Entrevista Dra. Vládia Jucá

A loucura entre nós é um filme sobre sujeitos e suas histórias. Revela, principalmente, a subjetividade de duas personagens em especial: Leonor e Elisângela, duas mulheres de realidades sociais bem distintas, mas que se encontram em trajetórias e questionamentos comuns. Ao dar voz àquelas que, muitas vezes, compõem uma parcela da população negligenciada, a obra abre ao público um universo novo e cheio de contradições.

E já que o documentário pode ser visto a partir de vários prismas, por que não sobre prisma do “Feminino” que ali nos é apresentado? Mais ainda: Se ao longo da evolução da psiquiatria a loucura foi colocada lado a lado com a identidade feminina, qual seriam hoje as questões próprias sobre o sofrimento mental que as mulheres têm que enfrentar?

Para responder a essas – entre muitas – questões envolvendo esposas, filhas, irmãs, amantes e outras “caixas sociais” impostas às mulheres, conversamos com a psicóloga Vládia Jucá, Doutora em Saúde Coletiva pela UFBA e Pós-Doutoranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Professora do Instituto de Psicologia da UFBA, ela encontrou em sua trajetória diversas histórias difíceis vividas por mulheres, mas avisa: “Claro que a condição feminina agrega algumas curvas ao sofrimento. Agora, é o que pertence a cada um que verdadeiramente interessa; ou seja, não há classificação que contemple a complexidade de cada sujeito com sua história e seus impasses”.

Pode-se dizer que, historicamente, a mulher vem sofrendo mais que o homem quando pensamos nas relações político-sociais envolvendo o sofrimento mental?

Vladia

Dra. Vládia Jucá – Certamente as relações de poder entre gêneros que perduraram por séculos em nossa cultura deixaram a mulher mais vulnerável a uma série de violências e, de modo mais sutil, mas não menos importante, a muitos constrangimentos e impedimentos promotores de sofrimento. Recentemente, tivemos o caso da adolescente violentamente estuprada por vários homens no Rio de Janeiro. Eis um exemplo extremo do quanto uma cultura que objetifica a mulher pode levar a situações de sofrimento inimagináveis. A indignação e a rápida resposta nas redes sociais a qualquer tentativa de minimizar o ocorrido são indícios de que esta cultura se encontra em mutação.

Neste sentido, é importante destacar que as mudanças socioculturais produzem também variações nos elementos que propiciam e agravam o sofrimento psíquico, bem como nas formas pelas quais tal sofrimento se expressa. As conquistas femininas, tanto no âmbito político mais amplo quanto nas suas relações afetivas e de trabalho, lançaram novos impasses. A mulher que outrora sofria sob o imperativo de ser “bela, recatada e do lar”, hoje precisa atender a ideais muito elevados: ser bem-sucedida no mercado de trabalho, gerenciar bem o lar, ser boa mãe e ser mais que bela. No contexto mais íntimo, seu prazer também é regido por uma outra normatividade, distinta daquela presente na lógica do “recatada”, posto que agora, além de dar prazer a seu parceiro sexual, é necessário ter prazer intensamente e dar provas disto. O prazer deixa de ser uma possibilidade e se torna uma obrigação.

Basta comprar qualquer revista feminina ou rapidamente passar os olhos em alguns sites e blogs para percebemos o quanto os imperativos são vorazes e estão intimamente atrelados ao que, em psicanálise, chamamos de discurso capitalista. Um discurso que nos leva a ter uma relação muito particular com nossos corpos, que passam a valer pela capacidade de capturar o olhar do outro.

Claro que os ideais e os imperativos sobre os quais falei não vão afetar a todos do mesmo modo, porque estou tratando de um contexto cultural extremamente amplo, onde encontramos grupos com particularidades diversas e também sujeitos que são singulares em seu funcionamento, e no modo pelo qual se relacionam com tais ideais. Aliás, os que destaquei como estando atrelados ao discurso capitalista causam mal-estar tanto em mulheres quanto em homens.

