Dia Mundial da Saúde Mental

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O Dia Mundial da Saúde Mental é lembrado em todo o mundo no dia 10 de outubro, quando organizações ligadas à saúde mental e aos diretos humanos se unem para dar visibilidade a questões relevantes ao setor. Em 2016, o tema proposto pela Federação Mundial de Saúde Mental (World Federation for Mental Health) para ser divulgado é “Primeiros Cuidados Psicológicos” (Psychological First Aid), como forma de abrir a discussão para o apoio básico – e pragmático – que pessoas em um papel de auxílio podem dar a quem se encontra em sofrimento mental.

Apesar do nome, que em português também poderia ser traduzido por “primeiros socorros psicológicos”, a questão abrange tanto apoio psicológico quanto social. Na verdade, o investimento em primeiros socorros psicológicos é parte de um esforço de longo prazo para garantir que qualquer pessoa em sofrimento agudo devido a uma crise seja capaz de receber suporte básico, e que aqueles que precisam mais do que os primeiros socorros psicológicos receba suporte avançado adicional de saúde, saúde mental e serviços sociais.

Entre as diversas ações programadas pela Federação Mundial de Saúde Mental esse ano, foi criado um guia para trabalhadores de campo, principalmente para ser acessado por pessoas (profissionais de saúde, professores, bombeiros, agentes comunitários ou policiais) que estão em contato com aqueles que passaram por algum tipo de evento causador de estresse crítico, como desastres naturais, guerras ou acidentes. A ideia é levar ao conhecimento público (e não apenas às instituições prestadoras de cuidados e serviços de saúde mental públicos, privados e do setor social) o trabalho realizado em torno de múltiplos eixos estratégicos que envolvem questões da saúde mental.

O guia é disponibilizado em diversas línguas e possui uma edição em português produzida pela Organização Pan-Americana da Saúde. As orientações contidas nele incluem dicas de como abordar uma pessoa em sofrimento mental. Entre as mensagens transmitidas, estão:

*Seja sempre honesto e confiável com quem você aborda;
*Comporte-se adequadamente de acordo com a cultura, idade e gênero da pessoa abordada;
*Tenha consciência de que é direito de cada pessoa tomar as suas próprias decisões;
*Deixe claro para as pessoas que, mesmo se elas recusarem ajuda agora, poderão ainda acessar a ajuda no futuro;
*Não pressione para que alguém em sofrimento conte a sua história ou interrompa quando ela o faz;
*Não faça falsas promessas ou dê falsas garantias;
*Não tire da pessoa a força ou o sentimento de que ela é capaz de cuidar de si mesma.

Entre inúmeros avanços e alguns retrocessos, as questões referentes à saúde mental estão longe de alcançar o patamar ideal de investimentos e de representatividade na maioria das sociedades, apesar do esforço de profissionais brilhantes que não se deixam abater diante das dificuldades e tabus envolvendo o tema.

Aqui no blog do filme A loucura entre nós, muitos desses profissionais contribuíram na criação de um rico material de pesquisa, através de depoimentos que refletem sua vasta experiência na área. Então, neste dia 10 de outubro, sugerimos um mergulho em todo esse conteúdo exclusivo, criado para qualquer pessoa interessada em ampliar o diálogo sobre a loucura a partir das questões exploradas no filme, relacionando-as com o universo da Psicanálise. Boa pesquisa!

 

Entrevista Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes

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Imagem da Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes feita por seu filho, Pedro.

Pesquisadora e consultora extremamente atuante em diversos projetos de políticas públicas para o autismo e a prevenção psicossocial, a Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes conhece de perto as realidades – e necessidades – envolvidas na participação familiar quando se fala no tratamento de pessoas com sofrimento mental no Brasil.

Afinal, participou da construção do Marco Legal Primeira Infância, PLC 14/2015, e escreveu diversos livros relacionando a infância com o universo da psicanálise. Além disso, fundou o Instituto Viva Infância (OSCIP) e o INFANS – unidade de atendimento ao bebê, núcleo São Paulo e Salvador.

