital Juliano Moreira, de casos presenciados em sua vida profissional, das impressões sobre o documentário feito a partir de seu livro e, claro, sobre os “nós” da loucura existente em cada um de nós!

Qual foi o seu objetivo ao escrever o livro “A loucura entre nós”?

Dr. Marcelo Veras – Após sete anos dirigindo o hospital, havia acumulado muitas histórias e adquirido uma experiência única. Achei importante mostrá-la a um público maior. O livro também teve a função de desfazer a ideia geral de que o psicanalista só vive em seus consultórios, distante do mundo cotidiano. Um psicanalista à frente de um hospital psiquiátrico é a prova de que estamos no mundo real.

Que universo ele aborda? Meu livro trabalha em dois planos; inicialmente busca retraçar as coordenadas históricas que levaram o Hospital Juliano Moreira a ser o que ele era no ano 2000. Ele foi construído com o espírito da anti-psiquiatria e deveria ser um hospital moderno, mas rapidamente havia se transformado em um asilo psiquiátrico que não diferia muito dos asilos históricos que seus idealizadores tanto combatiam. Nesse sentido é importante abordar os diferentes discursos, seus personagens, as ações políticas. Percebe-se rapidamente que uma lógica invisível sempre tende à segregação da loucura e alijamento do louco do contato social. A resposta como psicanalistas não passa tanto pelo macro, mas pela tentativa de estabelecer uma clínica que trate cada caso um a um, no singular.

Ele traduz uma realidade baiana ou seu universo pode ser ampliado para o âmbito nacional? Uma realidade nacional e que pode ser estendida para muitos países. Há algo de universal na segregação da loucura.

Quanto tempo o senhor ficou à frente do Hospital Juliano Moreira? O que pode falar sobre essa experiência? Fui diretor do HJM de 2000 a 2007. As dificuldades eram muito grandes. Escassez de recursos, incompreensão por parte dos órgãos públicos do que era a Saúde Mental, preconceito de todos os lados. Em época de eleições, por exemplo, era comum chegar ambulâncias de toda a parte de Estado simplesmente trazendo os loucos que estavam nas ruas das cidades do interior sem nenhuma necessidade de internação, o objetivo era simplesmente “limpar” a cidade.

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Qual é a representatividade – e particularidades – do Hospital Juliano Moreira quando se fala em tratamento psiquiátrico? É curioso que o hospital tenha se transformado no oposto do que preconizava o psiquiatra que lhe dá nome. Juliano Moreira foi um dos homens mais interessantes da medicina brasileira. Negro e vindo de família humilde, ele mesmo dizia que não seria aceito nas casas das grandes famílias baianas, que lhe restariam apenas os tuberculosos e os loucos. Pois bem, ele foi para a Alemanha, estudou psiquiatria com os melhores do mundo, chegou a ser condecorado no Japão pelo imperador Hiroíto pelos avanços na psiquiatria que concebeu. Foi do primeiros a ler Freud no Brasil. O Hospital Juliano Moreira ainda se reinventa, mas continua a ser a maior referência em termos de hospital público da Bahia.

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Qual a sua relação com a Criamundo? Quando era diretor percebia que um grande entrave para os pacientes vinha da questão econômica. Eles não tinham fonte de renda. Era comum chegar uma senhora dizendo que tinha um filho esquizofrênico, que não tinha dinheiro para cuidar dele, que todos estavam desempregados etc. De repente, exatamente esse filho que era um problema é quem passava a ganhar dinheiro, ajudar na casa. É como se partisse justo dele uma melhora da família como um todo. Inicialmente o projeto virou uma ONG, mas são tantas as burocracias que pesam sobre as ONGs que passávamos mais tempo resolvendo problemas burocráticos do que trabalhando com os pacientes. Em seguida o CRIAMUNDO passou a ser um projeto atrelado à política de cotas para portadores de necessidades especiais de uma fundação, a FAPEX. O que muda quando ela se torna um projeto é que projetos tem começo, meio e fim. Ou seja, não pretendemos perenizar o CRIAMUNDO, queremos que ele seja uma experiência que possa ser contada para que outros inventem suas próprias experiências.

Em linhas gerais, quais são hoje as questões mais pertinentes em relação à discussão sobre o tratamento do paciente psiquiátrico e sua integração à sociedade? A questão sempre apresentou tensões entre os que defendem a internação e os que condenam a internação psiquiátrica. Essa questão é universal. A série Homeland, uma das séries americanas de maior sucesso no mundo, mostra justamente a violência da ação psiquiátrica nas internações. Há também a questão da medicalização excessiva, o que faz com que vivamos em um mundo de adictos. Quase todo mundo usa algum calmante ou antidepressivo em algum momento da vida hoje em dia. Mais uma vez, essas questões possuem diferenças regionais – ou internacionais? Ou seja, existem particularidades nessas questões para diferentes regiões do país? A questão do peso da indústria farmacêutica na prática dos psiquiatras, influenciando diagnósticas, fazendo lobbies com associações psiquiátricas, me parece ser uma questão universal. Outras questões como a qualidade do atendimento dos serviços de Saúde Mental varia enormemente de país para país.

E quais seriam as particularidades baianas nessa área? A Bahia, por décadas, ficou para trás na corrida por uma melhoria dos serviços de Saúde Mental. A partir da última década algo melhorou com o surgimento dos Centros de Atenção Psicossocial, que descentralizam os atendimentos e são alternativas bem menos drásticas de atendimento do que a internação. Mas há ainda muito a ser feito.

(Confira aqui a segunda parte da entrevista com Dr. Marcelo Veras)