O contexto social atrelado à condição feminina também tem incidências sobre o sofrimento. Com isso não quero dizer que as mulheres “ricas” são mais felizes. A princípio, elas contam com mais recursos para o enfrentamento das adversidades, apesar de serem mais facilmente devoradas pelo discurso capitalista. Justamente por contarem com mais recursos, podem investir mais em uma imagem que nunca está à altura. O resultado desta equação sem solução é muita insatisfação e mal-estar.

Por outro lado, na rede de assistência à saúde mental pública, não é raro encontrarmos mulheres cujo sofrimento psíquico tem sido muito agravado pela vulnerabilidade social. O excesso de encargos, as dificuldades de obtenção de uma renda mínima para sustentar a si e a outros que delas dependem, o não acesso a educação, saúde, lazer e também aos bens de consumo e padrões corporais vigentes – por que não? – agudizam as dores apresentadas por estas mulheres, por vezes, reeditadas através de gerações.

Até que ponto os padrões masculinos e femininos existentes na sociedade contemporânea ainda podem contribuir para o desencadeamento e/ou agravamento de questões envolvendo o sofrimento mental?

Dra. Vládia Jucá – Creio ter respondido esta pergunta na questão anterior. Assim sendo, vou apenas trazer mais um elemento para pensarmos. Ideais muito elevados auxiliam na produção do sofrimento e isto independe do gênero ou da orientação sexual. Vivemos em uma sociedade onde os ideais estão muito inflados; portanto, temos uma produção de sofrimento em larga escala e, paradoxalmente, o sofrimento não é bem tolerado. Rapidamente ele é medicalizado. O que ele desvela acerca de nossas escolhas e da sociedade na qual vivemos, não queremos saber. Afinal, pensar sobre o mal-estar, utilizá-lo como matéria prima para um possível deslocamento subjetivo, parece colocar em risco um dos maiores ideais e imperativos de nossa época: sermos felizes. A felicidade também se tornou um bem de consumo e, como o prazer, não é uma opção, é uma obrigação. Aliás, mostrar-se feliz talvez seja o mais importante. O facebook parece ser literalmente revelador neste sentido. É a vida como um livro aberto através do qual nos apresentamos com a face que escolhemos para o olhar de tantos outros. Se não receber curtidas, a imagem de nossa felicidade se encontra em séria ameaça.

Para completar, as balizas sociais que durante muito tempo tiveram uma função apaziguadora em nossas conturbadas existências fragilizaram-se.  Assim, ao habitarmos um mundo de incertezas cada vez mais escancaradas, de laços sociais voláteis e ideais muito elevados, o mal-estar cresce. No lugar de se tornar ponto de interrogação, o mal-estar tem sido silenciado com uma grande contribuição da indústria farmacêutica e das práticas “terapêuticas” que primam por um alívio imediato ou, talvez, o que seja ainda mais cruel, pela adaptação a uma ordem extremamente perversa.

Existem ainda hoje clínicas ou profissionais que encaram questões específicas da mulher como patologias, como no passado? Como você avalia o DSM-5 neste quesito?

Dra. Vládia Jucá – Sua pergunta imediatamente me remete à embriogênese da discussão sobre a histeria que durante muito tempo foi pensada como um fenômeno atrelado ao feminino. No Egito Antigo, por exemplo, quando ainda não se utilizava o termo, já se considerava que as manifestações corpóreas que serão – séculos depois – pensadas como uma patologia denominada “histeria” se deviam a um deslocamento da matriz: o útero. Com a medicina hipocrática, esta ideia foi retomada. Para quem tiver curiosidade sobre essa curiosa história, vale a pena ler o livro “A Lição de Charcot”, escrito por Antonio Quinet.

Charcot

Óleo sobre tela de Pierre André Brouillet, 1887: Une leçon clinique à la Salpêtrière.