Seu currículo inclui ainda Graduação em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (1989), Mestrado em Filosofia da Ciência pela Universidade de Campinas (2003), Doutorado em Psicologia Clínica pela USP (2010) e Especialização em Psicopatologia do Bebê pela Université de Paris Nord, Dep. de Medicina (1990), e em Epistemologia da Psicanálise, UNICAMP (1998).

Toda essa experiência lhe deu uma perspectiva clara sobre diversas questões subjacentes às dinâmicas familiares afetadas pelo sofrimento mental e como a falta de apoio de um núcleo próximo pode gerar processos de exclusão social que em nada contribuem para qualquer tratamento. Nessa entrevista para a equipe de A loucura entre nós, ela divide algumas de suas experiências, jogando luzes – e provocações – necessárias a esse mergulho no universo da Loucura e a Família.

Qual é a relação que se pode estabelecer entre família e a loucura?  Como as relações familiares podem potencializar – ou anular – comportamentos associados ao sofrimento mental?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Essa é uma pergunta complexa porque parece que nela esta implícita uma certa culpabilização da família pela loucura de algum de seus membros. Não compartilho da ideia de que numa relação biunívoca de causa/consequência haja a produção da loucura pela família em si. Também não acredito que a loucura seria o resultado de um “diálogo íntimo” entre a família e um de seus membros. Mas parto do princípio de que a loucura é uma forma de resposta. Uma certa resposta ao sofrimento, à condição de existir.  A loucura não é produzida a dois, mas existe entre muitos. Essa situação fica mais aguda em circunstancias onde as exigências por uma reposta ideal caem por terra.

Mas sabemos que nem toda dinâmica familiar pode ser considerada
 “saudável” – e, às vezes, pode até mesmo ser um gatilho de disparo de processos difíceis para a pessoa em estado de sofrimento mental. Quando a família está incluída nesse elo nocivo de comportamento, como a sociedade – médicos, sistema público de saúde etc. – deve interagir?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – É verdade que pode ocorrer de algumas operações psíquicas fundamentais não terem o tempo para se organizarem a contento – e isso dificultar muito a vida de membros de uma família, mais ainda da pessoa que está afetada diretamente com a loucura. É preciso haver operações para que o desejo materno (operação sustentada por qualquer pessoa significativa para a criança) não seja nem exclusivo e nem exclusivista, e para isso um terceiro é fundamental para instaurar a alteridade que barre a complementaridade apenas de dois membros. É nesse sentido que médicos, sistema de saúde, psicólogos e outros profissionais podem ajudar fazendo essa função de alteridade, de terceiro, de alguém que pensa diferente e que consegue intermediar uma relação intrafamiliar muito fusional, por exemplo. O trabalho em rede é, a meu ver, o de maior potência para cumprir com a função de terceiro, pois possibilita o corte, mas, também, construir uma linha de continuidade e a atenção no trabalho, completando um trabalho de “corte e costura” muito constitutivo. Quando há elos nocivos, como está citado na pergunta, é mais um indicativo que o trabalho não pode ser realizado excluindo a família, mas sim tomando-a como um componente importante do foco de atenção, da ajuda, do atendimento.

Vivemos períodos em que o paciente era isolado da família para se tratar e, em tempos atuais, convivemos com propostas de atendimento à família do paciente. Como você percebe essas transformações?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Ninguém pode se “tratar” de modo isolado, nem isolado de uma família, nem do campo social ao qual pertence. Isolamento ou exclusão não trata ninguém. No caso da saúde mental, separar uma pessoa dos seus laços sociais para que ela se “trate”, na verdade, é querer higienizar a vida, é projetar num único sujeito o mal estar inerente à condição humana, como disse Freud, o “mal estar na civilização”. Portanto, é da ordem de um grande engano essa concepção do isolamento ou da exclusão; presta uma função àqueles que isolam; não aos que são excluídos. Tudo isso para dizer que não há tratamento sem a participação da família – participação não apenas de apoio terapêutico ou algo assim, mas participação nas decisões sobre o tratamento.

