Entrevistando Marcelo Veras – Parte II

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Como podemos definir “Loucura”? E “normalidade”? Para quem devemos “prescrever” o filme “A loucura entre nós”? Essas são apenas algumas das perguntas respondidas nessa segunda – e última – parte da entrevista com Dr. Marcelo Veras, autor do livro homônimo que inspirou o documentário dirigido por Fernanda Vareille. Uma conversa franca, inspiradora e absolutamente necessária para a discussão sobre como podemos passar “da Loucura, com letra maiúscula, conceito abstrato, para a loucura de todos nós”. (A primeira parte da entrevista pode ser conferida aqui)

O senhor imaginou que o seu livro poderia inspirar um filme algum dia?
Dr. Marcelo Veras – É curioso, pois meu livro não é um romance; é um livro técnico para pessoas que se interessam pela psicanálise. Aos poucos fui tendo ecos de pessoas de diferentes partes do Brasil, que o livro os havia influenciado e mudado o modo de ver a loucura. Não fazia muita ideia do que viria quando Fernanda me propôs a filmagem. Hoje me parece extremamente óbvio que a única possibilidade seria a adotada por ela.

Apesar do filme “A loucura entre nós” se inspirar em seu livro homônimo, são duas obras bem diferentes. Quais são as semelhanças entre as duas?
Mostrar que há um impossível em todo tratamento da loucura. Quem vai se lançar na área da Saúde Mental verá seus conceitos e ideais caírem por terra, um a um. A própria Fernanda não sabia o que iria encontrar. A grande surpresa que acontece tanto no livro quanto no filme é que começamos achando que sairemos com respostas sobre a loucura e no final descobrimos apenas histórias singulares. Ou seja, passamos da Loucura, com letra maiúscula, conceito abstrato, para a loucura de todos nós, inclusive a minha e a sua.

O que mais lhe chamou atenção no filme?
O poder das imagens. Não me preocupo muito com a verdade que o filme pode passar, acho interessante ver todo o universo que convivi virar outra coisa; é como se tudo desaparecesse atrás das próprias imagens que revelam. Entendi agora o que Baudrillard dizia com o desaparecimento do real por trás das imagens; um filme nunca é o que mostra, é outra coisa.

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O senhor diria que o filme e o livro são para públicos diferentes?
Sem dúvidas! Há no livro uma parte muito técnica, que fiz mais voltada para os psicanalistas que lidam no dia a dia com a Saúde Mental. Mas a sensação é muito parecida, pois a mesma perplexidade que a Diretora Fernanda Vareille sentiu ao entrar no Juliano Moreira, eu posso dizer que experimentei desde o primeiro dia.

Qual seria o público do filme, então? De leigos ou especialistas?
O filme trata de vidas. Daquilo que, na vida, somos submetidos e do poder de transformação de cada um. Considero o filme uma experiência universal; não faria distinções.

IMG_5864Que aspectos o filme aborda que seriam fundamentais para a discussão sobre a loucura e a inserção do paciente psiquiátrico na sociedade contemporânea?
Com certeza a humanidade dos dramas, a capacidade de nos trazer para o lado da loucura e nos mostrar que o sofrimento humano é uma experiência singular, e que não pode ser isolado em uma categoria clínica específica. Todos buscamos um sentido para nossas vidas, quer estejamos internados em um hospital psiquiátrico ou trancados atrás das grades de algum condomínio de luxo.

Quais são ainda os grandes tabus envolvendo o tema, hoje?
O maior de todos é a associação de loucura e violência, sobretudo quando percebemos que a proporção de crimes acometidos na loucura é muitíssimo menor do que de crimes feitos em plena consciência. Em seguida, a associação de loucura e deficiência, o que dá a ideia que a loucura torna o sujeito menos inteligente e apto para a vida, o trabalho ou o amor. É claro que tudo isso existe, mas não necessariamente está associado à loucura – e sim às condições de violência e segregação a que eles são submetidos.

Como uma pessoa que não possui um quadro clínico relacionado à saúde mental pode se identificar com as personagens do filme em suas buscas pela normatização de suas relações sociais?
Todos nós temos algum parafuso solto; é por isso que todos se reconhecem em alguma fala do filme. Certa vez um político famoso visitou o estande do Criamundo em uma feira e fez várias perguntas sobre o projeto, sua finalidade etc. No final ele disse que gostaria de conhecer os loucos beneficiados pelo projeto. Foi aí que todos disseram que eram eles mesmos os beneficiados. Foi impressionante como, após ele ter se dado conta de que falava por muitos minutos com os loucos, tornou-se impossível para ele falar qualquer frase concatenada. Ficou claro ali, naquela cena, o dito popular, falar de igual para igual com um louco é uma tremenda bandeira.

Como o senhor definiria “Loucura”?
Um sofrimento que não se apoia no sentido comum para obter alívio.

E “normalidade”?
A paixão pelo sentido e o horror à falta de sentido da vida.

Para quem o senhor “prescreveria” o filme “A loucura entre nós”?
Inicialmente para minha filha de 12 anos, para os jovens em geral. É preciso que um debate sério sobre a loucura comece muito cedo, é na escola que muitos preconceitos se cristalizam.

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