O exemplo da histeria deve ser o mais clássico e famoso no que diz respeito ao estabelecimento de uma relação entre algo que passará a ser considerada propriamente doença mental – a partir do século XVIII – e o universo feminino. No entanto, não é único. Na história da saúde mental, a mulher figurou como sendo mais propensa ao adoecimento, inclusive porque era pensada como mais suscetível a desvios de conduta, por assim dizer.

Bom, nos primórdios da psiquiatria, a associação entre doença mental e o feminino reforçava um lugar desfavorável que reafirmava as relações de poder atreladas as questões de gênero. Contudo, este movimento tinha um efeito colateral: sobre o feminino pairava, vou arriscar dizer, certo mistério, algo que resistia ao conhecimento e que era das mulheres, mesmo que fosse compreendido como fora da norma.

Séculos depois, com a publicação do DSM-5, em 2013, o Transtorno Disfórico Pré-menstrual (TDPM) foi incorporado à categoria dos Transtornos Depressivos. É um fato curioso. Sinal de que o corpo feminino continuou a desconcertar o saber médico. Até nas “regras” as mulheres parecem fugir à ordem. Contudo, uma mudança, precisamos reconhecer: a patologização ou o estranhamento não incide mais sobre a mulher, mas diz respeito a variações hormonais dentro de parâmetros estritamente sindrômicos. No DSM, a mulher, um ser enigmático, não mais interessa. Trata-se de pensar nos hormônios e efeitos que estes têm sobre o corpo.

A velha e nem sempre boa TPM, ao ser “elevada” a um tipo de transtorno depressivo, acaba por ter também uma resposta prêt-à-porter: antidepressivos. Se o feminino ainda aparece atrelado ao adoecimento mental nos dias de hoje, eu diria que, infelizmente, é de um modo muito empobrecido.

Quais são, hoje, as questões de gênero que estão sendo debatidas quando se pensa nos avanços da reforma psiquiátrica?

Dra. Vládia Jucá – No cenário da reforma, a direção do cuidado em saúde mental passa a ter uma maior consideração para com os laços sociais fragilizados ou perdidos durante o adoecimento. Isso implica investir nesses laços para que o sujeito acometido por um sofrimento desagregador, em vários sentidos, possa voltar a participar, com sua singularidade, dos circuitos de trocas que compõem o campo social. As pessoas introduzem novas reinvindicações, por exemplo: o direito de amar, de ter uma vida sexual e de constituir ou resgatar laços familiares, dentre eles, o que dizem respeito ao exercício da parentalidade.

Nas minhas andanças na saúde mental, não foram poucas as vezes que me deparei com relatos de mulheres que engravidaram, pariram e tiveram seus filhos sequestrados nos manicômios. Outras tantas tiveram os filhos na rua e, por uma conjunção de sofrimento, falta de assistência e falta de suporte social, perderam as crianças, seja por intervenção da justiça, seja porque “optaram” por dá-las a quem tinha mais condições de criar.

A reforma propunha uma clínica que cuidasse do sujeito em sua relação com os outros, em uma perspectiva de trabalhar no sentido de fazer acontecer a (re) inserção possível para cada um. O que traz a reboque a necessidade de pôr entre parênteses nossos julgamentos apriorísticos acerca do que seria o melhor para o outro.

Pela primeira vez algumas questões puderam vir à tona. Foi um passo importante. Além das que eu falei, ainda podemos apontar para as reflexões acerca das diferenças de gênero no tocante ao uso de substâncias psicoativas e aos dilemas éticos envolvendo a parentalidade por parte de quem apresenta um uso abusivo das referidas substâncias. O fato de profissionais nas maternidades estarem angustiados diante, por exemplo, das mulheres usuárias de crack, é positivo, desde que funcione como um grito de alerta: é preciso cuidar antes, é preciso trabalhar em rede, é preciso operar para que o sofrimento de uma mulher não seja agravado e uma criança institucionalizada em um abrigo.

Mas, preciso confessar: é muito duro falar sobre isto no momento histórico que vivemos no Brasil atual. Um tempo marcado pelo desmonte do que estava dando certo e pela inviabilização de tantas coisas mais que poderíamos fazer.