 

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Imagem de Elisângela com sua filha, em cena do filme A loucura entre nós.

Quais mudanças você destaca no modo como a família tem convivido com a loucura e as representações sobre o sofrimento mental?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acredito que a participação política da família nas reivindicações e na construção de uma política pública de atenção à loucura tem sido a maior diferença. Mas acho que precisamos enfrentar o tenso debate sobre o apoio à família de modo mais efetivo. A representação da loucura no imaginário familiar avançou mais em famílias participantes de movimentos ou grupamentos politizados, participantes da Lluta Antimanicomial. Porém, de modo mais amplo, ainda há muito preconceito nas relações que envolvem a loucura.

Acredito que a Luta Antimanicomial é de um avanço único, mas acho também que no meio desse percurso a briga política tenha deixado um pouco de tomar o sofrimento da família – e isso pode dar problemas também. Existe algo que talvez tenhamos que rever na nossa luta: a singularidade de como cada família viveu e vive a desinstitucionalização, por exemplo. Digo isso porque, no campo social, essa família ainda fica muito isolada também.

Atendi uma época uma mãe gestante paciente numa moradia assistida. O casal procurou se casar no religioso, mas nenhuma igreja aceitou fazer o casamento, pois eram “loucos”… A família de um usuário não conta com uma rede social que possa acolher de modo simples e modesto, que seja, suas necessidades de inclusão. Falo de escola, igreja, clube, associação do bairro e outros. Há, portanto, o risco da família ficar muito só. O papel da família é fundamental para a inclusão social de qualquer problema em saúde mental, mas ela precisa estar incluída.

Nessa perspectiva, qual seria exatamente o papel da família no tratamento e no cuidado com o paciente?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Em primeiro lugar, condições básicas para suprir as necessidades de uma vida economicamente viável. Vou voltar a esses casos de mães psicóticas e seus bebês ou filhos pequenos: há uma diferença imensa no procedimento até Legal em se tratando de classes sociais distintas. Na classe menos favorecida, como era o trabalho na nossa ONG, desde a maternidade já se colocava o imperativo de que essas mães não podiam ficar com seus bebês, mas ninguém nunca viu isso numa maternidade de classe alta; nenhuma mãe ou pai de classe alta é interditado a priori em relação ao filho desde a maternidade! Então, suprida as condições mínimas de moradia, alimentação e trabalho para os membros da família, a atenção psicossocial pública deve ser o segundo parâmetro de necessidade, pois daqui podem vir as possibilidades de inclusão da família em comunidades ou grupos sociais da sua localidade – não falo aqui mais de dispositivos da própria rede RAPS, mas da rede da cultura, da rede comunitária, escolar etc.

Que aspectos você considera mais relevantes quando se trata de uma proposta de atendimento à família?    

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acho que já respondi nas anteriores, mas gostaria de acrescentar que tudo isso é feito “uma a um”, ou seja, a proposta da rede RAPS do projeto terapêutico singular é fundamental porque todas as pessoas são diferentes e singulares.

Como o Autismo entra nesse contexto?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – O autismo e a loucura são condições distintas. Até 1943 o autismo era tomado como uma esquizofrenia infantil, mas atualmente essa aproximação não se sustenta. A dificuldade que se pode sentir ou persistir em dúvidas, acredito que vem muito mais da impossibilidade de classificações ideais da psiquiatria, do que de uma irmandade entre autismo e loucura. São formas subjetivas diferentes que não podem ser confundidas.

 

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Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes.

Podemos falar em especificidades no que diz respeito ao autismo, quando pensamos nas relações a serem estabelecidas para o cuidado esperado com a família?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Em relação à família de uma criança, ou já adulto, com autismo, é preciso pensar que aqui as dificuldades são de outra ordem. Em primeiro lugar, por ser um assunto que não há ainda conclusões etiológicas comprovadas, as famílias tiveram e têm um papel importante na busca de soluções como podem, seja nas pesquisas desses tipos de atendimentos, seja no campo da atenção, seja no campo dos direitos humanos e políticos. As associações de amigos e familiares de autistas são extremamente organizadas no mundo todo. Mas precisamos ampliar o olhar para poder falar também que essa grande participação das famílias na política e no tratamento de pessoas com autismo, não necessariamente as protege de “enganos” a que podem ser levadas quando se deparam com “promessas de cura”, “tratamentos milagrosos”, “falsas pesquisas” ou “pesquisas com conflito de interesses”. Aqui temos um triste terreno, que ocorre em qualquer área, mas ante a falta de comprovações definitivas, esse tema do autismo tem sofrido mais a ameaça de um mercado ganancioso, que ultrapassa o sofrimento em jogo em muitas situações. Tem sido uma luta difícil para essas famílias, juntar a função de “estudar” e “cuidar” dos filhos com autismo.

O atendimento à família precisa comportar essa dimensão também, além das outras. O autismo pode e deve ser atendido na rede RAPS, e o formato de CAPs tem total condição de prestar um atendimento intensivo e interdisciplinar, com uma excelente proposta de inclusão social; a dificuldade aqui é que essas equipes precisam de maior capacitação para algumas especificidades, como a comunicação alternativa e a integração sensorial. E foi por isso que fomos convidados pelo Ministro da Saúde entre 2012 e 2013 para escrevermos esse documento chamado “Linha de cuidados na atenção à pessoa com autismo e sua família na rede RAPS”. Precisamos colocar em prática tudo isso.

Que diferenças nos resultados podem ser observadas nos tratamentos de pessoas em estado de sofrimento mental quando eles são iniciados logo na infância?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Acredito que um sofrimento que se inicia na infância deve ser tratado assim que se inicia, ou seja, na infância. Se podemos falar em alguma unanimidade no campo da saúde mental ou saúde publica, essa se refere ao atendimento poder ser iniciado assim que haja uma suspeita sobre ele, sem que precisemos aguardar uma cristalização de seus prejuízos, e isso normalmente acontece ainda na infância ou em algumas situações ainda na adolescência (pois sabemos que há uma segunda volta, tanto em termos de poda neuronal, quanto de possibilidades de ressignificações  psíquicas). Portanto, também toda atenção ou investimento público no campo da atenção à infância é, em termos de política pública, de uma grande economia para governos sérios. Então, tanto no âmbito do trabalho individual, caso a caso, quanto numa política de Estado, é unanimidade que sa atenção se inicia assim que a dificuldade ou o sofrimento se iniciam; os resultados são muito melhores e, atualmente, não há qualquer pessoa que possa dizer o contrário.

Como você avalia o modelo dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS no que se refere à prevenção?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Eu considero o modelo dos CAPS um grande modelo para a saúde mental. Há a ideia de integralidade, de portas abertas, de equipe interdisciplinar, com um grande objetivo de inclusão social e ser referencia para as famílias, além da possibilidade de conjugar as outras redes do SUS. Acho que é um modelo extremamente avançado, realmente. Existe a possibilidade de atendimento intensivo e semi-intensivo, com alimentação e oficinas etc. As moradias assistidas, que são projetos importantíssimos de inclusão social e ajuda à família, também fazem ponte com a rede dos CAPS. O objetivo de inclusão que está no espirito essencial de um CAPS é um trabalho de prevenção; não prevenção da loucura, mas dos efeitos secundários e perturbadores da exclusão social e da segregação. O problema para o CAPS de conseguir cumprir a contento com sua função são problemas que não advém de sua concepção, mas da falta de recursos e da limitação quantitativa de sua rede.

O que você acha essencial dizer para as pessoas sobre a loucura?