Leonor e Elizangela juntas

Leonor e Elisângela juntas no filme A loucura entre nós. Foto Gabriel Teixeira.

No filme A loucura entre nós, são duas mulheres que conduzem, com suas histórias, a maior parte da narrativa, impregnando a obra com uma subjetividade que pode ser vista também como pertencente ao universo feminino. O que muda no olhar que podemos ter sobre certas patologias quando pensamos sob esse aspecto?

Dra. Vládia Jucá – Muda o olhar sobre o patológico e sua relação com a feminilidade. O pathos não deriva da condição feminina; faz parte do humano. Claro que a condição feminina agrega algumas curvas ao sofrimento. Agora, é o que pertence a cada um que verdadeiramente interessa, ou seja, não há classificação que contemple a complexidade de cada sujeito com sua história e seus impasses. Não é por compartilhar o mesmo CID que os sujeitos são os mesmos. Até na apresentação dos sintomas eles diferem. Se pegarmos duas pessoas com um conteúdo delirante com elementos em comum – “ser o redentor” –, as diferenças se farão notar. Há nuances e detalhes que são muito peculiares a cada sujeito. A narrativa das duas mulheres no filme, os caminhos percorridos, os encontros e os desencontros (inclusive entre elas) aponta para uma delicadeza necessária na clínica: a de tratar cada sujeito não a partir do seu diagnóstico, mas a partir de seu modo de fazer laço.

No caso da quebra com os padrões de “normalidade”, que tipos de preconceitos específicos as mulheres sofrem – e que são diferentes dos vivenciados pelos homens?

Dra. Vládia Jucá – Certamente merece destaque as mulheres em abuso de substâncias psicoativas. Em linhas gerais, os “loucos” são considerados como pessoas que adoeceram, independente de sua vontade. Por isso, são tratados com uma maior tolerância quando comparados com os que fazem uso de drogas. É como se, no último caso, o desvio pudesse ser explicado de modo muito simples por uma escolha, ou seja, “fulano está nessa porque quer”.

Quando se trata de mulheres, vemos o quanto a imagem acima falada da “bela, recatada e do lar” ainda assombra. Aquelas que são do bar, para usar de um trocadilho que circulou recentemente nas redes sociais, sofrem grandes rechaços porque contrariam alguns ideais. Dentre eles, o de boa mãe. Não obstante todas as contribuições da antropologia, da psicanálise e, eu acrescentaria do mundo da vida, continuamos a persistir na ideia de que há um instinto materno que deve ser superior a tudo.

Mesmo sabendo que não deveria ser assim, incomoda muito mais a imagem de uma mulher sob o efeito de substâncias do que a de um homem. Quando se trata de um caso de dependência psíquica e química, e o cuidado consigo deixa de existir, a situação da mulher é julgada sem atenuantes. Parece que nossos olhos são mais sensíveis a determinadas contrariedades imaginárias.

De que maneira esses preconceitos podem ser quebrados por cada um de nós?

Dra. Vládia Jucá – Eu falei tanto sobre o olhar na entrevista e me ocorre que podemos pensar em como abrir outras possibilidades de olhar para as questões sobre as quais conversamos. Eu acredito muito no poder da arte e de outras formas de intervenção cultural para criarmos novas sensibilidades e alterarmos algumas já instituídas. Lembro-me do relato de algumas mulheres que integram o grupo teatral Os Insênicos, quando falam o quanto a nova identidade de atriz permitiu que seus filhos e outras pessoas do seu convívio olhassem para elas por outro ângulo. Produzir bons documentários ajuda também. Neste sentido, é muito importante que A loucura entre nós circule e seja visto por muitas pessoas. No final, trata-se disso: assustar-se menos com a circulação da loucura. Por mais que tentemos afastá-la ou bani-la, ela é teimosa; está sempre entre nós e em nós, independente da nossa disponibilidade para encarar o fato.

 

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