Dra. Cláudia Mascarenhas Fernandes – Diria em primeiro lugar que, nem de perto e nem de longe, ninguém é normal! A condição da loucura em si não inviabiliza a vida de ninguém; o que inviabiliza a vida de alguém é a segregação, a exclusão e a falta de oportunidade. Assim, numa sociedade pautada pela cadeia produtiva, em que a padronização das respostas está tão em voga, essas pessoas sofrem mais, por estarem, muitas vezes, com menos condições de responderem às exigências desse tipo de mundo capitalista. É fundamental que se tenha lugar para todos; um lugar para todo mundo com suas singularidades.

Mostra do Filme Livre 2016

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A loucura entre nós foi selecionado para a MOSTRA DO FILME LIVRE 2016 e estará no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais, entre os meses de março e junho! O filme foi selecionado entre os 1.342 inscritos e será exibido nas sedes do Centro Cultural Banco do Brasil das quatro cidades, com entrada franca!

O documentário da Água de Março Filmes integrará a mostra Territórios, com obras que partem de questões locais muito específicas, mas que têm em comum a busca por um tempo inerente a cada espaço filmado, estabelecendo, pelas transformações consequentes das ações de um sobre o outro, seu próprio tempo interno.

A programação:

18 de março, sexta-feira | 16h | Rio de Janeiro
04 de abril, segunda-feira | 19h | São Paulo
11 de abril, segunda-feira | 19h15 | Rio de Janeiro
01 de maio, domingo | 19h |Distrito Federal
12 de junho, domingo |19 | Minas Gerais

Para mais informações, entre aqui!

Escola Brasileira de Psicanálise

A Escola Brasileira de Psicanálise vai realizar essa semana em São Paulo duas sessões do filme “A loucura entre nós”, de Fernanda Fontes Vareille. A primeira acontece no dia 04 de março, às 19h30, na Fnac do Shopping Don Pedro, dentro do projeto “Cine debate”. A segunda acontece no dia 05 de março, às 10h, na capital paulista, dentro da abertura das atividades da Diretoria de Biblioteca da EBP-SP. Nos dois casos, a exibição será seguida de um debate sobre as questões abordadas no filme. Confira abaixo os nomes de quem estará presente em cada sessão!

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Críticas no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema

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A passagem do filme A loucura entre nós no no último dia 31 de outubro, em Salvador, rendeu algumas críticas sobre a obra. Aqui, dividimos algumas com vocês:

Intenso, essa talvez seja a melhor forma de traduzir o filme de Fernanda Fontes Varielle sobre os internos do Hospital Juliano Moreira. (…) A Loucura Entre Nós não quer construir teses, nem mesmo dar respostas a quaisquer questões, tanto que não entrevista médicos, nem assistentes sociais. O documentário quer apenas dar voz a esses pacientes e mostrar que por trás do estigma de ‘loucos’, existem pessoas ali que não são necessariamente perigosas, mas trabalhadores, artistas, mães, seres humanos que são tudo isso ao mesmo tempo e algo mais.”  – Texto escrito no Portal Cine Pipoca Cult por Amanda Aouad – Crítica Afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Leia a crítica na íntegra aqui.

“Os personagens reais do documentário revelam seus anseios, desejos e delírios de forma muito honesta, levando o espectador a questionar o que é a loucura e quais os impactos negativos do modelo asilar para o ‘interno’. As personagens mais fortes são as femininas que norteiam o filme de formas marcantes. (…) Essa delicadeza do universo feminino, concomitante, com a força e fibra delas é o marco da narrativa. A fotografia é crua, onde a câmera é um personagem revelador, ele inspira confiança aos depoentes que a usam como um espaço para verbalizar suas angustias, desejos e alegrias”. – Site Vozes da Voz. Leia a crítica na íntegra aqui.

Os labirintos do olhar no filme “A loucura entre nós”

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Por Marcelo Veras*

Não quis escrever sobre o filme A loucura entre nós antes de seu lançamento em Salvador. Surpreendi-me com uma pequena multidão que rapidamente lotou as três salas do Espaço Glauber Rocha ontem à noite. No debate ocorrido após a projeção falei rapidamente de um ponto que considero precioso e que as câmeras conseguem demonstrar com muito mais facilidade do que meu próprio livro. Refiro-me ao modo como podemos trabalhar com o olhar na clínica da loucura. O olhar na clínica é habitualmente identificado com seu poder disciplinador. Ao enquadrar, ele demarca uma alteridade entre o clínico/observador e o paciente/observado. Muito já foi dito sobre esse aspecto e a referência foucauldiana ao Panopticum de Bentham tornou-se um clássico na Saúde Mental. Quando fui diretor de hospital psiquiátrico tive a certeza do peso desse olhar absoluto e do modo como esse olhar organiza os espaços e os corpos, estabelecendo um dentro e um fora. O olhar clássico sobre a loucura é sempre um olhar de fora para dentro. É como se só pudéssemos vê-la por uma fresta entre as grades, protegidos e separados.

O filme tem longas sequências fixas mostrando precisamente uma porta. Do lado de dentro, onde se situa a câmera e os pacientes do projeto Criamundo, temos a impressão de estarmos em uma ilha dentro do asilo. A loucura é um teatro que se passa do outro lado das grades. Contudo, rapidamente nos damos conta da impossibilidade de estabelecermos um muro eficaz. A primeira cena mostra um grupo de participantes do projeto trabalhando tranquilamente, em um ambiente claro e limpo, e aos poucos nos damos conta de que a paz é cortada pelo urrar de uma paciente. Urro de horror e desespero, vindo de alguma enfermaria do lado de fora.

O plano da porta é um perfeito enquadramento para a loucura. Na verdade esse plano lembra um pouco a play scene de Hamlet. Toda vez que uma porta ou uma janela aparece em um cinema temos a visão de uma cena dentro da cena. O público sentado na plateia já está diante da tela que é um enquadramento. O escuro em torno da tela é uma moldura. Então focamos o filme, e aí percebemos a loucura por trás da porta. Nesse momento é a realidade retratada no filme que faz papel de moldura, a loucura está mais além.

Eis que a câmera atravessa a porta, inicialmente como observadora. Ela passa a percorrer os corredores do asilo. Aos poucos os pacientes vão descobrindo a câmera. E de repente ela se torna um canal de expressão, eles começam a dizer para a câmera tudo que a instituição calava. Doravante eles não estão mais submissos ao olhar absoluto; outro olhar, o da câmera, faz furo no panopticum de Bentham. Aos poucos o olhar subverte a segregação imposta. A loucura não está mais do outro lado, ela está entre nós. Cada história narrada desconstrói o retrato. Não é possível, contudo, viver sem uma moldura e ao final vemos como cada um vai se virar com sua própria invenção de realidade. Os personagens deixam de ser um retrato fixado pelos discursos da saúde mental. O filme, lembro, não é uma ficção. No final, as protagonistas, cada uma a seu modo, escolhem uma solução para o peso do olhar insistente do Outro. Uma personagem atravessa a moldura e a outra escapa do olhar deixando-se confundir na multidão.
*Dr. Marcelo Veras é autor do livro homônimo que inspirou o documentário A loucura entre nós. Esse texto foi retirado do post do seu Facebook publicado em 01 de novembro de 2015, um dia após a exibição do filme no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador.

Garanta seu ingresso já!

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Por causa do sucesso mesmo antes da exibição de A loucura entre nós no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, que fez acabar rapidamente os ingressos para as duas salas disponibilizadas ao filme no festival, a produção do Panorama acaba de abrir outra sala (a terceira!) para a nossa sessão do dia 31 de outubro de 2015 (próximo sábado) no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha (na Praça Castro Alves, em Salvador).

Então, se você não quiser perder a chance de viver nossa estreia na capital baiana ao lado de nossa equipe, recomendamos garantir já o seu ingresso na bilheteria do Espaço Itaú de Cinema. A inteira é R$ 10,00 e a meia é R$ 5,00. Existe ainda o passaporte econômico, que dá direito a dez filmes do Panorama!

Após a sessão, haverá um debate em uma das salas, com a presença da diretora Fernanda Fontes Vareille, da produtora Amanda Gracioli e do Dr. Marcelo Veras (autor do livro homônimo que inspirou o filme).

A loucura entre nós participa da Competitiva Baiana do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema e tem patrocínio da Petrobahia e da Carbocloro (através do artigo 1° A da Lei 8685/93, Lei do Audiovisual).

Estreia em Salvador

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A loucura entre nós finalmente vai ser exibido em Salvador, dentro da Competitiva Baiana do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema. A sessão na capital baiana, cidade que deu origem à ideia, ao desejo e à produção envolvendo as histórias – retratadas sem filtros ou julgamento – sobre os caminhos que percorremos em busca de uma aparente normalidade, acontece no dia 31 de outubro no Espaço Itaú de Cinema (Cine Glauber Rocha), às 20h, e contará com um debate com a presença da diretora Fernanda Fontes Vareille e a produtora Amanda Gracioli (Águas de Março Filmes), após a exibição.

O Panorama Internacional Coisa de Cinema é um dos principais eventos cinematográficos do estado da Bahia – e também do país – e, este ano, acontece no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha (Salvador – BA), na Sala Walter da Silveira (Salvador – BA) e na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (Cachoeira – BA). Os ingressos custam R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia) e R$ 30 (passaporte com direito a 10 filmes do Panorama).

Com patrocínio da Petrobahia e da Carbocloro (através do artigo 1° A da Lei 8685/93, Lei do Audiovisual) A loucura entre nós, da diretora Fernanda Vareille, faz um recorte extremamente poético sobre a vida de pessoas com passagem pelo hospital psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador, cujos depoimentos, histórias e relações propõem reflexões sobre os caminhos, ganhos e perdas que cada um de nós vive na busca por uma possível “normalidade”. Um documentário que quebra o isolamento de pessoas vivendo nos limites de ruptura com a realidade, abrindo uma discussão sobre os paradoxos da reinserção da loucura no mundo em geral.

Crítica do Vancouver Latin American Film Festival

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A revista canadense SAD Mag publicou uma crítica do filme A loucura entre nós, depois que o doc da Água de Março Filmes participou do VLAFF – Vancouver Latin American Film Festival (cuja 13ª edição aconteceu entre 3 e 13 de setembro no Canadá). A
SAD Mag é uma revista dedicada a cobrir as artes a cultura independentes de Vancouver a partir da perspectiva de escritores e artistas locais emergentes. A crítica de “The Madness Among Us” foi produzida por Nana Heed, que escreveu:

A representação dos entrevistados de Vareille é sensível a ponto de evitar a exploração de uma minoria vulnerável. Elisangela é uma das duas principais entrevistadas, com uma voz poderosa, um relacionamento amoroso com a filha, e um forte desejo de trabalhar duro e preservar sua dignidade na vida”.

Vendo uma combinação de entrevistas preparadas com várias pessoas que acessam a Criamundo, bem como o que foi gravado na câmera após Vareille parecer ter deixado rolar na frente de um portão, ou andando pelos corredores segurando-a, constrói-se um senso de confiança no sentido de suas explorações de “normalidade” e da luta para estar vivo em cada um de nós”.

O filme se desenvolve de tal maneira que você pode se emocionar por cada momento, há um espectro de humor, desgosto e comentário crítico. Nem uma única vez o filme é excessivamente fixado na doença mental de uma pessoa como o principal ponto de inspeção”.

Leia a crítica na íntegra em inglês, aqui!

Crítica de Rafael Carvalho

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“A loucura emerge não como característica que rotula, mas como um embate constante para não se perder e para não se deixar perder de vista. Há quem nela sucumba e quem na multidão se infiltra, querendo ser mais um entre tantos, dignos de levar a vida adiante”.

A crítica é do jornalista baiano Rafael Carvalho, que assistiu A loucura entre nós no Festival Cachoeira Doc, na Bahia, e publicou suas impressões em seu blog, Moviola Digital. Para ler a crítica completa, entre aqui!